a f i c ç ã o v i d a

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Mulheres

Não se vê que estão esgotadas, que não se aguentam em pé, que são elas que sustentam qualquer cidade, todas as cidades. Com o matrimônio, com a maternidade, com a viuvez, com as porradas, elas carregam este mundo, este sábado à noite no qual riem um pouco diante de um copo de vinho branco e umas azeitonas. Carregam maridos intragáveis, namorados intratáveis, pais em coma, filhos dependurados. Fumam mais que os homens. Têm câncer de pulmão, adoecem, e precisam estar bonitas. Passam cremes, é uma tirania, essa dos cremes. Perfumes e meias e vestidos finos e penteados e maquiagem e sapatos que torturam. Envelhecem, no entanto. As mulheres não deixam nada detrás de si, filhos, quando muito, filhos que não se recordam de suas mães. Ninguém se recorda das mulheres. A verdade é que não sabemos nada delas. Às vezes eu as vejo nas ruas, nas lojas, sorrindo. Esperam seus filhos na saída do colégio. Trabalham em todas as partes. Donas de casa encerradas em cozinhas dando em pátios iluminados. Sorriem, as mulheres, como se a vida fosse boa. Em muitos países as apedrejam. Em outros as violam. No nosso, maltratam-nas até morrerem. Trabalham fora de casa, e trabalham em casa, e trabalham nas peixarias ou nas fábricas ou em padarias ou nos bares ou em bingos. Não sabemos o que pensam quando morrem nas mãos dos homens.

As mãos das caixas

Só deus sabe por que me presenteou com o dom de memorizar as mãos de todas as caixas que me atenderam e cobraram alguma vez na vida. É um dom inexplicável, frenético cativeiro dos olhos. Caixas do Carrefour, do Pão de Açúcar, das Casas da Banha, caixas de todas as lojas que já visitei, carrego vossas mãos no disco bem duro de minha memória. Mãos grandes, pequenas, mãos tristes, alianças, adornos, unhas de todas as formas e de todas as cores, veias sob a pele, mãos atadas a uma caixa registradora, mãos cansadas, unhas rotas. Falanges marcadas por trabalhos nada marcantes. Mãos sempre pulcras, mãos às vezes de uma beleza fulminante. Mãos inesperadas. Sempre que chego com o carrinho de compras e deixo o açúcar e os biscoitos na esteira, e a caixa começa o ritual de recolher a compra com suas mãos, invade-me uma raivosa melancolia: observo essas mãos que colhem o que compro, essas mãos escravas, as minhas que também são assim, as minhas que sacam notas de uma carteira, as mãos dela, com suas unhas pintadas (já vi cem mil unhas encerradas em cem mil cores), os trocos, a onça pintada passando de mão em mão, ausente ela também com sua efígie narcotizada, os biscoitos estúpidos, o abundante açúcar. E é então que atua minha memória. Ali onde só existem mãos muito baratas em trabalhos muito pesados, eu apreendo bem essas mãos de memória: dedo a dedo, aliança por aliança, unha a unha, cada falange, cada veia abandonada à sua sorte, cada dobra de pele, cada forma delicada dos dedos.

[ Dois poemas do espanhol Manuel Vilas retirados de seu livro “Resurrección”, Visor, Madrid, 2005, que dialogam muito bem com este poema do brasileiro Fabrício Corsaletti; tradução JRT ]

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2 comentários sobre “* * *

  1. Joca,

    bem propostas seus textos, confluidos com os poemas que entre-interagem. Estamos em um dado momento histórico em que a roda não é mais quadrada e que se não soubermos controlá-la, uma catástrofe será o próximo passo. É inadimissível nos rendermos a qualquer constatação que não seja a de que nesse mundo não deve haver subjugados.

    Toda vez que leio seus textos, volto a mim um pouco mais bento.

    Abraços!

    Wilson Nanini

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