r e s e n h i t e a g u d a

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Sete nanoresenhas

1. [ todos os cachorros são azuis – rodrigo de souza leão ]

Houve um tempo em que nem todos os escritores desejavam ser Charles Dickens ou se identificavam dizendo “sou apenas um contador de histórias”. Esse tempo acabou, mas volta e meia surge alguém para lembrar que a literatura nem sempre se compõe só de historinhas contadas tim-tim por tim-tim. Não me refiro ao experimentalismo inócuo (se chamam o romance de experimental, é porque a experiência não funcionou, dizia William Burroughs), mas à porra-louquice literária e muito bem-vinda.

É onde se encaixa “Todos os Cachorros são Azuis”, novela de estréia de Rodrigo de Souza Leão. Misto de diário hospitalar com delírio quimioterápico, é um livro que tem antepassados em Lima Barreto, Maura Lopes Cançado, Campos de Carvalho e Waly Salomão. Doidão, o narrador vai parar no hospício, aonde encontra seus melhores amigos, Rimbaud e Baudelaire. Curado, funda uma religião, o Todog, e uma nova língua. “O que é a morte, mãe?”, ele pergunta. Ela responde: “A morte é uma novela da Globo, filho”. É de morrer de chorar. Ou de rir?

2. [  coisas frágeis – neil gaiman ]

Convenhamos, caro leitor deste Guia da Folha, mas se você não sabe o quão bons e populares são os livros e quadrinhos de Neil Gaiman, além do fato de ele haver batido o recorde de autógrafos da FLIP 2008 (foram seis horas seguidas), bem, se não sabe nada disto, significa que você não é deste mundo, e se não é deste mundo, bem poderia ser personagem de uma história de Neil Gaiman.

Prepare-se, portanto, e entre no mundo desse mestre do fantástico, um lugar onde os meses do ano se encontram ao redor da fogueira para assar lingüiças e contar histórias tristes, onde Sherlock Holmes é convocado a solucionar crimes no delirante universo criado por H.P. Lovecraft, e outras pequenas engenhosidades narrativas que não sabem senão emocionar. E os contos de Gaiman põem qualquer um emocionado como o diabo.

3. [ raiz forte – lemony snicket ]

Antigamente, quando Robert Louis Stevenson publicava “A Ilha do Tesouro” ou Mark Twain publicava “Huckleberry Finn”, não existia o termo “literatura infanto-juvenil”, etiqueta atual que insiste em separar em prateleiras o que não deveria ser separado no ato da leitura. Fato 1: existem livros adultos estúpidos e livros infanto-juvenis estúpidos. Fato 2: livros inteligentes de qualquer ordem deveriam interessar leitores inteligentes de qualquer idade.

É assim que pensa Lemony Snicket, pseudônimo do americano Daniel Handler e criador de “Desventuras em Série”. Este seu novo livro, “Raiz-Forte”, é ao mesmo tempo um manual de filosofia prática, um livro zen para personalidades disfuncionais e um livro de poesia repleto de humor negro e de “non sense”. Ou seja, é altamente recomendável para pessoas inteligentes de todas as idades.

4. [ divisadero – michael ondaatje ]

Michael Ondaatje trafega pelos gêneros literários da mesma forma que cruza fronteiras. Tendo nascido no Sri Lanka, sido criado na Inglaterra e vivido a maior parte de sua vida adulta no Canadá (sem considerar suas raízes familiares holandesas), Ondaatje transportou de maneira inesperada essa miscigenação pessoal para sua literatura. Suas narrativas em nada se aproximam da tradição folhetinesca do romance inglês do século 19, a não ser sob um aspecto: como qualquer livro de Dickens, os de Ondaatje são impossíveis de serem abandonados. Contribui para tal qualidade a riqueza com que constrói seus personagens, mas também o alcance visual da linguagem forjada na poesia (inédita por aqui).

