r e s e ñ i c e a g u d a

Viver de literatura?

A edição de setembro de 2008 da (ótima) revista argentina El Interpretador traz uma enquete realizada com cerca de cinqüenta autores argentinos a respeito do ofício de escritor. Entre os consultados estão desde nomes mais conhecidos aqui na Petrolândia, ex-Bananosborough (Alan Pauls, Martín Kohan, Luis Gusmán, Aníbal Ford, Edgardo Cozarinsky etc), às revelações dos últimos anos (Pedro Mairal, Fabián Casas, Daniel Link, Gustavo Nielsen, Juan Terranova, Oliverio Coelho etc). Entre estes últimos se encontra mí hermanito Cristian De Nápoli, organizador de Terriblemente Felices, Nueva Narrativa Brasileña (Emecé, 2007), poeta, prosador e o maior divulgador da literatura brasileira na margem ocidental do Prata.

 

Analisando as respostas dá para perceber que, embora a literatura argentina tenha maior espaço para sua divulgação do que a literatura brasileira (cerca de 500 milhões de pessoas falam espanhol no mundo, contra 215 milhões de falantes do português — e nem vamos discutir aqui as diferenças relativas à alfabetização), não nos diferenciamos muito deles no que se refere à profissionalização dos escritores. Para verificar isto, resolvi adaptar as perguntas feitas por El Interpretador e repeti-las a alguns autores brasileiros. Vejamos o que Daniel Pellizzari, Rodrigo Lacerda e Marçal Aquino têm a nos dizer.

 

 

Daniel Pellizzari

 

1. Você vive de literatura?

Sim. Nem sempre da minha, mas sim.

 

2. Que lugar a literatura ocupa no seu modo de ganhar a vida?

Não entendi.

 

3. Se você tivesse que comparar o ofício da escritura com outro tipo de trabalho, qual seria?

Qualquer outro trabalho que exponha pessoas quase patologicamente

sensíveis à execração pública.

 

3. Como você costuma trabalhar?

Sentado ao computador, fumando de quinze em quinze minutos.

 

4. Quanto tempo dedica a escrever?

Na cabeça, o tempo todo. Tempo demais, até. Digitando, depende. Às

vezes horas a fio, às vezes dez minutos.

 

5. Alguém lê seus textos antes de serem publicados?

Sim, tenho um punhado de leitores que não têm medo de me aplicar

bordoadas e em cujo julgamento confio na medida do possível.

 

6. Escreve de maneira regular?

Às vezes. Neste ano, sim. Todos os dias um pouquito.

 

7. Lê outros autores enquanto está escrevendo?

Só aqueles que me humilham profundamente e me deixam às raias da

paralisia, de tão agradecido.

 

 

Rodrigo Lacerda

 

1. Você vive de literatura?

Não. Mas ser escritor de literatura é um ótimo cartão de visitas para os outros trabalhos.

 

2. Que lugar a literatura ocupa no seu modo de ganhar a vida?

Na minha renda mensal, é pouco, bem pouco, e incerto. No meu modo de ganhar a vida a literatura tem uma grande influência, pois em nome dela já sacrifiquei muitas oportunidades de ganhar muito bem.

 

3. Se você tivesse que comparar o ofício da escritura com outro tipo de trabalho, qual seria?

Psicanalista. Vivo tentando apreender o inconsciente dos meus personagens.

 

3. Como você costuma trabalhar?

Não tem regra, devido à escassez de tempo. Mas é sempre no computador e, de preferência, na parte da manhã.

 

4. Quanto tempo dedica a escrever?

Todo o tempo que posso. Nos bons momentos, posso trabalhar até umas dez horas por dia.

 

5. Alguém lê seus textos antes de serem publicados?

Sim. Costumo dar para pessoas que, por um motivo ou por outro, me parece que serão leitores rigorosos e gentis ao mesmo tempo. E costumo fazer uma edição do autor antes de fazer a edição oficial.

 

6. Escreve de maneira regular?

Não. Cada livro tem um jeito de sair; uns mais torturados, outros menos.

 

7. Lê outros autores enquanto está escrevendo?

Se não lesse, não leria nunca, pois estou sempre escrevendo.

 

 

Marçal Aquino

 

1. Você vive de literatura?

Prefiro pensar que vivo a literatura, mas não de literatura.

 

2. Que lugar a literatura ocupa no seu modo de ganhar a vida?

A literatura responde por 0,3% dos meus ganhos, de acordo com meu contador.

 

3. Se você tivesse que comparar o ofício da escritura com outro tipo de trabalho, qual seria?

O de médico legista, com a diferença que os legistas lavam as mãos ao fim de um dia de trabalho.

 

3. Como você costuma trabalhar?

Escrevo sempre à mão, em cadernos.

 

4. Quanto tempo dedica a escrever?

Todo tempo possível que não é dedicado às coisas da sobrevivência.

 

5. Alguém lê seus textos antes de serem publicados?

Várias pessoas lêem meus textos antes da publicação.

 

6. Escreve de maneira regular?

Todos os dias, quando estou envolvido com algum livro novo.

 

7. Lê outros autores enquanto está escrevendo?

Leio e releio, sem maiores problemas.

 

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2 comentários sobre “Viver de literatura?

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