a l h u r e s

* * *

Dois poemas de CRISTIAN DE NÁPOLI

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Tomando umas nas docas do Rio da Prata, um ano atrás

Apelido

 

Apelido, vulgo, coisa do nome,

porto de minha classe, amarra, amarra sempre coisa,

vício e espaço, porto de meus amigos,

sobre todos os botes, tábua, mandamento de brincadeira,

 

água clara, nascente, apelido,

a partir deste bote-

máquina que anda de ré

imploro, a partir deste farol calado

 

quero tua amarra, tua impressão, tua marca

por cima da tinta, sobre o nome,

o selo

geral, coisa minha, bipolar

selo de outro mundo, constância chinesa, tua maneira

tão felina de escapar.

 

Por teu animal, apelido

toquei o sentido da fala no subúrbio.

Por teu animal, apelido,

Percorri o mundo, me achinesei.

Cheguei até aqui sem que me seqüestrassem.

 

Apelido, gato de meu nome,

jamais te negociei, jamais te negaria

o lado claro de minha vida.

 

Apelido, baixo-relevo, vida chinesa.

 

Gato de todos os portos,

Poderias passar uma vez mais entre meus pés.

 

cristian_041

Tomando outras em Palermo Rúcula (2007); não tenho nada a ver com o mau gosto do Cristian pra moda.

Esquina da Rivadavia com Albariño
(terrenos em construção) 

 

Foi delegacia, foi sede do clube do bairro,

foi terreno baldio depois, nos 80,

pano de fundo para umas boas comparsas

de carnaval, isto até 91,

então se converteu em concessionária de automóveis

usados, uma a mais nesta quadra da avenida

onde também se grava vidro, chassis e motor

sua localização, porém, de frente à praça,

tornava-a mais digna de outro chamariz

e que outro chamariz melhor

para um desvio passageiro pra rodovia

do que a gastronomia: foi churrascaria fina até 93.

 

É única.

Posso dizer a esquina da Rivadavia com Albariño sem

que ninguém se confunda

porque do outro lado as ruas mudam de nomes

e do mesmo lado, em frente, está a praça.

 

Até 98, o bon vivant

que com a vênia da época tramou um restaurante tão fino

terá notado que os homens, a partir de suas janelas,

olhavam a estética de golpe de vista e seguiam adiante

pois a esquina passou a ser um self service.

Depois, em 2000, e de surpresa

foi fachada disco para um puteiro.

Se dizia – e continua se dizendo –

que Maradona a comprou.

Em 2003 o prostíbulo incorporou mesas de sinuca

e deu alento à entrada da garotada do bairro.

 

Esses garotos

pertencem ao clube que certa vez teve sua sede aqui.

Se isto for levado a sério

é de se esperar que esse mesmo clube

ponha umas raias de natação, um ginásio, até uma biblioteca

para dar um gostinho aos velhos que ainda vivem

e que nos ensinaram a nos drogar.

Agora, se isto continuar melhorando assim

das duas uma: ou lhe furam o chão dez metros

para fazer outra torre de edifícios

ou termina parindo dolorosamente

uma pizzaria com o nome de algum rio de Espanha.

[ Dois poemas de mí hermanito, o poeta argentino Cristian De Nápoli, retirados de Los Animales (Bajo la Luna, 2007) e traduzidos por mim. As fotos são de Isabel Santana ]

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