Em “Divisadero”, Anna e Claire são irmãs e vivem com o pai na zona rural do norte da Califórnia junto de Coop, rapaz cujos pais foram assassinados. Anna, única filha verdadeira, envolve-se com o irmão adotado, e a violência gestada por essa paixão termina por atingir toda a família. Anna some na França atrás do poeta Lucien Segura, a quem procura biografar. Ela se muda para a casa de fazenda antes habitada pelo poeta, cuja vida servirá de glosa para a sua própria.

5. [ fôlego – tim winton ]

Tim Winton é um dos mais conhecidos autores australianos e “Fôlego” é seu primeiro livro a ser lançado aqui. Pikelet é um garotão de 13 anos de um vilarejo madeireiro, Sawyer Point. Ao lado de seu amigo Loonie, ele aprende tudo nas praias com Sando, um ex-surfista profissional que vive num lugar rústico com a sedutora Eva. Sob suas pranchas, o trio enfrenta vagalhões chamados Old Smoky e Bomboras. Assim, tudo ganha caráter mítico, e os garotos começam a se tornar homens.

Com isto vem a rivalidade e novas descobertas. Quem nos conta tudo de maneira retrospectiva é o próprio Pikelet, já cinqüentão e metamorfoseado em paramédico especializado em atender suicidas. As imagens de Winton são puras feito as ondas dos anos 60: “Eu era menino e não sabia colocar aquilo em palavras, porém mais tarde entendi o que capturou a minha imaginação naquele dia. O quanto era estranho ver aqueles homens fazerem algo belo. Algo sem sentido, algo elegante, como se ninguém estivesse vendo, como se ninguém se importasse”, Pikelet recorda, como se ao falar de surfe, falasse da inutilidade da poesia.

6. [ gourmet – jiro taniguchi e masayuki qusumi ]

O homem na multidão, de Poe, é o registro inaugural da variedade moderna da solidão comum à metrópole. Esse sujeito perdido na turba, de quem não se sabe nem ao menos o nome (pode ser um misterioso bandido, quem sabe, ou uma pessoa que exista apenas enquanto se movimenta) representa todos nós, seus contemporâneos.

Não é possível saber muito do protagonista anônimo de “Gourmet”, HQ de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, além do fato de que é um comerciante sozinho e bastante faminto. Suas perambulações de negócios pelos bairros de Tóquio sempre terminam por levá-lo a um restaurante desconhecido qualquer, onde ele prova as mais variadas iguarias da variadíssima culinária japonesa.

São raras, as vezes que esse gourmet solitário conversa com alguém, demonstrando ser um autêntico observador sempre de orelha em pé para a conversa alheia. Dessa forma, Taniguchi e Qusumi transportam o leitor a um Japão vedado a turistas, deixando-o preso às ações (ou seriam refeições?) do protagonista e com uma tremenda água na boca.

7. [ love – stephen king ]

Verdadeiro rei do gótico na literatura norte-americana contemporânea, Stephen King se caracteriza por experimentar todo tipo de registro novelístico: gore, ficção científica etc, nada lhe é alheio, nem mesmo certa tradição metaliterária. Como em “O Iluminado” ou “Louca Obsessão”, o centro gravitacional de “Love” pertence a um escritor, o premiado Scott Landon. Dois anos após sua morte, a viúva Lisa não consegue esquecê-lo. Quando ela começa a novamente ouvir sua voz por meio da irmã catatônica, uma viagem às origens de Scott e às obsessões que o tornaram escritor se inicia, num suspense sobrenatural de partir o coração. Contraditoriamente (a etimologia do verbo “aborrecer” vem do latim ab horrere, algo como “sentir horror”), King nunca é aborrecido.

[ Textos publicados originalmente no Guia da Folha especial de livros, discos e filmes. ]

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3 comentários sobre “* * *

  1. Joca Reiners Terron disse:

    Que bom que você perdoou minha indigência crítica. São só comentários mais ou menos bem humorados que buscam despertar interesse pelos livros. É uma pena que esse guia mensal da Folha só circule em SP, Rio e Brasília. Uma pena, não: é um desrespeito com o assinante.

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