a s p a s

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Não sou nenhum autor internacional. Sou do campo. No povoado do qual venho havia budistas, só que não se chamavam assim. Havia um muezim, un minarete, apesar de, naturalmente, não estarem ali. Havia índios, tudo o que desejava quando garoto. Tudo provém do lugar de origem, dos pais, dos antepassados. Naturalmente, alguém se faz a si mesmo, porém não é possível se fazer inteiramente. Em nenhum sentido. Não, tudo está lá. Antes eu sempre pensava, Deus meu, por que não nasci nas margens do Mississipi, como William Faulkner? Agora, porém, eu sei que os riachos de minha infância eram o Mississipi. Ou pensava, quando tinha vinte anos e lia Thomas Wolfe e Sherwood Anderson ou Dreiser e John Steinbeck, nossa, que mundo mais amplo, e em minha casa tudo é tão estreito. Hoje eu sei que foram eles, os escritores, que o criaram. E tenho de fazer o mesmo, e posso fazê-lo, pois este mundo amplo sempre esteve lá. Eu apenas o ignorava, em minha mente parcialmente obtusa, porque sempre existia em mim o sonho do homem grande nos homens pequenos que eu via em meu povoado. Hoje eu sei disso.

[ O excelso Peter Handke, em entrevista ao Babelia de 5/11/2011, falando de meu livro Curva de Rio Sujo mesmo sem nunca tê-lo lido. A adaptação cinematográfica, aliás, começou a andar]

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