a s p a s

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Na cozinha ele disse: “Sei como foi o seu casamento. O tipo de casamento em que um conta tudo pro outro. Você contava tudo pra ela. Eu olho pra você e vejo isso no seu rosto. É a pior coisa que se pode fazer num casamento. Contar pra ela tudo o que você sente, contar pra ela tudo o que você faz. É por isso que ela te acha maluco”.

No jantar, comendo mais uma fritada, ele brandiu o garfo e disse: “Você entende, não é uma questão de estratégia. Não estou falando em segredos, em mentiras. Estou falando em ser você mesmo. Se você revela tudo, cada sentimento, pedindo compreensão, você perde uma coisa crucial pra sua autoconsciência. Você tem que saber coisas que os outros não sabem. É o que ninguém sabe sobre você que permite que você se conheça”.

[ Don Delillo, em “Ponto Ômega” (Companhia das Letras, 2011), bom livro, mas que não está à altura do personagem (no caso, o pensador selvagem Richard Elster, 73, leitor de poesia, especialista em extinção e consultor bélico. Tradução de Paulo Henriques Britto]

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