a f i c ç ã o v i d a

A glória disfarçada de miséria

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[ Mais aqui, aqui  (para assinantes) e aqui (a defesa do crucificado). Aquele box ali em cima, logo abaixo da manchete, é o poema reproduzido na íntegra. Qual é a tiragem do Agora, 1 milhão de exemplares? Qual poeta recebe mais destaque do que o Corinthians na capa do jornal de maior tiragem do estado? MAIS AINDA: quem disse que a literatura não incomoda mais? ]

Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[ in, “Poesia do Dia – Poetas de Hoje para Leitores de Agora”, org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]

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30 comentários sobre “A glória disfarçada de miséria

  1. Marla disse:

    No princípio, as crianças eram “alfabetizadas” para somente aprender escrever seu nome para aprender a “votar direito”, agora com a ajuda de intelectuais como você elas aprendem também a serem supervilões.
    Parabéns a você ao nosso governador e toda a secretaria da educação pelo vergonhoso trabalho em equipe.

  2. patricia disse:

    Surreal! E, sim, “O tal poema talvez não seja compreendido por adultos egressos do sistema educacional brasileiro: ISTO, SIM, INTERESSA DISCUTIR”. Os comentários nas páginas dos jornais são assustadores!

  3. bia disse:

    De novo: mas não era só selecionarem os livros melhor? Ou talvez agora os escritores devam colar selos no desktop avisando que escrevem para maiores de 16. Prefiro não. Seja lá quem selecionou, não leu. Se leu, não tá querendo assumir (deles, sim) a trangressão. Ui, que medo. Mas o que eu queria mesmo dizer é que ningué, Joca, niguém mesmo, gosta de gente que fala cuspindo. Por cristo, vamos proibir perdigotos.

  4. Elrodris disse:

    joca,

    e isso que não selecionaram os nossos piores – se tivesse entrado o receita para fabricar sereia, elrodris estaria com você no banco literário dos réus (desconheço consagração maior)

  5. Gustavo Flávio disse:

    Literatura por vias tortas…………..
    Mais polêmica.

    Por: Alessandro Buzo

    Conhece aquela frase: – O preço depende da cara do freguês.
    É mais ou menos isso que o Governo do Estado de São Paulo faz com a população.
    Seja na segurança…………..
    A Polícia Militar de SP age diferente na Av Paulista, Jardins, Jardim Europa…………do que no Itaim Paulista, Capão Redondo, Paraisópolis, Heliópolis, Vila Jacuí. São dois pesos e duas medidas.
    Uma viatura me traz sensação de segurança se eu passo pela Alameda Santos, mas se estou no Itaim Paulista, logo penso: – Será que vão me dar um enquadro ?
    Mesmo não devendo nada pra justiça, tememos uma abordagem policial na periferia, por causa do abuso de poder por parte da cooporação, ou coisas piores.
    Seja na educação……………..
    Jamais em escolas particulares serão encontrados livros inadequados para crianças de 9 anos da 3a série, mas no estado, chega livros como “Dez na área, um na banheira e ninguém no gol”, foi uma polêmica só.
    Agora surge outro com o sugestivo nome de “Poesia do Dia” (coletânea) que traz uma “poesia” de Joca Reiners Terron, onde aparece frases como………
    Não tenha pai. Um supervilão nuncatem pai.
    Nunca ame ninguém. Estupre.
    Tome drogas, pois é sempre aconselhável ver o panorama do alto.
    E por ai vai…………………..o autor (que é jornalista e free lance da Folha de S.Paulo), rebate dizendo que o livro é para 13 anos, me desculpa a franqueza, mas esse livro não serve para ninguém ou no máximo só para adultos que vai entender o teor irônico das frases da “poesia”.
    Seja na imprensa…………
    Imagina essas poesias assinadas por mim, escritor Alessandro Buzo.
    Perigoso eu estar na cadeia essas horas, na midia tenho certeza que teria o Datena me chamando de vagabundo, mas como o autor da “poesia” que diz: – Cante samba e Rap, pode ser útil depois na cadeia. É o Joca Reiners Terron, que como disse é jornalista que assina matérias especiais na Revista da Folha por exemplo. A midia pega leve.
    Acabei de ver ele sorridente no Jornal do SBT Manhã, mas é o meu filho que tem 9 anos e estuda numa escola estadual.
    O filho dele garanto que vai estar numa escola particular, como ele deve ter vindo.
    Coitado se quem escreve uma “poesia” que diz: – Odeie, Assim, por Esporte.
    Ou………………..Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica. É melhor não deixar testemunhas.
    Coitado se fosse o Alessandro Buzo, escritor vindo da favela, do extremo da Zona Leste que escrevesse isso.
    Mas não, foi o Joca Reiners Terron, jornalista.
    A midia poupou ele assim como um cooperativismo que existe na polícia.
    O “Agora” de ontem trouxe matéria de capa, com uma página dentro (detalhe, é do Grupo Folha), mas como disse, o tratamento ao autor pega leve apesar do teor de denuncia da matéria.
    Todos aceitam o argumento de que a faixa etária é de 13 anos, não quero meu filho lendo essa porcaria quando tiver 13 anos.
    Tenho um livro sendo avaliado para ser colocado para alunos de escolas publicas, pelo que tô vendo, ninguém lê a obra e eu contava tanto com isso, que lendo a mensagem incluida nele podesse pesar ao meu favor.
    A história se baseia em…………………”Não dê arma de brinquedo aos seus filhos”, que escrevi com autoridade, nunca dei arma de brinquedo para meu filho.
    Espero que o meu livro “Dia das Crianças na Periferia” (de Alessandro Buzo, ilustrações de Alexandre de Maio) chegue logo as escolas públicas, elas estão precisando de autores que tem filho estudando nelas.

