A portrait of the artist as a young black hole

* * *

Como viver aqui é insuportável, resolvemos sair em busca dos conselhos de Velho Oeste. Na estrada, paramos no Posto de Gasolina Encantado para perguntar ao Frentista Mágico qual era o lugar onde Velho Oeste vivia. “No leste”, o Frentista Mágico respondeu. “Como assim, no leste?”, eu perguntei. “Como assim, não era no sul?”, perguntou Máquina. “Como assim, não é mais pro norte?”, perguntou Pústula. “Como assim, não deveria ser mesmo no oeste?”, perguntou Paraísos Artificiais, “afinal, o cara se chama Velho Oeste”. O pessoal do Ministério da Fome é mesmo muito engraçado. Só Paraísos Artificiais que nunca entende nada. Ele é um baterista e os bateristas estão sempre chapados demais pra entender alguma coisa. “Ele sempre foi gozador, o Velho Oeste”, respondeu o Frentista Mágico, “a consulta custa cinqüenta centavos.”

Na saída, o Frentista Mágico nos deu um livro muito grosso. “Leve isto”, ele falou, “vai ser muito útil pra vocês”. O livro se chamava Guia de Ruas Sem Saída. O autor era Velho Oeste.

O livro começava assim.

“Vocês precisam saber que a principal coisa a fazer é matar o Tempo. E não existe arma mais letal e que o Tempo mais tema do que Contar Histórias. Contar Histórias é fogo: o Tempo não resiste e acaba morrendo quietinho quietinho. Puf, é assim que ele morre. Mas agora eu vou contar uma história. Pra matar o Tempo. É uma história muito antiga. É a história de como tudo começou. É a

História de Banha

Banha era um adolescente normal, tão normal que era gordo, muito gordo. Até que ele começou a ter acne. Em poucos meses o corpo dele foi inteiramente tomado por espinhas. Eram espinhas do tamanho de furúnculos, e ficavam tão inflamadas que explodiam sem nenhum motivo (a não ser o fato de estarem inflamadas). Um dia quando ele caminhava pela rua, uma espinha que ficava na testa de Banha explodiu e caiu na boca de uma garota que passava. Em meio segundo a garota começou a 1) babar; 2) cantar um hino religioso numa língua desconhecida; 3) seu cabelo ficou verde; 4) fundou uma religião. Banha se tornou o deus idolatrado por aquela religião chamada A.C.N.E., que significa Assumpção Christiana de Novas Espécies. A Garota de Cabelos Verdes virou sacerdotisa e ordenou que Banha fosse colocado em uma estufa de vidro e que ele fosse alimentado somente com chocolates. De três em três meses, as espinhas de Banha floresciam e explodiam e o corpo dele era inteiramente lambido pelos devotos da igreja. Esse ritual se repetiu por muitos e muitos anos. Coisas que aconteciam quando os devotos lambiam as espinhas de Banha 1) inventavam coisas inúteis; 2) faziam amor com vegetais; 3) os cabelos e pentelhos ficavam multicoloridos; 4) inventavam línguas que ninguém entendia. Com o passar dos anos, Banha ficou parecido com um baiacú. Com o passar dos anos, Banha ficou parecido com uma flor. Com o passar dos anos, Banha se transformou num cogumelo. Esta foi a história de Banha.

e pronto: o Tempo morreu. Não doeu nada, doeu? Bom, não são vocês que têm de me responder isso, mas o Tempo, e o Tempo já não tem mais como falar nada porque morreu. Tá mortinho da silva. Eu tenho certeza absoluta de que não doeu nada. Isso não interessa. E o que é que interessa?, é isso que as cabecinhas ocas aí de vocês devem estar pensando neste exato momento: o que é que interessa, hein, porra? É isso aí. Bom, o que interessa é que vocês estão no caminho certo. Agora basta seguir essa estrada em linha reta sem olhar pros lados. É, não olhem muito pros lados, pois aqui tem uns bichos muito medonhos. A melhor coisa que vocês têm a fazer é simplesmente não olhar pros lados e seguir em linha reta. Lá no final da estrada em linha reta tem uma curva. Mas não façam a curva: saiam da estrada e continuem em linha reta pelo deserto. Depois de atravessarem o deserto, isto deve levar uns quarenta dias, vai aparecer um platô em forma de platô. Vocês o reconhecerão assim que o virem, não se preocupem. Escalem o platô em forma de platô pelo lado Oeste, que é menos íngreme, além de ser fácil de guardar, pois tem o meu nome. Eu podia complicar, tipo, dizendo procês escalarem pelo lado leste. Mas não. A hora que vocês conseguirem chegar no cume do platô, pronto, chegaram. Estarei à espera de vocês com uma cervejinha bem gelada.”

[ fragmento de um troço que ainda tô escrevendo ]

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7 comentários sobre “* * *

  1. interaubis disse:

    Da śerie: “Contos de fadas para as novas gerações”?
    Divertido e delirante, imaginei o cenário com as cores do ‘bob esponja’

    abs

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