s o r t e

* * *

Havia muitos anos que eu não assinava jornal. Buscando idéias para posts, resolvi voltar à vida de assinante. Se não encontrei o que me servisse, ao menos me reencontrei comigo mesmo, outra pessoa mais civilizada que antes imaginei presa ao passado. Existe algo de muito reconfortante em acordar pela manhã e ver o jornal diante de sua porta. É um sentimento de civilidade antigo (eu sou um homem antigo, ou — se não tão antigo assim — ao menos de hábitos antigos), um sentimento tão fora de moda quanto o hábito de tomar café da manhã. Fora de moda, está claro, para aqueles que não podem tomar café da manhã. Essas são as verdadeiras vítimas da moda, não há outras. E são tantas. Embora seja reconfortante encontrar o jornal na soleira, sua leitura não o é. Agora espero tal reconforto se igualar ao teor das notícias. Para isto acontecer, basta abrir a porta no domingo cedo e não encontrar mais o jornal onde deveria estar, dobrado sobre o tapete de boas vindas. Ou haveria algum conforto em saber que existe outro leitor neste condomínio além de mim, certamente menos favorecido do que eu, mas ainda assim um leitor? Restam amoladores de faca a perambular pelo bairro, isto eu sei. Da maneira que o mundo caminha nunca faltará trabalho a esses profissionais da lâmina. Será, porém, que ainda existam leiteiros que entreguem leite em garrafas? E padeiros que entreguem pães? Eu realmente gostaria de enriquecer a manhã desse outro leitor, meu igual, meu irmão. É preciso alimentá-lo, nem que seja de más notícias.

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4 comentários sobre “* * *

  1. Quando criança, me imaginava adulta, acordando tarde e lendo o jornal ainda embaixo do edredon, acompanhado de uma xícara de café. Deu certo, até; a diferença é q o jornal foi substituído por um smartphone, mais barato que uma assinatura, com a vantagem de não sujar os dedos nem se acumular pela casa… mas não posso dizer que é a mesma coisa. Mas o que sinto falta mesmo é do leite em garrafa na porta, de manhã.

  2. jocareinersterron disse:

    eva

    sem sujar os dedos não tem a menor graça;

    bernardo

    você não é o meu vizinho de baixo, é? pode ser coicidência, mas na hora que seu comentário chegou eu jogava unhas recém cortadas no jornal recém assinado pela janela do escritório;

    ivana

    eu te entendo a ponto de até saber qual é o jornal.

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