    Sem mais,
    Alessandro Buzo
    escritor
    Autor de “Dia das Crianças na Periferia” (Editora Livro Sonoro)
    * Lançamento dia 12 de Outubro, no dia das crianças.

  6. Quem falou mal dos poemas, não conhece a realidade das salas de aula, não sabe interpretar um poema e nao tem ideia de quem são seus próprios filhos. Manoel de Barros também foi apedrejado. Se fosse um jogo de taco, já seriam duas pra trás. N próxima, precisam entregar o taco – ou cortam nossas cabeças.

  7. Hahaha, esse Buzo aí é parente do Bozo? Usa o teu espaço pra te detonar e ainda aproveita pra fazer um comercial! Gênio! É melhor ele não dar uma arma de brinquedo pro filho mesmo, se não o buzinho confunde com pirulito!

  8. wilton disse:

    A rua prepara os seus poemas

    Sujos, claro

    Já se fueram os tempos que as ruas eram lugares de saneamento básico, enquanto a poesia era algo a ser enquadrado nas estantes. Gosto e indico Joca Terron para meus alunos (inclusive as capas de livros). A questão principal do Joca é que ele conseque fazer poesia na dimensão do humano, não na dimensão dos deuses, como pareciam querer os eternos adoradores da mímese. O Joca não é sociólogo nem educador, ele é poeta, e isso é fundamental, mas é fundamental apenas para quem precisa da poesia para quem não precisa, vá ler o código civil ou penal brasileiro… A questão básica sobre isso está registrada até hoje na primeira carta de Rilke ao Jovem poeta: escrever apenas se for estritamente necesssário. E a escrita do Joca é aquela escrita estritamente necessária. Nada ali abunda, nem extrapola. Quem não entendeu isso ainda, vai achar que no dia em que choveu flores em Macondo era apenas um clipe da cantora new age Enya. Enfim, quem não entendeu isso, não deve nunca ter lido nada, nem manuel bandeira, nem Drumond, nem porra nenhuma. Dá é raiva ter que falar disso.

  9. marcelo montenegro disse:

    A tentação é falar “que saco tudo isso, né?”. Mas vendo aqui de fora até que soa legal. Dá uma limpada de barra na poesia. Puta poema. Terronismos “jimdodgeanos”. Abração.

  10. A literatura é sempre orientação. Ou desorientação. O que culmina num tipo re-orientação, ou na perdição total, mas isso tem mais a ver com a realidade do que com a orientação, ou com a própria literatura.
    Alunos da 3ª série… 9, 10, 14 anos, considerando o nível social do país?

    Eu sou do tipo otimista. Então eu imagino que os professores da 3ª série estejam preparados para fazer um aluno entender o que é a literatura. E com sorte, um deles sugerir um exercício de identificação com o poema, por exemplo. Belo começo!

    “Por que nós, seres humanos, chegamos ao ponto de negar o nosso heroísmo, ou mesmo fugir dele, querer seu oposto? Porque não temos de fato a vocação para heróis? Por consideramos a vitória sob uma perspectiva impossível/ irreal/ fora de alcance/ totalitária-destrutiva? Ou porque nossa tendência é à vilania, mesmo? Ou tudo isso junto em diferentes expressões?”

    Enfim, deu capa. Foi ótimo. A literatura serve de “guia” para a humanidade (que seja: pelo tempo que se perde construindo o nada e que servia à oralidade). Mas ela só vira capa quando serve ao senso comum totalizado-destruído. E o o caminho é o contrário. É o senso totalizado-destruído-em-comum que deve ir até ela.
    Mas de fato, não de facto. Num mergulho profundo…

    Já pensou, que sociedade?!

  11. O governo não sabe dizer se uma criança da 3ª série entenderia a ironia contida no poema (acabo de ler no outro link).

    E o professor tá lá pra fazer o quê?

  12. Putz, por um segundo achei melhor deixar claro que o meu ponto de vista em relação aos professores também é irônico.

    Obedeci o segundo.

    Nunca se sabe.

  13. érica disse:

    putz… coitado do buzinho. se isto é manobra política ou não, é uma questão.
    mas que o mundo tá mais raso, alguém duvida?
    quero é ver meus filhos num lugar onde possam conhecer e opinar sobre todas as coisas.
    que moralismo barato este em que as pessoas estão se apoiando.

  14. Pingback: Apedreja essa mão vil que te afaga « ângulo

  15. Joca, eu achei excelente o texto que diz por vc- essas coisas dão preguiça mesmo.
    Eu vivo assombrada com a hipocrisia desse mundo. Você tem sensibilidade- coisa rara demais para ser explicada para gente medíocre!
    Um abraço: Bia

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