s o r t e & a z a r

O AUTOR! O AUTOR!

por Leandro Sarmatz*

Você sabe quem é Joca Terron? Se não sabia até o final da semana passada, agora você já nem deve agüentar mais ouvir falar dele. É o celerado que cometeu um poema sobre vilania, estupro e outras abominações para leitores de apenas 9 anos de idade. Um corvo egresso do Mato Grosso, disposto a assombrar as salas de aula da rede pública. Uma espécie de Marcola do mundo das letras. Este é o Joca que muitos conheceram nos jornais, na TV e numa infinidade de notas desorientadas na internet.
Claro que o parágrafo acima deve ser lido em chave negativa, com ironia – como o próprio poema assinado pelo Joca, lembra? Na condição de organizador do volume Poesia do Dia – Poetas de hoje  para leitores de agora (Ática), gostaria de compartilhar o meu espanto com todo esse barulho. Além disso, como fui eu que selecionei os poemas – inclusive o mais que lembrado “Manual de auto-ajuda para supervilões” –, devo ter meu quinhão de culpa, claro. Mas que culpa? Quando os gentis editores da Ática me contrataram para produzir um livro que desse conta da poesia contemporânea brasileira, tanto eu quanto os editores (sem falar nos autores, uma moçada nascida entre as décadas de 60 e 80 que aceitou figurar no livro) tínhamos um público-alvo: leitores adolescentes naquela faixa maravilhosa e aterradora entre os 13 e 14 anos. Um tipo de leitor já versado um pouco em recursos poéticos, adestrado em discurso irônico e, tão importante quanto esse arsenal escolar, uma turma que já está tomando contato com o mundo real, aquele mesmo, o de verdade.
Aí, algum tonto, mal-intencionado ou apenas incompetente funcionário da área de educação do governo escolhe o Poesia do Dia, destinando-o aos pequenos leitores. A grita dos pais, claro, é justificada. Mas vem cá: em todas as matérias sobre o caso, quem foi devidamente crucificado, teve o nome citado à exaustão, foi obrigado a se “explicar” como um daqueles criminosos furrecas em programa mundo-cão da TV às 18h? O desastrado funcionário público? O secretário de educação? O governador do Estado? Não. Coube ao autor de um poema a tarefa aziaga de tentar desfazer o nó que sequer foi amarrado por ele. E que está aí muito antes dele ter pensado e concebido o poema.
Como isso foi acontecer? A resposta não é tão simples, pois encerra diversas questões relacionadas ao trânsito da literatura contemporânea na escola, aos processos de escolha de livros pelos governos e, no limite, às trapalhadas e aos interesses por detrás delas às vésperas de ano eleitoral.
Não cabe a mim discorrer sobre esses tópicos todos, mas temo que a principal conseqüência desse capítulo patético sobre leitura e moralidade na escola não se dará na esfera governamental, que foi, afinal de contas, o grande pivô invisível (e bota invisível nisso: cadê o sujeito que despachou os livros para a molecada? Esse não apareceu em matéria alguma.). O que pode acontecer a partir de agora tem, dessa vez, tudo a ver com Joca e outros escritores brasileiros: escaldadas por sucessivos escândalos, as editoras podem querer criar mecanismos de auto-censura na hora em que forem trabalhar com autores novos e/ou temas contemporâneos. Afinal, episódios como o do Poesia do Dia são o pior tipo de propaganda espontânea que um livro destinado ao mercado escolar pode contar. Daí para a caretice, a previsibilidade e o catecismo dos bons-modos, é apenas um passo para trás. Ou muitas páginas a menos.

* Jornalista e Mestre em Letras pela PUC-RS.

[  Como explica aí em cima, Leandro é o organizador da coletânea Poesia do Dia – Poetas de Hoje para Leitores de Agora, publicada pela Ática. Algumas pessoas têm me cobrado um posicionamento além da fala entrecortada (para não dizer capciosa) surgida nos jornais por aí, mas não me animei. Agradeço, então, ao Leandro por ter se manifestado, assim como às pessoas da caixa de comentários. ]

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7 comentários sobre “O AUTOR! O AUTOR!

