h i p e r b o l a ñ i s m o s

“Os Neochilenos”, poema de Roberto Bolaño

a Rodrigo Lira

A viagem começou num feliz dia de novembro
Porém de alguma maneira a viagem já havia terminado
Quando a começamos.
Todos os tempos convivem, disse Pancho
Ferri,
O vocalista. Ou confluem,
Vai saber.
Os prolegômenos, não obstante,
Foram simples:
Entramos com gesto resignado
Na caminhonete
Que nosso empresário num impulso
De loucura
Nos havia presenteado
E enfileiramos em direção ao norte,
O norte que imanta os sonhos
E as canções sem sentido
Aparente
Dos Neochilenos,
Um norte, — como diria? —,
Pressentido no lenço branco
Que às vezes cobria
Como um sudário
Meu rosto.
Um lenço branco impoluto
Ou não
Onde se projetavam
Meus pesadelos nômades
E meus pesadelos sedentários.
E Pancho Ferri
Perguntou
Se sabíamos a história
De Caraculo
E do Jetachancho
Girando com ambas as mãos
O volante
E fazendo vibrar a caminhonete
Enquanto procurávamos a saída
De Santiago,
Fazendo-a vibrar como se fosse
O peito
Do Caraculo
Que suportasse um peso terrível
Demais para qualquer humano.
E recordei então que no dia
Anterior à nossa partida
Estivéramos
No Parque Florestal
De visita ao monumento
A Rubén Darío.
Adeus, Rubén, dissemos bêbados
E drogados.
Agora os feitos banais
Se confundem
Com os gritos anunciadores
De sonhos verdadeiros.
Porém assim éramos os Neochilenos,
Pura inspiração
E nenhum método.
E no dia seguinte rodamos
Até Pilpilco e Llay Llay
E passamos sem nos deter
Por La Ligua e Los Vilos
E cruzamos o rio Petorca
E o rio
Quilimari
E o Choapa até chegar
A La Serena
E o rio Elqui
E finalmente Copiapó
E o rio Copiapó
Onde nos detivemos
Para comer empanadas
Frias
E Pancho Ferri
Voltou com as aventuras
Intercontinentais
De Caraculo e do Jetachancho,
Dois músicos de Valparaíso
Perdidos
No bairro chinês de Barcelona.
E o pobre Caraculo, disse
O vocalista,
Estava casado e tinha que
Conseguir dinheiro
Para sua mulher e seus filhos
Da estirpe Caraculo,
De tal forma que se pôs a traficar
Heroína
E um pouco de cocaína
E nas sextas algum ecstasy
Para os súditos de Vênus.
E pouco a pouco, obstinadamente,
Começou a progredir.
E enquanto o Jetachancho
Acompanhava Aldo Di Pietro
— Lembram-se dele? —
No Café Puerto Rico
O Caraculo via crescer
Sua conta-corrente
E sua auto-estima.
E que lição podíamos,
Os Neochilenos, tirar
Da vida criminosa
Daqueles dois sul-americanos
Peregrinos?
Nenhuma, exceto que os limites
São tênues, os limites
São relativos: reentrâncias
De uma realidade cunhada
No vazio.
O horror de Pascal,
mesmo.
Esse horror geométrico
E escuro
E frio
Disse Pancho Ferri
Ao volante de nosso bólido,
Sempre em direção ao
Norte, até
Toco
Onde descarregamos
A megafonia
E duas horas depois
Estávamos prontos para atuar:
Pancho Relâmpago
e os Neochilenos.
Um fracasso pequeno
Como uma noz.
Ainda que alguns adolescentes
Nos ajudaram
A voltar a enfiar na caminhonete
Os instrumentos: garotos
De Toco
Transparentes como
As figuras geométricas
de Blaise Pascal.
E depois de Toco, Quillagua,
Hilaricos, Soledad, Ramaditas,
Pintados e Humberstone,
Atuando em salões de festas vazios
E bordéis reconvertidos
Em hospitais de Liliput,
Algo muito incomum, muito difícil que tivessem
Eletricidade, muito
improvável que as paredes
Fossem semi-sólidas, enfim,
Lugares que nos davam
Um pouco de medo
E onde os clientes
Teimavam com o
Fist-fucking e o
Feet-fucking,
E os gritos que saíam
Das janelas e
Percorriam o pátio cimentado
E as latrinas ao ar livre,
Entre armazéns cheios
De ferramentas oxidadas
E galpões que pareciam
Recolher toda a luz lunar,
Nos punham de cabelo
em pé.
— Como pode existir
Tanta maldade
Num país tão novo,
Uma coisinha de nada?
Por acaso é este
O Inferno das Putas?
Perguntava-se em voz alta,
Pancho Ferri
E os Neochilenos não sabíamos
O que responder.
Eu na verdade refletia
Como podiam progredir
Essas variantes nova-iorquinas do sexo
