s o r t e

* * *

Na impossibilidade de escrever um post, resolvo ir até ali, a Montevideo, em busca de inspiração e de expiação. Encontro Montevideo, o que não deixa de ser alguma coisa. Continua no mesmo lugar, a las orillas del Rio de la Plata.

Montevideo vista da areia (ventava muito e a areia não deixava ver nada; por sorte a câmera é uma máquina, e máquinas não se incomodam com areia nos olhos).

No interior deste café não ventava, a não ser nas idéias. Uma pausa para o café e um bizcocho pode fazer bem, pensei. Quem sabe eles não vendam medialunas recheadas com idéias para posts?, pensei também.

No café Las Misiones me informaram que medialunas rellenas de idéias estavam em falta (alguma greve aduaneira na margem ocidental do Prata, parece), mas eu poderia encontrar alfajores com o mesmo tipo de recheio no Café Brasilero (não me olhem torto, não fui eu quem sequestrou o “i”). A moça me alertou que talvez eu também encontrasse por lá o Eduardo Galeano, mas era só me fingir de morto que tudo bem, ele não puxaria conversa. Já pensou, uma idéia para um post político? E eu nem vivo em Cuba.

No Café Brasilero não encontrei o Galeano, mas encontrei esta moça, que insistiu em me fotografar. Eu deixei e ela teve a idéia de nos fotografar juntos. Eu achei que se não era uma boa idéia, ao menos era um bom começo.

Pedi um café ao garçom do Café Sportsman na calle Tristán Narvaja e ele me trouxe um livro de acompanhamento, em vez de um amanteigado. “Aqui no Uruguay é assim”, ele disse. “Assim como?”, eu perguntei. “Assim. Nós percebemos quando um cliente precisa de idéias para posts. Esse livro aí tá cheio”, ele respondeu, piscando. O livro é um volume póstumo chamado “Conversaciones con Mario Levrero” (de Pablo Silva Olazábal, Trilce, 2008). Levrero é desses autores que você nunca ouviu falar, até entrar no meu blog. Esta afirmação me faz pensar que, se ainda não tenho idéias, ao menos já tenho convicção. Devo estar no caminho certo.

 

 

 Quando saí do Sportsman, a rua estava coalhada de boas idéias. Nesta banquinha encontrei um exemplar de “La Novela Luminosa”, de Mario Levrero, livro igualmente póstumo (Alfaguara, 2005) resultante de uma bolsa Guggenheim, na qual ele deu — muito a contragosto, suponho — o calote em 2004, quando morreu deixando o livro inacabado.

Mas deixemos de morbidez, por enquanto. Eis uma foto da moça, que se chamava Uruguaia do Crato (digo “se chamava” porque ela é uma espiã internacional, e espiãs internacionais sempre mudam de nome; aprendi isso no Egito). Notem que o perfil da Uruguaia do Crato parece iluminar a plaza Sarandí. Ilumina-me imenso a mim também, mas isto vocês não podem ver, pois estou detrás da câmera.

 

Após tanta iluminação, tivemos a idéia de descer até o Mercado del Puerto para almoçar uma parrilla. À esta altura eu já havia percebido que Montevideo era o lugar perfeito para idéias surgirem, afinal por lá não existe mais nada a fazer a não ser (como vocês bem podem verificar) tomar café, caminhar, comprar livros, comer carne e ter idéias. O Uruguai é um lugar totalmente vazio (inclusive de pessoas; o Mario Levrero, por exemplo, não está mais lá), e o vazio é onde as idéias se propagam. É o que eu espero.

 

O Mercado del Puerto é um lugar mágico, algum guia turístico internacional já afirmou. Não sei se bovinos, galináceos, suínos e ovinos acreditam em magia, mas eu acredito.

 

 

 

 

E assim que a vaca uruguaia foi pro brejo, mas antes passou pelo meu prato. O apelido do bife de chorizo no Uruguay (assim como na França) é entrecote, mas não tivemos tempo de criar essas intimidades.

 

 

 

 

Depois do rango, uma paradinha para mais um autoretrato. Nesse ponto, a barriga cheia não me permitia ter idéia nenhuma, ao contrário do que ocorria com a Uruguaia do Crato, em plena realização das suas (e que podem ser conferidas no Postais de Liliput; as fotos deste post também foram feitas por ela, claro).

 

 

 

Mais à noite, minha busca angustiada por algum novo post nos levaria ao glorioso bar Fun-Fun, a meca do tango e da uvita, um negócio que eles bebem por lá e que não me trouxe idéia alguma, só dores de cabeça.

 

 

 

Antes de cair no tango, porém, mais alguns passos por Montevideo, uma verdadeira cidade fantasma. Não devem existir pessoas que acreditem mais na vacuidade dos domingos do que os uruguaios, como pode ser comprovado nesta foto tirada na Ciudad Vieja. Acho que foi nessa hora que vi Felisberto Hernández e Mario Levrero num papo animado na Mercearia del Hacha. Não quis interrompê-los e deu nisso: não faço a menor idéia do que escrever em meu blog. E agora?

 

 

 

 

 

 

 

 

Como a Uruguaia do Crato passava por uma fase vulcânica, tantas eram as suas boas idéias, ela teve mais uma delas. Amanhã será outro dia, pensei satisfeito, mas com a alarmante sensação de que alguém já havia pensado aquilo antes de mim.

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3 comentários sobre “* * *

  1. xinho disse:

    pq o comentario vem lah em cima, antes de sabermos se vale a pena ou nao comentar aquilo que foi escrito? to achando que eh um truque, marketing puro. ou nao. eh soh pra enganar os fakers da vida mesmo.

  2. doidivana disse:

    Eu também acho muito esquisito o comentário na cabeça, logo de cara. Você precisa dar um tempo pra gente pensar. Chi, esqueci que não falo com você nunca mais. Depois da mancada de ontem, tô de mal pra toda vida. Sem beijo

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