  1. Parece a história da professora de sociologia que dava aula sobre comportamento sexual na Geórgia nos Estados Unidos. Ela deu uma aula sobre a prática do sexo oral e pronto: toda a matilha religiosa fanática passou semanas espumando contra o absurdo de darem dinheiro público para uma depravada ensinar técnicas lascivas aos alunos. Até que o assunto mais ou menos se esclarecesse a pobre quase foi linchada publicamente. É uma pena que o Brasil esteja caminhando de vento em popa para esse clima tão peculiar desse outro país que inventou o linchamento…

  2. Gosto da polêmica e já falei: na escola, li o Pedro Bala, o chefe dos Capitães de Areia, perseguir uma mulatinha na praia e pular em cima dela e meter o pinto no rabo da menina. Porque ela implorou encarecidamente que não a estuprasse pela buceta para mantê-la virgem. Isso é Jorge Amado, calcificado pela academia e liberado pra garotada da minha geração. (aliás como fui aprendendo alguns detalhes da reprodução) Mas adorei! Adorei saber que a literatura está viva. Que não ama, mas estupra. E se quer saber a infância não é mais aquela que se prende fácil num Monteiro Lobato, como foi a minha que já se dividia entre Lobato e Amado. Tenho exemplos de filhos de amigos bem ingênuos e outras crianças que já viram muito mais “coisas” do que eu. Que aliás, convivem com violência, sexo drogas e etc. mais do que eu. Não sabia que se tratava de um erro de alguém lá do governo que indicou o livro pra crianças de 8 e 9 anos. Mas gente, eles vêem coisa “pior” na TV, em jogos de video game e em HQs. Não é melhor que tais conteúdos sejam trabalhados na escola de forma construtiva e crítica? Ai, olha, enfim: polêmica da boa. daquela que dá vazão a muitos pensamentos. Tô misturando tudo… mas adorando a confusão.

    • André disse:

      Eu tenho essa mesma memória do livro do Jorge Amado. Algo como “coloca atrás para não me desgraçar”. Me lembro que foi meio chocante ler quando era criança. Mas o processo de crescimento nunca é indolor. O que me choca um pouco agora é a leitura de “O Animal Moral”, do Richard Wright. Ele é da turma do Dawkins, aqueles que, além de alardear a inexistência de Deus, ainda tocam o pau nas religiões…

  3. Espectadora disse:

    A análise lierária é perfeita. Mas acho que não se deve esquecer a questão política. Está tudo muito bem orquestrado. Com o terceiro episódio envolvendo livros distribuídos nas escolas paulistas, fica claro que na Secretaria de Educação tem uma turma boicotando o Serra, escolhendo livros equivocados (vide o caso dos dois mapaas do Paraguai) e depois vazam para a imprensa, já fazendo o contra, “denunciando” e emplacando o nociário. No rescaldo, os petistas e a Dilma aproveitam pra tirar proveito político.
    Vocês são lúcidos, não se deixem carregar pelas marolas políticas. Vocês estão mirando o cara errado.

  4. Clau Silva disse:

    Como educadora, estou me sentindo envergonhada com a abordagemda grande mídia a respeito desse assunto.
    Interpreta-se que, o professor, um imbecil, entrega todo e qualquer texto a seus alunos e, em momento algum, abre espaço para a reflexão do que está sendo exposto. Somos apenas babás (desqualificadas, diga-se de passagem), incapazes de compreender a sujetividade e ironia de qualquer texto que nos seja apresentado e, portanto, igualmente incapazes de orientar nossos alunos a uma análise crítica de qualquer material que lhes chegue as mãos.
    O governo de São Paulo não vem errando apenas na análise de seu material didático. Erra, principalmente,na forma como avalia e trata seus profissionais de educação.

  5. Pingback: Um poema de Joca Reiners Terron sobre (e talvez também para) crianças « Michel Laub

  6. Caro amigo. Não fique tão desacorçoado. Tal publicidade não se pode jogar fora. A classe mérdia brasileira, com sua incompreensão de tudo o que vai além do financiamento do carro novo, é burra como uma porta e moralista que nem ex-puta, ou ex-drogado, ou ex-cunhado.

    Então, nada como entrar no sistema arromando a porta dos fundos. Aproveite. Como dizem, a oportunidade não costuma bater muitas vezes à mesma porta.

    Abração.

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