a f i c ç ã o v i d a

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Jujubalangandans Iemanjoyce

Julia em chamas em seu aniversário antecipado deste ano. (As fotos são da Zabé).

Hoje a minha filha faz 8 anos de idade. O 8 é o símbolo do infinito em pé, não é não? O amor que eu sinto por minha filha é infinito. Esse negócio de sentir amor pelos filhos é uma coisa inexprimível em palavras, não dá pra traduzir. Quando a Julia nasceu, um grande amigo disse para eu não me assustar com as reclamações dos outros pais sobre os dilemas da paternidade, sobre as noites em claro, sobre as dívidas, as dores, as dívidas. “É porque as coisas boas que a gente sente são inexprimíveis”, ele disse. Eu acreditei. E toda vez que um amigo vai se tornar pai repito o que o Losnak, aquele amigo de quem falava, me disse. Inexprimível.

Pra falar a verdade eu sempre fui um cara com dificuldades de expressão. Travado. Acho que o primeiro beijo que dei no meu pai deve fazer uns 2 anos, não mais do que isso. E como me arrependo por não ter tascado uns beijos nele antes. Talvez, se meus irmãos e eu o tivéssemos bombardeado com mais frequência em ataques terroristas de beijos, ele não fosse como ainda é hoje, travado como eu era antes de beijá-lo. Travado como eu era antes de a Julia existir. Então nunca hesito em dizer pra minha filha o quanto eu a amo.

Às vezes digo isso nos lugares mais impróprios, como na fila do pipoqueiro ou diante da jaula dos babuínos no zoológico, por exemplo. Ela me olha torto e invariavelmente limpa as bochechas meladas de beijos e dá pra ver nos olhos dela, bem inquieto lá no fundo, um “Ai, tá bom pai, eu também te amo, mas vê se pára com isso. Olha o mico, olha o mico”. E então, obediente, eu volto a olhar pros babuínos, a me escandalizar olhando pros babuínos e vendo como é estranha essa preferência atávica existente entre os primatas na qual o pai é sempre o primeiro a se alimentar, um verdadeiro privilegiado que fica lá, com aquela bunda vermelha virada pro céu e pros filhos, enquanto se delicia com um cacho de bananas e eles lambem os beiços. É inaceitável, o mau comportamento desses nossos primos selvagens.

É por isso que acredito mesmo que os pais não têm lá muita serventia. Digo, eu acho que os pais não são realmente muito bons nesse negócio de ficar distribuindo beijos e dizendo eu te amo. Que nem o meu pai, que é travado e não esbanja declarações de amor por aí. Que nem eu, antes de me converter aos beijos na Julia. Mas a gente faz o que pode, o que mais podemos fazer? Quando preparo o almoço, por exemplo, costumo fazer o prato da Julia e depois fico vendo-a comer, em silêncio. O sorriso de satisfação que ela me dá depois da refeição é uma declaração de amor inexprimível e então eu penso que talvez a vida seja desse jeito mesmo, e que há coisas que a gente simplesmente não sabe dizer enquanto não aprende a dizer.

É por isso que o babuíno talvez coma primeiro, para depois ficar assistindo à satisfação de seus filhotes enquanto comem. E também para vigiá-los, para que não sejam atacados por um predador qualquer enquanto se alimentam, uma herança dos tempos de liberdade. Talvez os pais não sejam mesmo feitos para dizer eu te amo por aí, talvez a vida seja mesmo assim. Talvez os pais sejam feitos apenas para olhar seus filhos, para acalentá-los com seu olhar de proteção. Talvez. E talvez esse olhar de vigília dos pais, de alguma forma, consiga exprimir todo o amor que sentimos por nossos filhos. Deve ser isso, deve ser assim. Deve ser.

Te amo, Julia, e te desejo toda a felicidade do mundo.

[ Neste dia de Iemanjá e de James Joyce — ele também nasceu em 2 de fevereiro — Jujuba completa 11 anos. Como o sentimento é e será sempre o mesmo, decidi recuperar esse texto de meu antigo blogue, o Hotel Hell. E dá-lhe Dorival Caymmi: “Dia 2 de fevereiro / Dia de festa no mar/ Eu quero ser o primeiro / A saudar Iemanjá.” ]

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11 comentários sobre “* * *

  1. Pingback: OS MUITOS PARTOS « Doidivana

  2. stennio machado disse:

    Rapaz, nha garotinha completou 2 anos agora em janeiro.
    Nunca imaginei que sinto por ela, nãodá pra explicar, é uma dependência, uma vontade de não desgrudar… É muito estranho.
    Não me canso de vê-la dormindo, sorrir calado de suas brincadeiras com as bonecas …
    Parabéns

  3. Cheguei aqui pelo twitter, que texto bonito.. Eu lia o Hotel Hell, no qual cheguei pela revista Bravo!, etc, faz tempo. Nunca esqueci do título Não há nada lá. .. depois que deletei o orkut não sabia mais como te perguntar dos livros, edições e etc.

    Bonito isso:

    “é uma declaração de amor inexprimível e então eu penso que talvez a vida seja desse jeito mesmo, e que há coisas que a gente simplesmente não sabe dizer enquanto não aprende a dizer.”

  4. que linda joca!!! parabéns para ela (caso tu não lembre de mim eu sou aquele cara que tu conheceu em londrina e tornamos a nos encontrar em çam paulo a mais ou menos dois anos) bom pra dizer que eu não etnho tbm, meus fios são não gozados, abraço.

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