h i p e r b o l a ñ i s m o s

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Dicionário Bolaño

Autobiografia: “As únicas autobiografias interessantes são aquelas de grandes tiras ou de grandes assassinos, pois de certa maneira rompem esse molde deprimente e real de que o destino dos seres humanos é respirar e um dia deixar de fazê-lo.”

Boom: “Não me sinto herdeiro do boom de maneira nenhuma. Ainda que estivesse morrendo de fome não aceitaria a menor esmola do boom, embora eu releia alguns escritores frequentemente, como Cortázar ou Bioy. A herança do boom é de dar medo. Por exemplo, quem são os herdeiros oficiais de García Márquez, senão Isabel Allende, Laura Restrepo, Luis Sepúlveda e algum outro? Para mim, García Márquez a cada dia fica mais parecido com Santos Chocano ou com Lugones.”

Críticas: “Cada vez que leio que alguém fala mal de mim, começo a chorar, arrasto pelo chão, me lanho todo, deixo de escrever por um tempo indefinido, o apetite diminui, fumo menos, pratico esporte, saio caminhando pela praia, que, entre parênteses, fica a menos de trinta metros de minha casa, e pergunto às gaivotas, cujos antepassados comeram os peixes que comeram Ulisses, por que eu, por que eu, que nenhum mal lhes fiz?”

Elvis: “Elvis forever. Elvis com uma estrela de xerife dirigindo um Mustang e se empanturrando de comprimidos, e com sua voz de ouro.”

Espanha: “Vim para a Espanha em 1977. Ia para a Suécia, na verdade, onde tinha arranjado trabalho mais ou menos certo, porém minha mãe vivia na Espanha fazia dois anos e estava muito doente quando eu cheguei. Fiquei, então, à espera de que ela melhorasse. Barcelona, no ano de 77, era uma verdadeira beleza, uma cidade em movimento com uma atmosfera de felicidade e de que tudo era possível. Confundia-se política com festa, com uma grande liberação sexual, um desejo de fazer coisas constantemente, que provavelmente devia ser artificial, porém, artificial ou verdadeiro, era tremendamente sedutor. Para mim foi uma descoberta, e me apaixonei pela cidade. Aprendi coisas em Barcelona que eu acreditava que sabia mas na realidade não sabia.”

Exílio: “Nunca me senti exilado. Me senti estrangeiro em toda parte, começando pelo Chile. Como fui um moleque pedante, desde menino me sentia estrangeiro.”

Futebol: “Minha experiência como jogador de futebol nunca foi completamente compreendida pelos espectadores e muito menos por meus companheiros de time. A mim sempre me pareceu mais interessante marcar um gol contra do que um gol. Um gol, a não ser que o seu nome seja Pelé, é algo eminentemente vulgar e muito descortês com o goleiro adversário, a quem não se conhece e que não te fez nada, enquanto que um gol contra é um gesto de independência.”

García Márquez: “Um homem encantado pelo fato de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.”

Lema: “Meu lema não é Et in Arcadia ego, mas Et in Esparta ego.”

Livros: “O Quixote, de Cervantes. Moby Dick, de Melville. As Obras Completas de Borges, O Jogo da Amarelinha, de Cortázar. Uma Confraria de Tolos, de Kennedy Toole. Nadja, de Breton. As cartas de Jacques Vaché. Todo Ubú, de Jarry. A Vida Modo de Usar, de Perec. O Castelo e O Processo, de Kafka. Os Aforismos de Lichtenberg. O Tractatus de Wittgenstein. A Invenção de Morel, de Bioy Casares. O Satyricon, de Petrônio. A História de Roma, de Tito Lívio. Os Pensamentos de Pascal.”

Ofícios: “O ofício que melhor desempenhei foi o de vigia noturno de um camping perto de Barcelona. Evitei um linchamento (apesar que de boa vontade, depois, poderia ter linchado ou estrangulado eu mesmo o tipo em questão).”

Paraíso: “É parecido com Veneza, espero, um lugar cheio de italianas e italianos. Um lugar que se usa e que se desgasta e que sabe que nada perdura, nem o paraíso, e que isso ao fim e ao cabo não importa.”

Política: “Sempre quis ser um escritor político, de esquerda, claro, porém os escritores políticos de esquerda me pareciam infames.”

Reconhecimento: “Pouco me importa. O narrador mais importante deste século que se acaba (afinal!) se chamou Franz Kafka e não o reconheceram nem em sua casa, assim que imagine se vou me preocupar com uma estupidez desse calibre.”

Remorso: “São muitos e se deitam e se levantam comigo e escrevem comigo porque meus remorsos sabem escrever.”

Sexo: “As pessoas, ao falarem de sexo, parecem idiotas. Talvez sempre tenham sido, porém o sexo as torna ainda mais idiotas e elas se limitam a balbuciar idéias pré-concebidas cujo fundo em nada difere daquele antigo Deus, Rei e Pátria, que, como todo mundo suspeita (mas se cala), significa Medo, Amo e Jaula.”

Triunfo: “Não acredito no triunfo. Ninguém com dois dedos de testa pode acreditar nele. Acredito no tempo. Isso é algo tangível, embora não se saiba se é real ou não, mas o triunfo, não. No campo dos vencedores se pode encontrar os seres mais miseráveis da terra e até ali eu não cheguei nem me vejo com estômago para chegar.”

Se poderia acrescentar a este dicionário sucinto, no verbete Censura (ou Autocensura), esta lúcida consideração de Bolaño: “Sou contra a censura e a autocensura. Com uma só condição, como disse Alceu de Metilene: já que vai se dizer o que quer, também vai se ouvir o que não quer.”

[ Auto-retrato criado a partir de fragmentos de entrevistas concedidas por Roberto Bolaño – falecido há sete anos, em 14 de julho de 2003 – e publicado pelo suplemento El Cultural do jornal El Mundo, em 30 de dezembro de 2004. Tradução de JRT, ilustração afanada do Página 12 ]

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8 comentários sobre “* * *

  1. Genial! A Bolanõmania não é só uma mania, é uma dessas novas religiões que a gente descobre na vida de leitor, feito Kafka, Borges, Cervantes… Temos um escritor morto e uma obra viva para devorar para sempre.

  2. Pingback: O que acontecia quando Bolaño recebia uma crítica « gabinetedentario.org

  3. Pingback: “Que la amnesia nunca nos bese en la boca. Que nunca nos bese” (Bolaño) « IDEJUST

  4. Pingback: Links da semana « Blog da Companhia das Letras

  5. O item “livros” só deixa ainda mais claro que estamos em boa companhia lendo Bolaños. Uma Maga mais uma Nadja certamente devem parir uma Liz Norton oscilando entre Paris e Madri.

    Aproveitando a fase Cortázar que estou passando (relendo inclusive aquela edição genial da Europa-América de Blow Up [de 1984, com direito a encarte de venda de livros sobre educação sexual]), recomendo a leitura de Papéis Inesperados que a Civ. Brasileira acabou de lançar. Mais de 400 páginas de papéis esparsos do heroi Julio.

  6. Pingback: Silveira » Blog Archive » Bolaños

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