u m a g i t o n o e g i t o

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[ entrevista #3 – brasil econômico, outlook – por ronaldo bressane ]

Do Fundo do Poço Se Vê a Lua (Companhia das Letras, 280 págs.) conta a longa luta do lírico Wilson para se livrar da sombra do irmão gêmeo, o violento William, e da identidade masculina: seu sonho é se metamorfosear em ninguém menos que a Cleópatra vivida por Elizabeth Taylor – no Cairo, claro. A voz mezzo gay mezzo grossa de Wilson/Cléo narra o romance, primeiro livro “convencional” escrito por Joca Reiners Terron. Espanhol nascido em Cuiabá, cuja atual residência paulistana sucede um périplo por dez cidades brasileiras, Terron escreveu o livro após um mês hospedado num hotel mequetrefe do Cairo, participando do projeto Amores Expressos idealizado pela produtora RT/Features – que já enviou ao exterior nomes comoBernardo CarvalhoLuiz RuffatoDaniel Galera. A vivência desterrada talvez justifique parte das bizarrices da história, narrada em tom ora melancólico ora hilário, tendo sempre a frase perfeita como norte. A busca pela linguagem apurada é constante na obra do escritor, raro exemplar de sua estirpe que conjuga sob as longas barbas as figuras do poeta, contista, editor, jornalista, tradutor, professor, quadrinista e designer gráfico – espécie de camisa 10 da literatura contemporânea. Identificado com a escrita de invenção publicada por editoras independentes, Terron distanciou-se de experimentalismos de livros como Curva de Rio Sujo (a ser transformado em filme dirigido por Felipe Bragança) e o resultado é uma narrativa segura, porém não livre de surpresas – como trocas de sexo, crimes, perda de memória e jogos com o tema do duplo na arte. Em tempo: apesar da coleção de excentricidades sob sua rubrica, Terron é um quarentão meio careta, pai de Júlia e casado com a editora Isabel Santana, a “Egípcia do Crato” a quem dedica o romance. A seguir, a entrevista.

Que personagem ou paisagem egípcio foi determinante para a trama? Ou o estalo veio ao escrever em São Paulo? Quando viajei ao Cairo, sabia apenas que se trataria de uma história de amor fraternal entre gêmeos. Na volta, ao inquirir um amigo a respeito de sua relação com o irmão homossexual, surgiu a idéia, que foi se ajeitando ao longo dos dois anos necessários para escrever o romance.

Este é seu primeiro romance linear, ‘convencional’, uma vez que Não Há Nada Lá se trata na verdade de um ciclo de contos que se cruzam. É uma guinada na direção da narrativa clássica? A história se passa ao longo de 40 anos de vida dos gêmeos e simultaneamente durante 24 horas no Cairo, portanto tem muito pouco de linear. Por outro lado, é um drama que explora a tradição das comédias de erros, tão antiga quanto o próprio teatro ou algumas religiões dualistas. Não poderia ser de outro modo senão ter essa aspiração clássica.

Os nomes dos personagens gêmeos são William e Wilson. Um deles, homossexual, é louco pela Elizabeth Taylor, ícone gay. Cairo, a paisagem do romance, é uma cidade sacudida por dançarinas do ventre, muçulmanos machistas, vendavais de areia. Embora a narrativa aparente um realismo rude, a brincadeira com clichês, estereótipos e imagens recorrentes da cultura pop vincularia sua linguagem a uma literatura antirealista? Creio que é uma fábula acerca da constução da identidade, de como é fundamental viver em sintonia com o que é ditado pelo coração. E este é outro clichê. Kurt Vonnegut afirmou que para uma história decolar num dado momento será fundamental ocorrer uma morte ou uma traição. As narrativas são compostas de clichês, e quem pensar o contrário estará apenas sendo ingênuo. E não há nada mais realista do que a cultura pop: ela faz parte da vida das pessoas, tanto como as 130 operações de mudança de sexo a serem feitas pelo SUS em breve. A realidade muda e a literatura realista deveria ir atrás. Nem sempre vai.

