a f i c ç ã o v i d a

Brancura lunar

Foi num fechar e abrir de pálpebras. Ao abri-las, estava escuro. Nenhum estalo ou nada que indicasse o fim do mundo. Apreciei a quietude do instante e então ela perguntou se acontecera algo de estranho. Expliquei. “Agora estamos em pé de igualdade”, ela disse. O tom de sua voz permitia adivinhar-lhe o sorriso.

Terminamos o prato. Enquanto esbarrava nas taças e derrubava talheres, eu podia sentir os movimentos dela do lado oposto da mesa, através das lufadas de seu perfume. Ao contrário do que ocorria comigo, desastres não pareciam iminentes quando ela se movia.

Da rua vinham sons abafados de perplexidade. Murmúrios nervosos nas escadarias. A porta de um carro bateu na distância. Não havia luz alguma no interior do apartamento, apenas nossas silhuetas ainda mais enegrecidas pela escuridão. Depois de levar toda a louça até a cozinha em dois minutos, ela me puxou pelos dedos.

Um enorme aprendizado deu-se naquelas duas horas, acompanhando-a singrar entre móveis na mesma velocidade da luz. “É a minha casa, eu a conheço bem”, ela disse. Um único prédio aceso fulgurava na amplidão da janela do corredor, coroado pela lua perfurada por morcegos. “Venha”.

 No quarto, despi-a sem pressa. A brancura de sua pele tremeluzia, iluminando tudo, atribuindo forma às coisas quase apagadas. “Mas existe uma diferença entre a velocidade da luz e a velocidade da treva”, ela disse, “É mais ou menos como andar debaixo d’água. O tempo é diferente. Parece um sonho”.

Acariciei seus olhos fechados e tentei imaginar o que eles viam. Ela me beijou e nos deitamos. Com a lua ao fundo, o corpo dela era a última paisagem desconhecida da Via Láctea. Os Alpes nevados e o Monte Fuji perfurando as nuvens. Ela apelidou cada parte de meu corpo com nomes de astronautas. “Já  você aqui é a Apollo 11”, ela disse, “sempre apontando para o céu”.

Depois, permanecemos abraçados em silêncio. Perguntei-lhe o que estava pensando. Ela sorriu e disse que afinal conseguia me enxergar. “Este seu corpo aqui deitado é igual àquele outro que enxergo em meus sonhos”, ela disse, “E agora, você pode me ver?” E então, entre música interrompida e buzinas, a luz voltou.

[ conto publicado na Folha de S. Paulo no domingo seguinte ao apagão ]

Anúncios
Padrão

Um comentário sobre “Brancura lunar

  1. vim para falar do conto , legal, mas mais do que ele vim pra falar do singelo twitter onde vc avisa que estava ensinando sua mulher a cozinhar e que nao sofreu com o resultado…clichê ou não, óbvio ou não, o tempero do amor faz maravilhas…singeleza e ternura,rara, fazem falta ao mundo virtual…gostei do que li , por isso apareci… e pra deixar aquele abraço!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s