k a r a m b o l a s !

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Certa vez Manoel Carlos Karam me explicou qual era a lógica por trás de seus livros publicados até então. Os livros eram “Fontes Murmurantes” (1985), “O Impostor no Baile de Máscaras” (1992) e “Cebola”, originalmente lançado em 1995, após ganhar o Prêmio Cruz e Sousa de Literatura. Era uma noite quente em Curitiba e estávamos siderados por dois fenômenos verdes que ocorriam no quintal de sua casa no Bom Retiro: vaga-lumes e Heinekens.  Creio que estas últimas são o motivo de eu não lembrar quase nada da explicação de Karam.

O que me parece bastante adequado. Talvez cada um dos livros representasse um elemento da perspectiva espacial de uma cidade. O primeiro livro seria a cidade em si vista do alto, o segundo um quarteirão dessa mesma cidade, e o zoom aumentava cada vez mais, atingindo uma casa nesse mesmo quarteirão dessa mesma cidade, chegando então a um cômodo dessa mesma casa nessa mesma cidade vista lá do espaço sideral. Não é muito, mas é só disso que lembro. E não sem alguma dúvida.

Dúvida. Essa é uma palavra crucial na obra de Karam. Nela nada é certo, a não ser o humor certeiro. Ainda hoje me pergunto quem estaria observando lá de cima a tal cidade (Curitiba?). Quem sabe um astronauta ou talvez algum deus? E mais: a quem pertenceria essa casa que era observada? E o cômodo, então? Essa criatura espacial estaria nos vendo ali no quintal do Karam, bebendo Heinekens, observando vaga-lumes, absolutamente maravilhados pelas coisas verdes e pelo calor do verão prestes a nos enlouquecer de vez? Dúvida, dúvida.

Não é possível saber. A única certeza que tenho sobre Karam e sobre sua obra literária é a de que ambos são únicos. Não há outros iguais a ele, apenas diferentes, e Karam fez parte de uma turma de autores de Curitiba que, além de ter salvo a literatura brasileira dos anos 80, fez a cabeça de muitos escritores das duas décadas seguintes. Karam quase sozinho é o nosso Richard Brautigan, o nosso Kurt Vonnegut, o nosso John Barth, o nosso Georges Pérec, o nosso Donald Barthelme. Ele é o nosso herói.  Disso eu tenho certeza.

Absoluta. E quanto ao “Cebola”, este livro bulboso que você ora tem em mãos, bem, sinto informar, mas este livro lhe fará chorar. De rir. Dentro daquela taxionomia auto-determinada por Karam em seu quintal repleto de coisas verdes, “Cebola” representa a casa. Olavo B., Ema, Manfredo, Silva-João-da, Gumercindo e os outros estão numa casa-labirinto e vagam por seus cômodos-corredores à espera do Minotauro ou de um incêndio que lhes traga alguma razão. Enquanto isso, discutem, conversam, falam, brigam, argumentam, riem, provocam, perguntam e atiçam a inteligência do leitor como poucos livros da literatura brasileira dos últimos cinquenta anos.

Manoel Carlos Karam sabe que a razão não traz nenhum conforto. E por isso atira a filosofia à rua, devolve-a ao seu lugar de origem, extraindo reflexão do que está aí diante de nós há tanto tempo (o relógio, a cebola, o alfabeto, os números) que já não conseguimos mais vê-los como realmente são. Assim, limpando nossa visão com lágrimas de risos, “Cebola” nos faz ver de novo o mundo como ele realmente é, um lugar onde as certezas não são mais necessárias.

[ Orelha escrita para a 2ª edição de “Cebola”, romance de Manoel Carlos Karam (1947-2007), a ser lançado no mês de agosto pela Kafka Edições. E quem disse que agosto é mês de desgosto? ]

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2 comentários sobre “* * *

  1. Rodrigo Araujo disse:

    Fico feliz em saber que a obra do Karam foi acolhida pela Kafka Edições, pena que as obras do Valêncio Xavier e Jamil Snege não estejam sujeitas a este “mal”. Infelizmente, Curitiba, esta sim, sofre do grande mal dos clubinhos literários. Ontem o Carpinejar esteve aqui num evento do SESC e disse que o problema na literatura curitibana, não é falta de talento, mas sim o corporativismo e a falta companheirismo. O melhor exemplo disto é o Dalton Trevisan, que é reconhecido mundialmente, mas em Curitiba é invisível (em vários sentidos) e mal quisto. Como diria o Jamil, para tornar-se invisível nesta cidade basta ter talento. Será que as editoras não percebem isso?

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