História sem retorno n. 2

Um cachorro, Campeão. Vivia só com ele e começou a me incomodar. Levei-o ao bosque, deixei-o amarrado com uma corda que pudesse romper com um pouco de perseverância e voltei para casa.

Em um par de dias estava arranhando a porta; deixei entrar.

 

Ficou intolerável; levei-o a um bosque mais distante e o amarrei a uma árvore com uma corda mais grossa (sabia que o defeito não estava na corda, mas na fidelidade do animal; tinha, talvez, a esperança secreta que desta vez não pudesse se soltar e morresse de fome).

 

Voltou alguns dias depois.

 

Então soube que o cachorro voltaria sempre. Não me atrevia a matá-lo por temor aos remorsos; e pensei que ainda que conseguisse efetivamente perdê-lo, num bosque mais distante ainda, viveria com o temor constante de seu regresso; atormentaria minhas noites e turvaria minhas alegrias; me amarraria mais sua ausência do que sua presença.

 

Então duvidei apenas um instante frente à majestade do bosque compacto que se alçava diante de meus olhos – sombrio, imponente, desconhecido –; resolutamente, comecei a entrar, e continuei entrando até que, finalmente, me perdi.

 

[ Mario Levrero, do livro La Maquina de Pensar em Gladys, 1ª ed, Tierra Nueva, 1970, Montevideo - 2ª ed., Arca, 1998, Montevideo, trad. JRT ]

 

4 Respostas para “História sem retorno n. 2”


  1. 1 zema ribeiro Julho 2, 2008 às 5:17 pm

    o bom de vir aqui, além da qualidade constante, é trombar com autores que você nunca tinha ouvido falar até vir aqui, ahahah… bonito, cabra. abração!

  2. 2 editor Julho 4, 2008 às 12:10 pm

    não só me identifiquei como leitor, mas também com o narrador, e mais ainda, nublado, me reconheci no cachorro. Existe livros traduzidos desse homem Mario?

    (gabrie!)

  3. 3 Antônio Xerxenesky Julho 6, 2008 às 10:48 pm

    Esse livro do Levrero é muito massa.

  4. 4 jocareinersterron Julho 16, 2008 às 3:00 pm

    bom que cê reconhece, zema ;)

    não existe nada traduzido do levrero no brasil, gabriel; até mesmo no uruguai é difícil achar coisa dele

    e cumé que cê conhece o levrero, antonio? ah, esqueci: você é uruguaio.


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