e. e. c o m m i c s

* * *

Levanto. Não sei como. Arrasto a perna que não quer acordar até a janela basculante. O vidro está imundo, cheio de marcas de dedo. Serão minhas, as marcas? Há manchas de sangue, impressões digitais feitas com sangue em meio à fuligem. Serão minhas? As marcas? A perna acorda. Digo bom dia. Olho para fora com o olho apertado. Fuligem é a cor da cidade. Fuligem. O olho vê tudo escuro, fico tonto. Tonto, tonto. Azulejos em cima, embaixo. Dos lados. Cobertos de fuligem. Manchas de sangue. No chão. Na calça do pijama. Serão? Minhas? A perna anda. Meu único olho foca o exterior. Consigo ver o Homem-Escada escalando uma torre. Um olho vê tudo, outro vê nada. Sua silhueta de escada parece se misturar à da torre em cima do prédio. Ele chega ao topo e lá em cima começa a chorar. O Homem-Escada derrama lágrimas que são levadas pelo vento. Vão em direção à cidade. Suas lágrimas se tornam cinzas, misturadas à fuligem de Nãorizonte. As lágrimas do Homem-Escada viram cinzas. O Homem-Escada entorna um galão de combustível sobre si mesmo. Ele ateia fogo no seu corpo em forma de escada. Aos poucos as chamas incendeiam cada degrau, até atingirem sua capa. O Homem-Escada é um símbolo flamejante alimentado pelo vento no topo de um prédio. Símbolo de quê? Não sei. Você não sabe? Eu também não.

[ Tiquinho de livro em construção; o esboço acima é de André Ducci. ]

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