r e s e n h i t e a g u d a

Eduardo Mendoza 1, 2

1. A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato

Nem Conan Doyle conceberia melhor auxiliar de detetive: que o Dr. Watson perdoe Eduardo Mendoza, mas o escritor catalão criou o maior (apesar de menor de idade) colaborador para investigações de dois mil anos para cá: o menino Jesus. Só que, ao contrário do que ocorre nas aventuras de Sherlock Holmes, em “A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato” o narrador não é o assistente, e sim o protagonista.

Ou seria agonista? Perturbado por terrível enfermidade contraída em seu périplo pela Antiguidade em busca da nascente de água que supostamente traria sabedoria a quem a bebesse, o cidadão romano do século I de nossa era já era: provou de todos os arroios, apenas para adquirir uma flatulência crônica que o arremessa a vinte passos do cavalo a cada explosiva ocorrência.

De pum em pum, Pompônio Flato termina por chegar a Nazaré, onde é contratado pelo impúbere Jesus, cujo “pai”, o marceneiro José, está condenado pelo assassinato de um ricaço do vilarejo. Assim, de cliente improvável, Jesus passa a assistente, tudo para provar a inocência de seu genitor. Então o pernóstico e esfarrapado Pompônio, tornado detetive avant la lettre (e bote avant la lettre nisso), sai a campo para investigações.

Mendoza, raro satirista na literatura contemporânea espanhola (caracterizada por baixa ousadia narrativa e por algum complexo de inferioridade diante da ficção hispano-americana), faz jus ao legado de Cervantes. Apoiando-se na anedota principal, a trama espelha tristezas atuais do mundo: há de tudo em Nazaré, de especulação imobiliária a prostituição, de maledicência (fofocam que José é corno manso) a terrorismo religioso e político.

E a tudo isso o filósofo Pompônio observa com perplexidade. Caracterizado pelo racionalismo extremo, o sabujo romano critica a variegada sociedade da Galileia: “Por estranho e avaro que pareça, os judeus acreditam em um só deus, a quem chamam de Javé.” Entre outras idiossincrasias, Pompônio deplora a “mania legislativa” desse deus, cujo excesso de leis torna “impossível não incorrer em falta continuamente.” Para ele, os judeus são estranhos, pois “não se inclinam a comer a bunda uns dos outros, nem mesmo entre amigos.”

Entre o policial e a hagiografia escatológica (impossível não pensar em Luis Buñuel), Eduardo Mendoza supera a piada de fundo histórico por meio da fala narradora de Pompônio Flato e sua mistura de expressão erudita com gíria malandra. Como o autor afirmou em entrevista: “Esquartejam gente em romances, mas neles ninguém diz que soltou um peido.”

2. O Mistério da Cripta Amaldiçoada

É uma infelicidade que o narrador catalão Eduardo Mendoza (Barcelona, 1943) não seja mais conhecido no Brasil, onde saíram apenas “A cidade dos prodígios” (Companhia das Letras, 1987) e “A assombrosa viagem de Pompônio Flato” (Planeta, 2010). Normalmente dividida em duas vertentes, uma séria e outra cômica (embora essas diferenças não sejam antitéticas), sua produção vê outro representante dessa segunda categoria chegar aqui, o descabelado “O mistério da cripta amaldiçoada”, publicado originalmente em 1979.

Dono de uma locução que mescla o erudito ao chulo com finalidades satíricas, Mendoza aplica aos narradores de seus policiais paródicos certa qualidade pernóstica que acaba sendo responsável por boa parte das risadas do leitor. Aliada à ação acelerada, essa dicção malandra garante uma familiaridade entre personagens curiosamente distantes no tempo e no espaço. O narrador homônimo de “Pompônio Flato”, por exemplo, habitante da Antiguidade, “fala” de modo semelhante ao protagonista anônimo de “O mistério da cripta amaldiçoada” que perambula pela Barcelona dos anos 70.

Tal peculiaridade em nada empana as aventuras de Mendoza, muitíssimo pelo contrário. “O mistério” relata a investigação feita por um detetive maluco temporariamente liberado do manicômio para esse fim. Desse modo, Eoventolevou (esse é o nome pelo qual sua mãe — inveterada fã de Clark Gable — o batizou, mas não dá para levar isto a sério, pois não passa de mais uma entre tantas de suas imposturas), acossado pelo delegado Flores, sai em busca do responsável pelo sumiço de normalistas de um colégio de freiras.

Apoiando-se em métodos hilariantes para arrancar informações (como diluir cocaína, LSD e anfetaminas numa garrafa de vinho e oferecê-lo à testemunha), o maluquinho distribui cabeçadas nos adversários e invariavelmente escapa do cenário de suas peripécias saltando de cabeça pela janela. No breve prefácio ao livro, Mendoza confessa sua dívida com Ross McDonald, e nesse aspecto lembra alguns livros do uruguaio Mario Levrero, outro prestigioso fã dos detetives de magazines pulp.

Vários momentos altos de “O mistério” surgem quando sua intenção paródica é posta de lado e o narrador enrola outros personagens com sua lengalenga divertida. Nesses discursos evidencia-se a euforia espanhola daquele período pós Franco e a verve anticlericalista de Eduardo Mendoza, de quem (se o leitor ficar quietinho e caprichar na audição) poderão ser ouvidas sonoras gargalhadas, soltas enquanto o autor escrevia.

[ Textos publicados originalmente na Folha de S.Paulo ]

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