a f i c ç ã o v i d a

* * *

Crianças

1.

Certa vez entre os transportes havia um com crianças — carga suficiente pra dois carros.

Separando pertences das pessoas levadas às câmaras de gás,

os rapazes tinham de despir as crianças — eram órfãs —

e então levá-las à ´lazarette.`

Lá os homens da S.S. atiraram nelas.

2.

Um longo caminhão de oito rodas chegou ao hospital

onde estavam as crianças;

nos dois trailers — de caçambas sem capota — havia mulheres doentes e homens

deitados no chão.

Do segundo piso e das sacadas os Alemães jogaram

as crianças dentro dos caminhões —

crianças de um a dez anos de idade;

jogaram-nas em cima dos doentes nas caçambas.

Algumas crianças tentaram se segurar nas paredes,

arranharam as paredes com suas unhas;

mas os Alemães gritando

bateram e empurraram as crianças contra as janelas.

3.

As crianças chegaram ao campo em ônibus

escoltados pelos gendarmes do governo francês de Vichy.

Os ônibus pararam no meio do pátio

e as crianças foram rapidamente tiradas pra fora

pra esperar os próximos ônibus.

Assustadas, mas quietas

as crianças foram descendo em grupos de quinze, dezesseis ou dezoito;

as mais jovens ajudadas pelas mais velhas.

Elas foram conduzidas escadas acima, aos salões vazios —

sem qualquer mobília

apenas uns sacos sujos no chão, lotados de insetos:

crianças pequenas de dois, três ou quatro anos de idade,

todas com roupas rasgadas e imundas,

pois já haviam passado duas ou três semanas em outros campos,

sem cuidado algum;

e estavam agora a caminho de um campo da morte na Polônia.

Algumas tinham apenas um sapato.

Muitas tinham diarréia

mas não lhes era permitido ir ao pátio

onde ficavam as privadas;

e, embora houvesse penicos no corredor de cada seção,

eles eram grandes demais pras crianças pequenas.

As mulheres no campo que também eram deportadas,

prestes a serem levadas para outros campos

se desfaziam em lágrimas;

elas acordavam antes do amanhecer

e iam aos salões onde as crianças ficavam —

em cada um deles, cem, cento e vinte —

para remendar as roupas das crianças;

mas as mulheres não tinham sabão pra lavar as crianças,

não tinham roupas de baixo limpas pra dar a elas,

e apenas água fria com que lavá-las.

Quando chegava sopa para as crianças,

não havia colheres;

e era servida em latas

mas as latas às vezes estavam quentes demais pras crianças segurarem.

Depois das nove, ninguém — exceto três ou quatro que tinham permissão —

podia ficar com as crianças.

Cada quarto ficava escuro então,

exceto por uma lâmpada pintada de azul a fim de orientação em blecautes.

As crianças acordavam à noite

chamando por suas mães

e então acordavam as outras,

e às vezes todas no quarto irrompiam num choro

até acordar as crianças nos outros quartos.

Certa vez um visitante parou uma delas:

um menino de sete ou oito anos, bem apanhado, alerta e feliz.

Ele tinha apenas um sapato e o outro pé descalço,

e seu casaco de boa qualidade estava sem botões.

O visitante perguntou seu nome

e o que seus pais estavam fazendo;

e ele disse, “Papai está trabalhando no escritório

e mamãe tá tocando piano.”

Então perguntou ao visitante se ele se juntaria aos seus pais logo —

eles sempre disseram às crianças que em breve elas seriam devolvidas aos seus pais —

e o visitante respondeu, “Certamente. Em um ou dois dias.”

Nesse momento o garoto tirou de seu bolso

meio biscoito do exército dado a ele ali no campo

e falou, “Estou guardando esta metade pra mamãe;”

e então o menino que estivera tão alegre

começou a chorar.

4.

Outras crianças, também separadas de seus pais,

chegaram em ônibus,

e foram descarregadas no pátio do campo —

um pátio cercado por arame farpado

e guardado por gendarmes.

No dia da partida para o campo de extermínio

elas foram despertadas às cinco da manhã.

Irritadas, ainda meio adormecidas, a maioria recusou-se a acordar e descer ao pátio.

As mulheres — voluntárias francesas, pois ainda estavam na França —

gentilmente persuadiram as crianças

a obedecer — elas precisavam! — e desocupar os salões.

Mas muitas ainda não haviam deixado os sacos imundos onde dormiam

e então os gendarmes entraram

e pegaram as crianças nos braços;

as crianças gritaram, amedrontadas,

debateram-se e tentaram alcançar umas às outras.

5.

Mulheres-guardas na seção feminina do campo de concentração

estão colocando as crianças pequenas dentro das caçambas

para serem levadas às câmaras de gás

e as crianças estão gritando e chorando, “Mamãe, mamãe,”

até mesmo as guardas tentam dar pedaços de doces para aquietá-las.


[ Retirados de “Holocaust” (1977), livro de Charles Reznikoff (1896-1976), poeta que inspirou o Objetivismo norte-americano. Tradução de JRT originalmente publicada no extinto blogue Hotel Hell (em 2002, por aí). ]

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