r e s e ñ i c e a g u d a

2 X VX

I.

 

Aos 74 anos o paulista Valêncio Xavier pode ser considerado o mais jovial escritor brasileiro em atividade. Tal paradoxo serve para demonstrar com que total insubordinação sua obra vem destilando nos últimos trinta anos toda sorte de impurezas alheias às normas literárias, porém quase sempre com alcance apenas subterrâneo. Em seus livros Valêncio costura ícones como um montador de cinema, outra de suas ocupações, tendo dirigido filmes e prestado assessoria iconográfica a diversos cineastas. Assim — e com precisão cirúrgica de legista — ele parece ser o único autor atual a continuar as intervenções visuais propostas por Machado de Assis em seu “Brás Cubas”.

 

Mas a artesania dessas justaposições não se limita à união de textos e de imagens numa proporção onde não é possível distinguir superioridade entre uns e outros. Em páginas de livros como “O mez da grippe” (1981 – reeditado em 1998) e “Minha mãe morrendo”, além da indiscutível onipresença da morte, o que clama por atenção são os diálogos com outras linguagens, como a literatura pulp ou o cinema. É esta proximidade a celebrada em “Crimes à moda antiga” (2004, Publifolha), livro que reúne assassinatos escabrosos ocorridos no Brasil e adaptados para as telas entre 1906 e 1930.

 

Publicadas originalmente em 1978 e 1979 na revista Atenção, de Curitiba, as narrativas (pela primeira vez reunidas em livro) misturam o tom sensacionalista dos cinedocumentários e das reportagens de rádio, recuperando na maior parte casos ocorridos numa São Paulo ainda estagiária da sua atual condição de metrópole refém dos muros eletrificados e da violência.

 

Em 1908 parecia fácil livrar-se de um cadáver: bastava ser proprietário de mala com tamanho condizente à vítima (ou nem tanto assim — às vezes alguns ajustes se faziam necessários), tomar um navio e jogá-la do convés, a caminho do Rio de Janeiro. Foi assim que Miguel Trad tentou se livrar do corpo do patrão, antes de ser impedido por dois tripulantes. Este crime da mala é um dos poucos no livro ainda a permanecer no imaginário popular brasileiro, talvez por se confundir com outro homicídio envolvendo bagagens ocorrido vinte anos depois. Em 1928 José Pistone matou sua esposa Maria Féa e, depois de maquiá-la com cuidado, a despachou de navio para um falso endereço na Itália. O corpo mutilado foi descoberto antes do navio zarpar e o italiano foi preso. O caso certamente serve para ilustrar a ingenuidade dos facínoras “românticos” da época, ainda não contaminados pelas engenhosas sugestões dos filmes noir dos anos quarenta e muito distantes da perversão dos supercriminosos atuais, mais interessados em genocídios. Também é curioso ver a predominância de nomes estrangeiros entre os bandidos, como os de Rocca e Carletto (os “estranguladores da Fé em Deus”), ou dos gângsteres tropicais Kindermann e Papst. Era o auge da imigração no país e o exotismo de tais nomes incendiava a imaginação dos brasileiros, além de deixar arder o preconceito.

 

Um dos principais elementos da ficção de Valêncio Xavier é essa delimitação precisa de suas narrativas ao espaço-tempo compreendido pela Belle Èpoque, o que atribui certo ar anacrônico aos seus livros, sempre calcados na memória de eventos históricos, adulterados ou não. Em tom de teatro Gran Guignol, neles é constante a presença da morte, da magia, além da amputação de corpos acompanhando o decepar de textos. No entanto a colagem gráfica de extrema originalidade de “O mez da grippe” ou “O minotauro” (cronologicamente posteriores, em ordem de composição) não está presente em “Crimes à moda antiga”. O que só aumenta a sua importância, nos permitindo compreender como o Frankenstein de Curitiba atingiu a fórmula do equilíbrio entre retalhos verbais e visuais para dar vida aos seus melhores livros.

 

 

II.

