u m a g i t o n o e g i t o

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“Wilson e William. O destino dos gêmeos que protagonizam Do fundo do poço se vê a lua já é desenhado em grande parte nas circunstâncias do nascimento dos irmãos. A mãe, uma opositora da ditadura, usa apenas nomes falsos e não tem tempo de batizar os filhos, pois não sobrevive ao parto. A última de suas alcunhas, Cleópatra, será como um carimbo na personalidade do pequeno Wilson, que desde o útero estranha a existência daquela cópia física de si mesmo e termina por convergir todas as suas forças em libertar-se e recomeçar do zero.

Se por um lado este é um romance deliciosamente excêntrico, repleto de reviravoltas, jogos de ponto de vista, curiosas referências históricas e culturais, personagens pitorescos e ambientes desenhados com volúpia descritiva quase delirante, por outro ele está alinhado a uma tradição conhecida, a da narrativa dos duplos, sósias e doppelgängers, elemento que Joca Reiners Terron incorpora explicitamente à trama. O pai dos meninos, um ator da cena underground paulistana na década de 1980, treina-os na arte da representação para encenarem as peças de um certo Ciclo do Duplo, a fim de exorcizar uma suposta maldição que ameaça os gêmeos. A semelhança entre eles, porém, termina na aparência. William é masculino, taciturno e violento, ao passo que Wilson é feminino e dono de inteligência tão sagaz quanto convulsiva.

A longa batalha de Wilson por libertar- se do irmão e da identidade masculina é a espinha dorsal de uma trama que envolve trocas de sexo, perda de memória, assassinato e uma fixação por Cleópatra e tudo que lhe diz respeito, em especial o filme épico de 1963 e sua estrela Elizabeth Taylor. Vinte anos depois de uma trágica separação, William irá procurar o irmão numa Cairo sórdida e fascinante onde pequenas dunas se acumulam nos cantos dos olhos, e onde a condição feminina é ao mesmo tempo endeusada e violentada.

Escrito com um estilo que alterna sem receio o cômico e o brutal, o grosseiro e o lírico, Do fundo do poço se vê a lua é a história da construção de uma identidade levada ao limite e da batalha subterrânea de um amor fraterno contra os assaltos repetidos da morte.”

[ Texto da orelha de “Do fundo do poço se vê a lua”, meu romance da coleção Amores Expressos (Companhia das Letras). Já é possível encomendá-lo na Cultura, na Travessa e na Siciliano. O lançamento será no dia 1º de junho, mais pra frente anunciarei aqui. ]

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7 comentários sobre “* * *

  1. “Do fundo do poço se vê a lua”, é bem interessante. Possui elementos fortes, e temática plural. Cleópatra, por exemplo; não vejo uma mulher na história, excetuando Maria, que possua a força e mítica dela; assim sua personagem ganha em força e complexidade. E quanto aos irmãos Wilson e William, quem iria imaginar um antagonismo de sexualidade entre gêmeos de mesmo sexo? E você, nessa levada egípcia, levou esses demônios de sua mente para uma Cairo fascinante, porém sórdida. Foi um lugar em que você esteve; certo? Pude ver enquanto procurava o seu blog por indicação da Ivana Arruda Leite.
    Cara, sorte para o seu livro que sai por uma tremenda editora, e certamente terá uma boa distribuição. Parabéns e logo terei o meu exemplar. É que compro livros da maneira que posso. Tenho que comer. (sorrio, pois, de certa forma, brinco).

    Abraço do Jefhcardoso e se der na cabeça vá e conheça o meu http://jefhcardoso.blgospot.com .

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