a l h u r e s

* * *

[ um poema de antonio cisneros ]

Então nas águas de Conchán (verão 1978)

Ancorou então nas águas de Conchán uma grande baleia.
Era azul quando o céu azulava e negra sob a névoa.
E era azul.
Alguns achavam que ela veio do Norte (onde dizem que existem muitas).
Alguns achavam que ela veio do Sul (onde gela e habitam leões).
Outros dizem que sozinha brotou como os fungos ou as folhas de arruda.
Quem repete isso são as pessoas de Villa El Salvador,
pobres entre os pobres.
Crescendo todos detrás das brancas colinas e na areia:
Gente como areia no areal.
(Só sabem do mar quando está bravo e recende no vento).
O vento que revolve o dorso azul da baleia morta.
Ilhota de alumínio debaixo do sol.
Aquela que veio do Norte e do Sul
e sozinha brotou das correntes.
A grande baleia morta.
As autoridades temem pelas águas:
a peste azul nas praias de Conchán.
A grande baleia morta.
(As autoridades protegem a saúde do veranista).
Logo a baleia azul apodrecerá como um figo maduro no verão.
A peste é, por dizer,
40 reses apodrecendo no mar
(ou 200 ovelhas ou 1.000 cães).
As autoridades não sabem como se safar de tanta carne morta.
Os veranistas se protegem da peste que começa nas água-vivas
da areia molhada.
Nos areais de Villa El Salvador as pessoas não repousam.
É sabido pelos pobres entre os pobres
Que atrás das colinas flutua uma ilha de carne ainda sem dono.
E chegado o crepúsculo
Não do oceano e sim do areal
Afiam-se as melhores facas de cozinha e o cutelo do mestre-açougueiro.
Assim seguiram armados os poucos nadadores de Villa El Salvador.
E à meia-noite lutavam com poças onde espumam ondas.
A grande baleia flutuava graciosa ainda entre as ondas geladas.
Bela, todavia.

Que sua carne seja destinada a 10.000 bocas.
Que sua pele seja teto de 100 moradas.
Que seu óleo seja luz para as noites
e todas as frituras do verão.

[ Em época de “Cachalote”, a HQ de Daniel Galera & Rafael Coutinho, um poema do poeta peruano Antonio Cisneros. Tradução JRT. ]

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