 

Os numerosos “raccontos” e “novellas” de Valêncio Xavier anteriormente publicados em jornais e revistas aos poucos vão sendo reunidos, como em “Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros” (Companhia das Letras, 2006), volume recém lançado que reúne sete dessas histórias. 

   

Talvez pela condição mesma de suas estranhas narrativas que usam gravuras antigas e fotografias (a ponto de em alguns casos quase prescindirem de texto), o autor de “O mez da grippe” sempre foi pródigo em publicá-las no suporte mais volátil das páginas da imprensa, provavelmente enxergando maior proximidade entre sua obra e a aparência gráfica da comunicação impressa, prorrogando assim sua existência mais definitiva na forma de livro.

 

Exímio detetive do lixo visual da cultura de massas, Xavier recupera imagens e palavras nesses contos (há neles considerável número de expressões caídas em desuso, como a “rremembranças” do título), antes relegadas ao esquecimento público, apropriando-se e lhes arranjando novo lugar. Sua obsessiva insistência em publicar quase que apenas em jornais durante as décadas de 80 e 90 sugere certa ética da devolução, a de devolver ao lixo o que no lixo foi recolhido, dada a fugaz existência desse meio.

 

Arrancar do esquecimento, entretanto, também é o que o autor paulista radicado em Curitiba faz com a “menina de rua morta nua” relembrada no conto que dá nome à coletânea. Utilizando-se de trechos de telejornais como o “Aqui & Agora” e recortes de periódicos, Xavier nos recorda do assassinato de uma menor de idade ocorrido em 1993 no trem-fantasma de um parque de diversões barato de Diadema. Num processo de evocação da menina morta e esquecida, a narrativa devolve à vítima os atributos humanos que lhe foram destituídos pelo crime e pelo olvido, reinventando modernamente a tradição da celebração fúnebre por meio da nênia, ora de maneira entrecortada e “quebrando, via lembrança, via repetição, a banalização espetacular da morte” promovida pela mídia sensacionalista e espetaculosa, no dizer de Flora Süssekind.

 

Todos os livros de Valêncio Xavier têm como fio da meada entre suas histórias essa abordagem pouco reconfortante da morte e das perversidades do sexo, numa potencialização superlativa de sua contiguidade autoral com o universo da obra de Dalton Trevisan, outro autor cuja poética igualmente está fundada nos descalabros do convívio social entre anônimos. Assombrando os leitores com seus personagens lúbricos do facínora drama suburbano do dia-a-dia, as relações entre o Vampiro e o Frankenstein de Curitiba tornam-se cada vez mais evidentes e indissociáveis, exigindo aprofundamento para melhor compreendê-las em sua complexidade siamesa.

 

Resta celebrar o cuidado da edição e a capa de Raul Loureiro e Cláudia Warrak, desde já uma das melhores do ano, e que propõem um curioso contraste entre o luxo do livro e o material resgatado do lixo de que é feita a literatura de Valêncio Xavier. 

 

[ Artigos publicados na Folha de S. Paulo em 2004 e 2006, respectivamente. ]

 

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5 comentários sobre “2 X VX

  1. reuben! disse:

    Outro dia encontrei “Meu 7º Dia” (lembra da editora?) num sebo por aqui. O Rremembranças eu acho especialmente fascinante, o “Aqui e Agora” ainda não tem o charme dos jornais antigos e o risco é maior, o desconforto é maior, a falta de literatura é maior. Nunca esqueço aquele aviso, “Trem-fantasma coisa nenhuma. V.X.”.

    Meo Deos, que comentário barroco!
    Abração!

  2. Como dizia o poeta mexicano Jose Emilio Pacheco [ver poema abaixo], não há escapatória possível para quem quer escrever literatura de verdade:
    Vidas de los poetas
    En la poesía no hay final feliz.
    Los poetas acaban
    viviendo su locura.
    Y son descuartizados como reses
    (sucedió con Darío).
    O bien los apedrean y terminan
    arrojándose al mar o con cristales
    de cianuro en la boca.
    O muertos de alcoholismo, drogadicción, miseria.
    O lo que es peor: poetas oficiales,
    amargos pobladores de un sarcófago
    llamado Obras completas.
    Irás y no volverás, 1973

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