r e s e n h i t e a g u d a

* * *

1. Doutor Pasavento, Enrique Vila-Matas

 

Obcecado pela desaparição e por acidentes que impeçam a expressão literária, Enrique Vila-Matas convencionou o próprio sumiço de forma bastante curiosa. A idéia fixa atinge o ápice em “Doutor Pasavento”, seu romance mais recente, no qual tem o próprio ego obliterado por aspas de palavras de outrem, vendo assim sua existência ser substituída por vidas alheias. Disfarçado sob uma avalanche de citações, o misterioso doutor Vila-Matas desaparece ao mesmo tempo que — contraditoriamente — deixa rastros marcantes de seu estilo tão pessoal.

A expressão “recordações inventadas” é característica da narrativa do catalão. Desde a antologia de contos homônima e também de livros como “Bartleby e companhia” (2004),“O mal de Montano” (2005) ou “Paris não tem fim” (2007), ela funciona para diagnosticar — de forma fugidia como tudo o que se refere ao escritor — essa fabulação deambulatória na qual a história se sucede por meio de personagens que se atropelam, perdidos, enquanto a imaginação do narrador digressiona, livre. Basta dobrar a esquina da rua Vaneau em Paris, por exemplo, para ser dragado por uma boca-de-lobo e sumir. De repente, o leitor se pergunta: onde diabos foi parar Vila-Matas em meio a tantas citações?

Desaparecer, porém, nem sempre é fácil. Convidado a ministrar uma palestra em Sevilha, o narrador de “Doutor Pasavento” começa a fantasiar ser outra pessoa, um tal doutor Pasavento, psiquiatra “que havia desaparecido, no alto da torre de Montaigne, perto de Bordeaux, sem deixar rastro, nem sequer uma pegada.” Montaigne, está claro, o inventor do ensaio, gênero que Vila-Matas subverte, atribuindo-lhe motor narrativo que funcione ao acaso ou através da “fortis imaginatio generat casum”, a forte imaginação que produz o acontecimento.

Assim, divagando e palmilhando o mundo, doutor Pasavento some qual Forest Gump calçando as sapatilhas de Zéfiro. Nesse furor ambulatório, recorda a ânsia pessoal do escritor suíço Robert Walser. Internado num hospício por decisão própria de 1929 a 1956, Walser procurou desaparecer na inexpressividade anônima da insanidade. Escrevendo microgramas sem sentido, buscou corrigir a vida como se esta fosse literatura, poupando-se assim de sua inépcia diante das praticidades cotidianas. Enrique Vila-Matas, ao modo de Carl Seelig, editor que ao longo de 20 anos acompanhou Walser em caminhadas, registrando seu pensamento no seminal “Conversações com Robert Walser”, investiga em “Doutor Pasavento” as impossibilidades de se ser ninguém num mundo cuja maior premissa é justamente a de ser alguém.

 

2. Estrela distante, Roberto Bolaño

 

A concepção dualista da natureza humana é tão ancestral quanto as histórias de duplos. Surgidas quase ao mesmo tempo (na Grécia, no Egito e na Pérsia), tiveram sua primeira ocorrência literária no “Gilgamesh” sumério (XXI A.C.), e foram exploradas por românticos alemães, além de craques da narrativa de múltiplas  línguas: Hawthorne, Poe, Bierce, James, Stevenson, Maupassant, Schwob, César Vallejo etc — a lista é imensa.

Na América Latina, à notável exceção de Vallejo (e de seu “Mirtho”, de 1923), a principal referência é Borges e sua notória obsessão por espelhos. Mecanismo ideal para refletir a crise de identidade do indivíduo na modernidade, a narrativa de sósias arrasta detrás de si a velha maldição romântica ligada à dissociação e ao mal:  aquele que encontrar com seu doppelgänger estará fadado à ruína. Aplicada ao período das ditaduras do século 20 no continente, a hipótese rendeu ao chileno Roberto Bolaño o seu livro mais cristalino, “Estrela Distante”, novela tão curta quanto precisa e que difere da fragmentação típica de seus romances mais extensos.

Publicada originalmente em 1996, “Estrela Distante” sucedeu a empreitada  de viés enciclopédico e borgeano de “La Literatura Nazi en América”, a qual trazia epílogo que descrevia a existência do tenente Ramírez Hoffmann. “Essa história me foi contada pelo meu companheiro Arturo B, veterano das guerras floridas e candidato a suicida na África”, explica o prefácio de Bolaño, dando início ao jogo de reflexos que se estenderia por toda a sua obra posterior. “Arturo B” é Arturo Belano, alter ego de Bolaño e o anti-herói de muitos de seus textos, entre eles de “Os Detetives Selvagens”.

