r e s e ñ i c e a g u d a

A cada dia o Sol ilumina a Terra de um ângulo distinto

No filme “Smoke”, de Paul Auster e Wayne Wang, há um momento em que Augie Wren, o personagem vivido por Harvey Keitel, mostra ao personagem de William Hurt a obra fotográfica que vem realizando nos últimos dez anos. São fotos registradas por 4 mil dias seguidos às 8h da manhã no mesmo endereço, a esquina do Brooklyn onde mantém sua tabacaria. “É uma crônica de minhas lembranças”, afirma Augie, convicto de que aquele é o projeto de sua vida. Na paisagem apenas aparentemente imutável da Rua Terceira com a Sétima Avenida surgem pessoas novas e diferentes a cada dia, automóveis e bebês em carrinhos de mão que aparecem e somem na multidão, nunca iguais, sempre distintos em sua semelhança fugidia. “Mas são todas iguais”, afirma o personagem de William Hurt, estupefato. “Todas são iguais, mas cada uma é diferente das outras”, responde Augie, sugerindo-lhe que analise com vagar as fotos dispostas nas páginas do álbum. “Há dias nublados e dias com sol. Há sol de verão e sol de outono. Há dias úteis e feriados. Há pessoas com abrigos e outras usando camisetas e shorts. Às vezes são as mesmas pessoas, às vezes são outras diferentes, às vezes as pessoas diferentes se convertem nas mesmas, e as mesmas desaparecem. A terra gira ao redor do sol e a cada dia o sol ilumina a Terra de um ângulo distinto”, Augie ensina, e não conheço melhor lição para observar fotografias do que a sua, lição particularmente útil para observar imagens com alto nível de sutileza como são as registradas por Isabel Santana.

 

A teoria de Augie Wren se particulariza por não ser uma teoria da fotografia, como existem tantas, mas uma teoria da observação. Ela sugere que mudanças registradas no plano bidimensional da imagem podem ser causadas através do filtro do observador, um olhar que, ao ser acionado, também opera transformações no resultado da leitura fotográfica. É precisamente a esse observador participativo que as fotografias de Isabel Santana melhor falam, e ao falarem, assim como Augie, elas sugerem que sejam vistas devagar, lentamente, aos poucos: com minúcia. Devemos ouvi-las, essas imagens, talvez como se fossem música. O ritmo vagaroso das três fotos de Isabel Santana aqui expostas se confunde com o estático, com o imóvel, porém mais acertado seria informar de que se trata do ritmo atento e oscilante do tímido, daquele que olha e recolhe seu olhar na alternância veloz de quem vê e logo se arrepende de ter visto. A imagem colhida dessa maneira ciclotímica permanece na lembrança, onde é alimentada pela imaginação. Seus contornos variam como a luz do dia, e a velocidade borrada do olhar rápido que as registrou exige, ao contrário, lentidão do olhar de quem as absorve. E a cada vez que as observamos, poderemos perceber novas fulgurações vibrando sob a luz inaudita de outras circunvoluções do sol.

 

 

Na primeira dessas fotografias, cuja violência de contrastes é sempre reveladora, podemos ver o mais perfeito retrato da solidão. O contraste aqui não se conforma ao aspecto gestáltico existente entre massas escuras e claras e aos diversos planos que compõem o quadro, chegando às raias da oposição numérica. O que vemos: o número dois (o casal) ruma para sentido distinto do vislumbrado pelo número um (o homem solitário e de expressão amarga à mesa). O alvo da observação do homem, fora de quadro (a água do rio?; O horizonte aquático?; o nada?), deixa-o absorto. Cabe aqui a elucidação etimológica: absorver, do latim absórbere, “fazer desaparecer engolindo”.

 

Em outra delas podemos ver um jogo de planos e luzes ainda mais hiperbólico: a mulher gorda e velha admira sob sabe-se lá quais rubricas a jovem mulher magra em dois planos em tudo contrastados, desde a contenção da mulher que admira em primeiro plano até o júbilo da moça ao fundo, sendo ungida pelo jorro de luz da cascata que a atinge. Resta aqui um terceiro plano elusivo, o da fotógrafa obscura que em sua timidez imita a visão da fera prestes a dar o bote sobre sua vítima. Qual seria a vítima, aqui, a não ser a baixeza dos sentimentos demasiado humanos flagrados no momento mesmo de sua ocorrência?

 

Na terceira e mais estranha dessas fotografias, o estático predomina a ponto de causar dúvidas a respeito da autenticidade do que vemos: essa silhueta pertenceria a um homem ou a uma estátua? A incongruência de testemunharmos um homem que alimenta o oxigênio com seu regador à espera dos resultados de uma semeadura improvável recorda Drummond e seu fazendeiro do ar. Para lá de nosso ceticismo, entretanto, existe outro observador mais crédulo: o sol não parece duvidar em nenhum momento dos frutos de tal empreitada, contribuindo com sua luz farta. Mas o que poderia nascer da absurda plantação de signos que promove a fotografia deslocada, fora de lugar, de esguelha, de Isabel Santana? Coisas vistas num golpe de vista, provavelmente, assim como na esquina de Augie Wren. “Veja, esta é uma pequena parte do mundo na qual também sucedem coisas, assim como em qualquer outro lugar”, Augie explica ao seu desnorteado interlocutor. Assim também nos demonstra Isabel Santana em suas fotografias, nas quais a realidade parece ter adquirido de hora para outra uma formidável capacidade de imaginação.

 

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3 comentários sobre “A cada dia o Sol ilumina a Terra de um ângulo distinto

  1. isaac disse:

    grande texto, joca. a análise das fotos-e as fotos em si- são maravilhosas.
    eu assisti esse filme e não lembro de ter visto essa cena. grande filme também.
    grande abraço.

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