a l h u r e s

6 propostas para a poesia

1. A poesia só nasce quando estamos sozinhos, penabundeados ou solitários por escolha. Para bebês-poemas virem à luz, é necessário ser 1) jovem. Ou então ser 2) velho, porém manter o espírito jovem, ou livre, o que no fundo é a mesma coisa. Contudo, atenção: existe um tipo de amizade nesse período inicial da vida, baseada na descoberta do outro, e tal encontro (tão raro) costuma ser frutífero para a poesia. Dele nascem escolas poéticas, guerras entre escolas poéticas, poeticídios de todo gênero, a origem e o fim do mundo.

2. A poesia não deve ser publicada online em nenhuma hipótese, pois isto impediria que leitores-poetas transformem os livros de poemas que amam numa parte essencial de si mesmos, com a qual dormem, perambulam com eles nos bolsos das calças pelos locais mais inóspitos, e que lancem neles seus fluidos corporais.

3. O poeta não deve nunca presentear seus livros, e sim destruí-los por conta própria. Foi Monterroso quem falou isso (ou mais ou menos isso), mas não custa repetir. Os livros que contêm a única poesia que verdadeiramente amamos são encontrados somente a duras penas, em sebos obscuros de cidades distantes visitadas num verão fracassado, ou então foram roubados das bibliotecas de amigos.

4. A poesia que não traz intensa carga subjetiva não interessa a ninguém. Isso indica que, para que sua poesia seja digna de algum interesse, você precisa viver, e mais do que isto, viver interessantissimamente. O resto (a observação de vísceras sob a lâmina fria de um laboratório asséptico) não é poesia, mas outra engenhoca qualquer que não fede nem cheira, feita só para impressionar. E poesia tem de feder.

5. Aceite entrar num clube apenas para ter o prazer de sair um segundo depois de entrar. Se a dissidência acontecer com alguma pancadaria, melhor ainda, pois poemas são meio vampiros e gostam de sangue.

6. Nunca cague regras. E sempre se contradiga.

[ Seis propostas para a poesia, publicado originalmente no blogue do Michel. ]

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3 comentários sobre “6 propostas para a poesia

  1. Marilia disse:

    e olha só o que o Gerson Carvalho ‎respondeu:

    essa coisa de feder
    isso é coisa de banheiro
    também pode ser poesia?
    eu prefiro a de chuveiro
    de xampu e sabonete
    escova e esponja macia
    assim cheira a açucena
    erva-cidreira ou verbena
    poesia bem vegetal

    nõs participamos de um grupinho que faz estas piadinhas…

    bjs!

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