Na presente encarnação, Hoffmann torna-se Alberto Ruiz-Tagle e depois do Golpe de 1973, Carlos Wieder, poeta e torturador cuja compreensão moral não ultrapassa os limites da estética. Freqüentador de oficinas literárias no Chile de Allende (a história começa em 1971 ou 1972), o poeta Ruiz-Tagle seduz e assassina as gêmeas Garmendia, poetas notáveis não só por sua poesia. Reencarnado em Wieder, cujas peripécias nos céus de Santiago — onde escreve versículos bíblicos com fumaça — dão-lhe status de herói de Pinochet, ele almeja a obra de arte total, um feito que não exclui a morte como ingrediente.

A mais pura encarnação do mal, Wieder representa a busca da outra face da geração de Roberto Bolaño (aqueles nascidos na fatídica América Latina dos anos 50), é o próprio doppelgänger que expõe as origens ocultas da ruína política e moral de toda uma geração.

 

3. Galiléia, Ronaldo Correia de Brito

 

Nossos muitos sertões vêm sendo ameaçados de extinção da literatura brasileira desde os anos 30, quando a sensibilidade documental do neo-realismo se apaixonou fatalmente pelas cidades. Teve até morte anunciada, mas cadê cadáver? De Guimarães Rosa e seu sertão cósmico passando por Bernardo Élis, Mário Palmério, Josué Montello, Raquel de Queiroz, José Cândido de Carvalho e outros mais recentes, inacabáveis, como Gilvan Lemos, Ricardo Guilherme Dicke, Francisco J.C. Dantas, Tabajara Ruas e Luiz Sérgio Metz até Ronaldo Correia de Brito, a fênix mítica dos sertões só faz renascer das cinzas; “Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo”, como escreveu Rosa.

“Galiléia”, primeiro romance de Correia de Brito, traça o caminho inverso percorrido pela literatura brasileira desde o modernismo: derrotados pelo exílio urbano, agora seus anti-vaqueiros voltam para casa. Os primos Adonias, Ismael e Davi cruzam o Ceará ao volante de uma caminhonete que atravessa o sertão de Inhamuns. Eles seguem rumo a Galiléia, velha fazenda familiar dos Rego Castro próxima a Arneirós. Como se lerá, as ressonâncias bíblicas não irão se ater somente aos nomes das pessoas e dos lugares. Narrado por Adonias, saberemos já na primeira página do livro das diferenças entre os primos. Davi foi vítima de alguma violência na juventude, Ismael é filho bastardo e suspeito de violências, Adonias é vítima de sua própria incredulidade e da rejeição aos familiares e às origens. Mas todos urgem voltar, pois o patriarca Raimundo Caetano está nas últimas e assim o exige.

Está montado o dilema à maneira de Tolstoi: entre os Rego Castro, todos são infelizes, cada um à sua maneira. Aos poucos seremos introduzidos à intimidade das tristezas de todos os familiares (e não são poucos, focados a cada capítulo, cujos títulos correspondem aos seus nomes), porém sem nunca conseguirmos devassar o que corre pelos seus passados e por seu presente, a única certeza parecendo ser a total ausência de futuro do avô moribundo e também de Galiléia, que se arruína com ele.

O Inhamuns de Correia de Brito não tem nada de pitoresco ou de exótico, pelo contrário, parece ser um corpo prestes a experimentar os extremos do rigor mortis. Abundam moscas e vermes, nessa paisagem letal, contrastando com a vivacidade histriônica da linguagem cantabile do autor (em evidência no baixo naturalismo dos diálogos e em certos anacronismos), certamente herança de sua experiência teatral e da cultura popular. Nada há de folclore aqui, entretanto: em “Galiléia” o sertão é matéria interior, irremediavelmente colada à subjetividade de quem o viveu.

 

4. Indecisão, Benjamin Kunkel

 

Todo mundo já teve uma noite comprometida pelo parceiro que não conseguiu ao menos se decidir pelo sabor da pizza. Ou pior ainda, foi o próprio responsável por antecipar o fim de um jantar promissor com sua indecisão. Essa incapacidade psicopatológica frente ao mundo contemporâneo tem nome — abulia — e não é nada incomum. Afinal, em nenhum momento da história a oferta foi tão grande. Produtos, serviços, ideologias, pessoas. E há aquelas que não conseguem de maneira alguma simplesmente escolher. Dwight Wilmerding, o protagonista de “Indecisão”, romance de estréia do norte-americano Benjamin Kunkel, é certamente um desses indecisos crônicos.

