z o n h o z

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Sonhado em 7/8 de abril de 2009

Hoje sonhei que decolava num avião pilotado por uma gorda que parecia o Patricio Bisso. Estranhamente, a gorda não pilotava o avião na cabine do piloto lá na frente, mas junto dos outros passageiros. Quando as rodinhas alçaram vôo, ela berrou “Mas não posso viajar hoje porque tem jogo do São Paulo!” Assim, porque haveria jogo do São Paulo, a gorda arremeteu o aeroplano, que acabou caindo em cima da cabeça dum monte de gente no Largo de São Bento. Não sei se alguém morreu, pois logo depois a algazarra das crianças que estudam na escola que fica ao lado de minha casa invadiu o sonho, que ficou tomado somente pelas bravatas dos garotos na quadra de futebol. “Vai-tomar-no-seu-cu-e-no-cu-largo-da-sua-mãe-e-de-todos-os-seus-parentes-ad-secula-seculorum-Joãozinho-MAS PASSA A BOLA!”, diz um garoto. “Tá-bom-seu-chupa-rola-de-porco-da-fila-do-Parque-Antarctica-inteiro-tá-bom-seu-filha-da-puta-arrombada-que-é-a-tua-mãe-TÓ A BOLA!”, responde outro. E assim por diante, de trás para a frente, o dia todo. A quadra de futebol é o território sem lei no qual os meninos aprendem a conversar entre si naquele tom que os GRANDES MACHOS conversam (quem aí assistiu “Gran Torino”?). Eu me divirto imenso, ouvindo às 7h da manhã aquelas vozinhas finas de meninos recém desmamados de 5 anos dizendo “Vai-si-fudê-Manezinho- filho-duma-vaca-arrombada-de-buceta-cheia-de-porra-de-gambá-cumé-qui-cê-foi-errá-essigol-lazarento-filhudumégua?”. Eu me divirto demais. Crianças são a nossa esperança para um mundo melhor.

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3 comentários sobre “* * *

  1. Pertencer à parcela da humanidade que passa a maior parte de suas horas úteis num mundo muito especial, um mundo feito de linhas horizontais, onde palavras seguem palavras, cada qual ocupando seu lugar estipulado, e tendo que de vez em quando levantar os olhos do papel e olhar ao redor, e nisto, redescobrir um mundo móvel e multiforme que se estende além da página, é ter que enfrentar o inesperado. E para dissipar as sensações confusas e até traumáticas disso, recriamos uma realidade inteligível, cuja principal estratégia é a escrita. Escrever é renascer, é reconfigurar. Escrever é rearticular os gritos que ouvimos e trespassar o estado bruto da poesia para o seu estado lapidar e relicário. Esse estado reconfigurado é materialização inteligível, rearticulação das circustçancias que escapam à compreensão no cotidiano. Por isso disse Calvino (o Ítalo): “Enquanto espero que o mundo não-escrito se torne mais claro, sempre há uma página escrita aberta diante de mim, onde posso voltar a mergulhar: faço:o sem demora e com a maior satisfação, porque ali, pelo menos, mensmo que só compreenda uma pequena parte do todo, posso alimentar a ilusão de que mantenho tudo sob controle”.

  2. wilton disse:

    no comentário que fiz anteriormente, você deve ter observado que eu me referi à disjunção ou ruptura entre realidade e escrita porque a realidade de Grand Torino é uma realidade metafórica, sendo portanto, literária ou escrita.

    Grand Torino não é literal.

    A esperança não está na realidade em si. A esperança é uma determinada leitura que fazemos da realidade.

    A realidade só pode ser transfigurada em esperança quando ela é escrita/lida.

    Grand Torino, o filme, é a marca de um carro, mas é também a representação (metafórica) da morte de uma geração ou a desconstrução de um determinado olhar de valores e hábitos já em desuso no presente. Grand Torino fala sobretudo do passado. Não é a toa que ele é uma relíquia e no final sobrevive nas mãos de um jovem chinês: o mundo continuará materialista.

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