Você já disse que sua intenção seria fazer um romance que “até mesmo sua tia leria”, indicando um escape à sua própria história como autor experimentalista. Acha mesmo que as “tias” do Brasil – ora leitoras do realismo novelesco ora debandando para o psicologismo – podem ser capazes de compreender uma literatura que, na dúvida entre o pop e o erudito, o poço e a lua, conjuga duas vozes antagônicas? Espero que sim. Afinal, o primeiro transexual da ficção brasileira foi vivido porCláudia Raia na novela As filhas da mãe, em 2001 — ela vivia Ramona, que se transformava em Ramon. Se as tias convivem com essa idéia há tempo, por que não deveriam viver com Wilson/Cleo, o narrador de meu livro?

Seu estilo alia humorismo e brutalismo, literário e lírico. Mas sua voz em grande parte é a do narrador, um gêmeo gay que se tornou transexual, um paulistano que abraçou a cultura oriental, um sujeito meio comum que decidiu viver sua extraordinária fantasia. Afinal: Joca Terron está dentro ou fora do armário? Esse cara citado aí por você é o autor do livro. Já o narrador, e que progressivamente torna-se a narradora, o sujeito textual acompanhando a mudança de gênero sexual, não deve nunca ter sexo ou credo ou até mesmo cor. Ele pode até mesmo ser um marciano que vem à Terra e adquire uma forma feminina como ocorre num romance do catalão Eduardo Mendoza. Isso, evidentemente, não obriga o autor do livro a repetir as mesmas trapalhadas em sua existência. O autor pode, por exemplo, continuar a cometer um papai-mamãe só nos sábados à noite, feito os críticos literários ou os repórteres de jornal.

Identidade e memória perdidas/ reconstruídas, dissolução do sujeito psicológico no continuum da existência literária e midiática e os choques da vida comezinha com o voraz culto à celebridade são temas de seu romance bem como de alguns livros de Paul Auster, Rodrigo Fresán e Enrique Vila-Matas. Que outras obras ou autores apontaria como formadores ou parentes da sua narrativa? Nossa, são tantos. A idéia já existia emPynchonSalinger, só para ficar em dois nomes. Suponho que esteja aí desde que o mundo é mundo e a mída é mídia. Fazem parte dele desde, sei lá, a invenção da psicanálise. Eu só tomei pra mim e usei, entende?

Seu livro pode ser lido como a tragédia de um sujeito que, insatisfeito com o próprio reflexo, buscou realizar-se no seu negativo, somente o encontrando na morte. Existe alguma moral nessa história? Se existe alguma moral na morte, deve ser a das minhocas. Como naquelas fábulas com bichos de EsopoLa Fontaine. O leitor moderno, porém, não está preocupado e acaba inventando a sua própria. É o que eu espero. Um leitor moral. É o sonho de todo autor.

O que é mais fácil: fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha ou esperar da crítica acadêmica brasileira tem instrumental para ler um romance XXY como este, ainda não depurado, filtrado e etiquetado pelos cânones? As novas gerações de autores têm de inventar os seus próprios críticos. Literatura é uma invenção coletiva, feita por todos os personagens dessa conversa infinita que é a própria literatura. Mas, como no futebol, na nova literatura brasileira todos querem ser atacantes. Alguém em algum momento precisará pedir a camisa 10 de meia-armador. Quanto aos velhos, uma hora a mamãe Natureza fará valer sua morte súbita. Dela, ninguém escapa.

Como foi o processo de criação? O fato de ter escrito, de certa forma, sob encomenda de um projeto – o Amores Expressos – , determinou a velocidade da criação? Foi árduo. Escrever romances não é bolinho. O único prazo que me interessa em relação a escrita é o prazo de validade do romance.

Ouvi dizer que este romance atravessou o caminho de quatro outros livros já iniciados. Qual deles você irá retomar agora?Posso estar errado, mas tenho impressão que todo romance concluído elimina os anteriores, publicados ou não. Tudo que se faz anteriormente adquire diante de um novo livro publicado um caráter de simples exercício. Espero que não seja assim com meus diversos iniciados. O próximo se chama “Guia de Ruas Sem Saída”, e deve sair no segundo semestre.

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