Funcionário da Pfizer, de onde é demitido (“Hm, sim. Acabei de ser afastado. Da Pfizer. Uau. Apfastado! Então estou pfodido!”), Dwight tem quase 30 anos e humor de colegial. Vive em Nova York, numa república com amigos solteiros e imerso nos dilemas que acometem os jovens de hoje e de sempre: a inadequação ao trabalho, o superficialismo altamente rotativo do amor, a bóia de salvação (quase sempre furada) oferecida pelo sexo e pelas drogas. Dwight namora com Vaneetha, garota de origem indiana, mas gostaria mesmo era de estar com Natasha, ex-colega de universidade que mudou-se para o Equador. Até que certo dia Natasha convida Dwight a visitá-la em Quito (“Key-To”, como ele aprende a pronunciar logo após descobrir onde, afinal, fica o Equador). Como se decidir? É então que surge a intervenção salvadora de Dan, colega de quarto e químico de plantão para as noites de sábado. Ele oferece a Dwight algumas pílulas (ainda em fase de testes) de um medicamento chamado Abulinix, criado para possibilitar algumas escolhas às vítimas da abulia. Dwight: “Não é a Pfizer, né? Que está fazendo essa coisa. Espero que a Pfizer me ajude a tomar a decisão de me demitir da Pfizer.”

Assim testemunhamos as mudanças no comportamento de Dwight, que aos poucos torna-se mais arrojado, finalmente livre de sua indecisão aguda. Sua ida para Quito ocasiona as transformações mais drásticas e hilárias. Atraído por Brigid (“atraído” é uma forma eufemística e um tanto opaca de traduzir a satiríase — efeito colateral do Abulinix — que acomete Dwight), amiga de Natasha e antropóloga mochileira, ele adere à militância política da parceira se metamorfoseando — surpreendentemente — de democrata meio borocochô em socialista ferrenho.

Recebido com fogos de artifício por alguns totens da crítica norte-americana, “Indecisão” salva-se pela maneira irônica com que trata a influência onipresente da indústria farmacêutica no cotidiano das pessoas. A visão crítica bem-humorada da política comercial de seu país natal na América do Sul é um dos pontos altos do livro de Kunkel, que surge no rastro de novos ficcionistas como Dave Eggers e Jonathan Safran-Foer. O ponto destoante talvez seja a estrutura do romance, baseado num sistema “reward-forward”, seguindo para trás e adiante capítulo a capítulo, e que soa excessivamente mecânico em alguns momentos.

 

5. O encontro, Anne Enright

 

Acontece o tempo todo, com todo o mundo, sempre. Certo dia alguém some, fazendo com que a ficha caia. De uma hora para outra, sem nenhuma explicação, falta alguém no retrato de família sobre o aparador da sala, uma pessoa muito importante começa a desaparecer no álbum de fotografias. Em seguida, o impacto: a constatação da premência da morte para aqueles que permanecem. Isto também aconteceu com Veronica Hegarty, a narradora de “O Encontro”, quarto e premiado romance da autora irlandesa Anne Enright (o livro ganhou o Man Booker Prize 2007). Isto pode acontecer com qualquer um de nós.

O desaparecido é Liam, o único representante daquele tipo de alma carismática e autodestrutiva dentre os doze filhos Hegartys. Nômade e alcoólatra, Liam matou-se numa cidade da Inglaterra aplicando o método de Virginia Woolf (ou seja, ao encher seus bolsos de pedras e permitir que a correnteza cuidasse do resto), obrigando sua irmã mais devotada a sair de Dublin em busca de lhe repatriar o corpo para o funeral. Tal ação será o único evento a merecer este nome em toda a trama, constituída apenas das reminiscências de Veronica.

Numa variação incomum daquela revisão de todos os eventos que acredita-se ocorrer à beira da morte, é Veronica quem reflete a respeito da vida do irmão e da sua própria. De alguma forma, a existência infeliz e deslocada de Liam permite a Veronica enxergar os motivos da sua própria infelicidade. O rol dos possíveis responsáveis é então passado a limpo: a mãe aérea, o pai ausente e o intrincado romance triangular que a avó charmosa teria vivido com o marido viciado em jogo e com o senhorio misterioso; qual deles seria o culpado?

