a l h u r e s

Lixo ao amanhecer, Joaquín O. Giannuzzi

Esta madrugada, na rua

dominado por uma espécie

de curiosidade sociológica

fustiguei com um pau o mundo surrealista

de alguns latões de lixo.

Comprovei que as coisas não morrem e sim são assassinadas.

Vi papéis ultrajados, cascas de fruta, vidros

de cor inaudita, estranhos e atormentados metais,

trapos, ossos, pó, substâncias inexplicáveis

rechaçadas pela vida. Me chamou a atenção

o torso de uma boneca com uma mancha escura,

uma espécie de morte num campo rosado.

Parece que a cultura consiste

em martirizar a fundo a matéria e empurrá-la

ao longo de um intestino implacável.

Até consola pensar que nem mesmo o excremento

pode ser obrigado a abandonar o planeta.

[  Lixo ao amanhecer, um poema de Joaquín O. Giannuzzi, de Señales de una causa personal (1977); tradução JRT ]

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