r e s e n h i t e a g u d a

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Will Self 1, 2

1. [ o livro de dave ]

O conhecimento dos taxistas é um lugar comum da metrópole que se tornou universal. Narradores anônimos e comentaristas culturais, esportivos ou políticos sempre aptos a expressarem opiniões nunca solicitadas, motoristas são notórias fontes de informação não fiável. O tempo, o comportamento, o hit do momento, nada lhes escapa. Com Dave Rudman, taxista londrino que dá título ao novo romance de Will Self, “O Livro de Dave”, não é diferente.

A grande narrativa social dos dias atuais é tecida o tempo todo por vozes esgarçadas entre ramificações diversas compostas pela política e a psicanálise, já defendeu o argentino Ricardo Piglia. É possível que a roda das idéias fixas à qual taxistas estão atados (ou às quatro rodas fixas, mais apropriadamente), contribua para a distorção cotidiana da compreensão que têm da realidade e que acabam propagando aos passageiros. Ninguém sofre mais com os perigos da raiva diante do semelhante em decorrência dos males do trânsito do que esses sujeitos 24 horas imersos no engarrafamento.

O fluxo dos pensamentos de Dave Rudman está constipado e enegrecido como os céus e as ruas da Londres por onde circula, exibindo sua expertise histórico-geográfica aos estrangeiros que despreza e aos bêbados de final de expediente. “Cadelas salvando cachorrinhos de um mundo cão”, é a máxima de sua lavra que permite diagnosticar a psicose a consumi-lo. Dave é um misantropo de carteirinha com “olhos escuros bulbosos e próximos demais.” É careca e sua pele é um couro curtido por velhas cicatrizes de acne. Para complicar, à certa altura Dave faz um implante malsucedido e seu cabelo renasce pixaim.

Esse taxista sedentário e de dignidade dúbia tem seus motivos para a revolta, afinal: Dave é homem numa época em que o ser masculino — por menos masculino que isto pareça — tem seus valores sob questionamento. De repente, depois de séculos de insensibilidade, homens começaram a sofrer por motivos inéditos. Coitadinhos.

Depois de agredir Michelle, a ex-mulher que o impede de ver o filho, Dave vai parar num hospício, onde escreve um livro que deverá passar ensinamentos fundamentais ao filho extraviado. Após ser solto, o piradão Dave enterra o livro no quintal da ex à espera de que o filho o encontre. Quinhentos anos se passam, a Inglaterra vai por água abaixo com uma hecatombe e os sobreviventes, seres que falam num tatibitate parecido com o das crianças, acham o livro, adotando-o como evangelho. Está fundada a seita que seguirá o Conhecimento dos taxistas. Nessa Novalondris, sacerdotes são chamados de “motoristas”, guarda compartilhada é lei e mulheres ficam em seu devido lugar, a cama. Mas filhos continuam em busca dos pais perdidos.

Dono de obra de corrosão satírica inegável, Will Self compôs um romance ambicioso que expõe os incalculáveis níveis de ridículo da vida civilizada. Seus antepassados são Anthony Burgess e J.G. Ballard, claro, além de James Joyce, não apenas pela inventividade linguística, mas por suas diatribes contra patologias nacionais.

2. [ a guimba ]

Desde “O Livro de Dave” (Alfaguara, 2009) Will Self tem diluído sua verve satírica em sutilezas, pero no mucho. Se no livro anterior o cenário era pós-apocalíptico, com o enredo sobre a religião erigida em torno do diário de um taxista londrino do século 20 dizimando fundamentalismos, o novo “A Guimba” opera no presente e em suas mazelas pós 11 de setembro.

Tom Brodzinski está em férias com a família em algum fictício retiro terceiro-mundista entre o Iraque e a Austrália, quando inadvertidamente deixa a guimba daquele que seria seu último cigarro atingir a calva de um idoso na sacada de baixo de seu hotel. Ocorre que o velho anglo Reggie Lincoln Terceiro é casado com Atalaya, nativa da tribo dos tayswengo. Tom pede desculpas pelo acidente, mas não adianta nada, pois os tayswengos não acreditam em acidentes.

Assim, a guimba adquire as proporções de um míssil lançado sobre toda uma cultura. Instado a se defender, Tom é abandonado pela mulher (que rapidamente retorna para os E.U.A.), permanecendo às voltas com um advogado e um cônsul inescrupulosos e sob a jurisdição dos selvagens. Despejado de sua zona de conforto, ele se perde nos círculos kafkianos de leis que lhe soam, além de inóspitas, completamente absurdas.

Aqui abro um parênteses: é conhecida a malfadada brincadeira de Guilherme Tell de William S. Burroughs, que acabou matando a mulher Joan com um tiro na testa no México em 1951. Burroughs acabou se safando após alguns dias no xilindró graças à proverbial malandragem do advogado Bernabé Jurado, um zé-pelintra típico do submundo periférico. A libérrima impunidade mexicana expandiu a visão do almofadinha de Saint Louis, e daí nasceu a geração beat.

O fascínio civilizado pela orgia da barbárie subdesenvolvida já inspirara autores como Graham Greene e Malcolm Lowry, por exemplo, a narrar o progressivo enlouquecimento europeu ao atingir quadrantes inexplorados do planeta. Esse borrar inevitável da linha que separa razão e delírio tem seu grande campeão em “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, pioneiro em relatar a insânia colonizadora do criador em confronto com sua criatura.

E qual um alucinado coronel Kurtz na boléia de um jipe, Tom Brodzinski é obrigado a atravessar o deserto em busca do vilarejo tayswengo para se redimir. Adotando tonalidades cada vez mais sombrias de humor, Will Self conduz seu personagem a um final tão inexorável quanto deve ser uma situação-limite, aquele ponto que não já permite mais qualquer retorno. Assim como quis Franz Kafka.

[ textos originalmente publicados na Folha de S.Paulo ]

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