Cabe aqui determinar as origens da culpa sentida pela quarentona Veronica Hegarty: mãe de duas filhas e casada com Tom, o borocochô por quem abandonou suas esperanças profissionais, ela é assombrada por aquela perguntinha que pessoas em suas circunstâncias costumam se fazer: “e se?”

Outra discussão faz-se necessária, agora relativa à literatura de gêneros. Tornaram-se incontornáveis, os dilemas a respeito da literatura feminina. Existirá algo que defina a prosa feita pelas mulheres ou não, afinal? Creio que a resposta (em geral evasiva e negativa, principalmente por parte das mulheres) deve passar pela questão do estilo. Em Anne Enright tudo é feminino, desde seu poder de observação aliado ao lirismo de alta concentração, até a raiva contida e finalmente detonada. Deverá se passar muito tempo para que temas tão explosivos quanto os da escritora irlandesa estejam ao alcance de homens. Talvez nunca estejam.

 

6. O imitador de vozes, Thomas Bernhard

 

No dia 31 de maio de 2009, Johanna Ganthaler perdeu o vôo 447 da Air France que desapareceria no Atlântico na mesma madrugada, deixando 228 mortos. Alguns dias depois do desastre aéreo, entretanto, Johanna morreu num acidente automobilístico em Kufstein, na Áustria. Essas fatalidades não teriam — em tese — quase nada a ver com “O Imitador de Vozes”, livro de relatos de Thomas Bernhard publicado originalmente em 1978 —, mas incrivelmente têm.

O paralelo inicial não passa de coincidência e é bastante óbvio: Bernhard nasceu na Holanda, porém toda a sua obra é austríaca tanto na problematização histórica quanto no confrontamento político; já a semelhança seguinte é mais fortuita: as narrativas de “O Imitador de Vozes” tratam quase todas de mortes, de suicídios ou de incidentes que decorrem de acasos e de paradoxos, e assim como o parágrafo de abertura deste texto, tiveram sua origem em notícias de jornal ou em fontes autobiográficas.

Explorando sua experiência de repórter na juventude, Bernhard demonstra nessa recolha somente agora lançada no Brasil a oficina de origem de seu texto, o jornalismo. O estilo preciso e quase frio é o mesmo de seus romances mais notórios, mas sem o coloquialismo dos monólogos que sustentam sua pentalogia autobiográfica iniciada com “A Origem” ou da obra-prima “Extinção”, por exemplo. Outra característica de “O Imitador de Vozes” (que em conjunto com outro volume, “Narrativas”, reúne toda a sua produção breve) é a extrema economia de meios utilizada nos 104 relatos que não raro ultrapassam uma página.

Os temas são os usuais da dramaturgia ou dos romances de Bernhard: o flagelo da má consciência austríaca e suas hipócritas tentativas de obliterar o passado nazista; o desinteresse contemporâneo diante dos verdadeiros personagens da cultura (artistas, escritores e cientistas) contraposto à “cultura” de fachada vienense, como constata a poeta de “Em Roma”: “estava constantemente em fuga e sempre viu nos seres humanos o que são na realidade: a massa obtusa, inane, inescrupulosa, com a qual só resta de fato romper.” Um alter-ego do autor?

É bem conhecida a influência do pensamento de Pascal na obra de Thomas Bernhard. Em “O Imitador de Vozes” é possível identificar outra voz insuspeitada, a do luterano Johann Peter Hebel e suas historietas de almanaque do século 18. As fábulas morais de Bernhard, entretanto, ao contrário da intenção edificante encontrada nas de Hebel, quase sempre trazem uma pulsão demolidora. Em sua secura narrativa essas pequenas histórias parecem dizer o tempo todo que a única lei vigente na Natureza é a morte.

[ Resenhas encomendadas e publicadas pela revista Bravo!, exceto pela de Doutor Pasavento, que permanecia inédita ]

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Um comentário sobre “* * *

  1. Lorivaldo disse:

    Li Jardins de Kensigton há quase cinco anos atrás motivado por uma resenha entusiasmada da revista Trip e não me arrependi; ainda o considero um grande livro e é lamentável o silêncio literário sobre ele. Se não me engano, o autor chegou a vir para a Flip, mas passou despercebido. Até me espantei em encontrar alguém que ainda lembre do livro. Eis uma de suas frases memoráveis : “Não me faça certas perguntas, porque me obrigaria a responder com meias verdades; e uma meia verdade é muito mais perigosa do que uma completa mentira” – pág. 256.
    Abraços

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