u m a g i t o n o e g i t o

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[ entrevista #1 – livraria da folha – por paula dume ]

Repetir um modelo adotado pelas celebridades ou procurar viver a sua própria vida? Em “Do Fundo do Poço se Vê a Lua” (Companhia das Letras, 2010), o escritor e designer gráfico Joca Reiners Terron fala sobre como as pessoas adotam a cópia em vez da autonomia.

“Existe gente demais no mundo, e simulacros da realidade de todo tipo para todos os gostos. A esquizofrenia virou condição. Na internet, nos videogames e nas grandes cidades, você pode ser quem quiser”, disse Terron.Em entrevista à Livraria da Folha, o autor explicou que é mais difícil ser você mesmo do que se projetar nas personalidades. Wilson, um dos gêmeos protagonista da trama, almeja se transformar em uma figura feminina, inspirada na rainha egípcia Cleópatra.

Para compor a história dos gêmeos Wilson e William, Terron ficou um mês no Egito. O livro faz parte do projeto “Amores Expressos”, no qual 16 autores brasileiros viajaram para diferentes cidades do mundo para comporem uma história de amor.

Terron escolheu narrar uma sobre o amor fraternal, porque imaginou que os outros escritores não abordariam o tema. O escritor disse que depois que escreve um livro, esquece completamente o que pesquisou. “Se leio o livro novamente, e quase nunca faço isso, parece que outra pessoa o escreveu.”

Leia abaixo a íntegra da entrevista.

Livraria da Folha: Você passou um tempo no Cairo por conta da coleção “Amores Expressos”. Quanto tempo ficou no Egito e como levantou informações e minuciosidades para compor a trama?
Joca Reiners Terron: Fiquei um mês no Egito, a maior parte do tempo no Cairo, mas também fui de trem a Alexandria e Luxor. O trabalho de pesquisa quando componho um livro sempre acontece de modo estranho, pois as informações que necessito simplesmente caem no meu colo, parecendo que uma força superior qualquer está mandando recadinhos fundamentais para que possa escrevê-lo. Outra coisa esquisita é que, depois de escrever o livro, eu esqueço completamente as coisas que pesquisei. Se leio o livro novamente, e quase nunca faço isso, parece que outra pessoa o escreveu.

Livraria da Folha: A história dos gêmeos foi a primeira que lhe veio à mente para narrar ou pensou em outra
Terron: Eu queria escrever uma história de amor fraternal, pois o projeto previa que as histórias deveriam ser de amor e imaginei que ninguém fosse explorar essa variação amorosa.

Livraria da Folha: Gostaria de saber se você se utilizou de algum fato histórico para compor o romance
Terron: O romance dialoga com a tradição das comédias de erros, cuja origem se confunde com o surgimento das histórias de sósias ou duplos. Por esse fato, o enredo certamente se utiliza de alguns elementos históricos ligados à mitologia. Por exemplo, a história de Castor e Pólux, os gêmeos da constelação, ou mesmo Caim e Abel. Quase todas as lendas que envolvem gêmeos são citadas no livro pelo Gordo, o pai de William e Wilson que pretende encenar teatralmente toda a dramaturgia “Doppelgänger” [relacionada a narrações de sósias], usando seus filhos como atores. Os nomes William e Wilson já remetem a [Edgar Allan] Poe, autor do conto de mesmo nome.

Livraria da Folha: Durante a composição, como ponderou os limites entre o cômico, o lírico e o brutal
Terron: Simplesmente não ponderando. Escrita e ponderação são dois atos conflitantes, não funciona assim. Creio, porém, que essas dicotomias são parte de meu temperamento.

Livraria da Folha: O romance busca delinear a identidade dos gêmeos ou do próprio romance em si?
Terron: Você enxergou no livro alguma reflexão sobre aspectos do romance? Se enxergou, não foi intencional de minha parte.

Livraria da Folha: Enxerguei e comentei sobre a construção da identidade do próprio romance, porque percebi que a trama “troca de sexo” (muda de gênero), assim como Wilson. Falando ainda em identidade, os personagens incidem em suas trajetórias pela busca do registro, seja nominal ou sexual, na história. Você acredita que hoje um dos grandes dilemas do ser humano reside na busca pela identificação e situação no mundo? Por que?
Terron: Acho que a questão da identidade sempre existiu mas nunca foi tão premente como hoje em dia. Existe gente demais no mundo, e simulacros da realidade de todo tipo para todos os gostos. A esquizofrenia virou condição. Na internet, nos videogames e nas grandes cidades, você pode ser quem quiser. O livro fala um pouco disso, de como as pessoas às vezes preferem repetir o modelo, sei lá, de uma celebridade do cinema, a viver a sua própria vida. É sempre mais difícil ser você mesmo.

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