Um cachorro, Campeão. Vivia só com ele e começou a me incomodar. Levei-o ao bosque, deixei-o amarrado com uma corda que pudesse romper com um pouco de perseverância e voltei para casa.
Em um par de dias estava arranhando a porta; deixei entrar.
Ficou intolerável; levei-o a um bosque mais distante e o amarrei a uma árvore com uma corda mais grossa (sabia que o defeito não estava na corda, mas na fidelidade do animal; tinha, talvez, a esperança secreta que desta vez não pudesse se soltar e morresse de fome).
Voltou alguns dias depois.
Então soube que o cachorro voltaria sempre. Não me atrevia a matá-lo por temor aos remorsos; e pensei que ainda que conseguisse efetivamente perdê-lo, num bosque mais distante ainda, viveria com o temor constante de seu regresso; atormentaria minhas noites e turvaria minhas alegrias; me amarraria mais sua ausência do que sua presença.
Então duvidei apenas um instante frente à majestade do bosque compacto que se alçava diante de meus olhos – sombrio, imponente, desconhecido –; resolutamente, comecei a entrar, e continuei entrando até que, finalmente, me perdi.
[ Mario Levrero, do livro La Maquina de Pensar em Gladys, 1ª ed, Tierra Nueva, 1970, Montevideo - 2ª ed., Arca, 1998, Montevideo, trad. JRT ]
o bom de vir aqui, além da qualidade constante, é trombar com autores que você nunca tinha ouvido falar até vir aqui, ahahah… bonito, cabra. abração!
não só me identifiquei como leitor, mas também com o narrador, e mais ainda, nublado, me reconheci no cachorro. Existe livros traduzidos desse homem Mario?
(gabrie!)
Esse livro do Levrero é muito massa.
bom que cê reconhece, zema
não existe nada traduzido do levrero no brasil, gabriel; até mesmo no uruguai é difícil achar coisa dele
e cumé que cê conhece o levrero, antonio? ah, esqueci: você é uruguaio.