Naquelas lonjuras andinas
da província.
E com os bolsos vazios
Seguimos subindo:
Mapocho, Negreiros, Santa
Catalina, Tana,
Cuya e
Arica,
Aonde conseguimos
Algum repouso — e indignidades.
E três noites de trabalho
No Camafeo de
Dom Luis Sánchez Morales, oficial
aposentado.
Um lugar repleto de mesinhas redondas
E abajures barrigudos
Pintados à mão
Pela mãe de Dom Luis,
Suponho.
E a única coisa
Verdadeiramente divertida
Que vimos em Arica
Foi o sol de Arica:
Um sol como uma esteira de
Poeira.
Um sol como areia
Ou como cal
Jogada ladinamente
Ao ar imóvel.
O resto: rotina.
Assassinos e convertidos
Misturados na mesma discussão
De surdos e de mudos,
De imbecis soltos
Pelo Purgatório.
E o advogado Vivanco,
Um amigo de dom Luis Sánchez,
Perguntou que merda queríamos dizer
com essa palhaçada de Neochilenos.
Novos patriotas, disse Pancho,
Enquanto se levantava
Da reunião
E se trancava no banheiro.
E o advogado Vivanco
Voltou a afundar a pistola
No coldre de couro
Italiano do sovaco,
Uma fina marca dos garotos
Da Ordine Nuovo,
Gravada com primor e perícia.
Branca como a lua
Aquela noite tivemos que enfiar
No meio de todos
Pancho Ferri na cama.
Com quarenta de febre
Começou a delirar:
Já não queria que nosso grupo
Se chamasse Pancho Relâmpago
E os Neochilenos,
E sim Pancho Mistério
E os Neochilenos:
O terror de Pascal,
O terror dos vocalistas
O terror dos viajantes,
Porém jamais o terror
Das crianças.
E num amanhecer,
Como um bando de ladrões,
Saímos de Arica
E cruzamos a Fronteira
Da República.
Por nossos semblantes
Podia se dizer que cruzávamos
A fronteira da Razão.
E o Peru legendário
Abriu-se diante de nossa caminhonete
Coberta de poeira
E imundícies
Como uma fruta sem casca,
Como uma fruta quimérica
Exposta às inclemências
E às injúrias.
Uma fruta sem pele
Como uma adolescente desolada.
E Pancho Ferri, desde
Então chamado Pancho
Mistério, não melhorava
Da febre,
Balbuciante como um padre
Na parte de trás
Da caminhonete
Os avatares — palavra indígena —
Do Caraculo e do Jetachancho.
Uma vida delgada e dura
Como corda e sopa de enforcado,
A do Jetachancho e seu
Afortunado irmão siamês:
Uma vida ou um Estudo
Dos Caprichos do Vento.
E os Neochilenos
Tocaram em Tacna,
Em Mollendo e Arequipa
Sob patrocínio da Sociedade
Para o Fomento da Arte
e da Juventude.
Sem vocalista, cantarolando
Nós mesmos as canções
Ou fazendo mmm, mmm, mmmmh,
Enquanto Pancho se fundia
Ao fundo da caminhonete,
Devorado pelas quimeras
E por adolescentes desoladas.
Nadir e zênite de um anseio
Que o Caraculo soube intuir
Através das luas
Dos narcotraficantes
De Barcelona: um fulgor
Enganoso,
Um espaço diminuto e vazio
Que nada significa,
Que nada vale, e que
No entanto lhe é oferecido
Grátis.
E se não estivermos
No Peru?, nos
Perguntamos uma noite
Os Neochilenos.
E se este espaço
Imenso
Que nos instrui
E limita
For uma nave intergaláctica,
Um objeto voador
Não identificado?
E se a febre
De Pancho Mistério
For nosso combustível
Ou nosso equipamento de navegação?
E depois de trabalhar
Saíamos caminhando pelas
ruas do Peru:
Entre patrulhas militares, vendedores
Ambulantes e desocupados,
Espreitando
Nas colinas
As fogueiras do Sendero Luminoso,
Porém nada vimos.
A escuridão que rodeava os
Núcleos Urbanos
Era total.
Isto é como um rastro
Deixado pela Segunda
Guerra Mundial
Disse Pancho deitado
No fundo da caminhonete.
Disse: filamentos
De generais nazis como
Reichenau ou Model
Evadidos em espírito
E de forma involuntária
Para as Terras Virgens
Da América Latina:
Uma hinterland de espectros
e fantasmas.
Nossa casa
Instalada na geometria
Dos crimes impossíveis.
E pelas noites costumávamos
Percorrer alguns inferninhos:
As putas de quinze anos
Descendentes daqueles bravos
Da Guerra do Pacífico
Gostavam de nos ouvir falar
Como metralhadoras.
Porém sobretudo
Gostavam de ver Pancho
Envolto em várias e coloridas mantas
E com um gorro de lã
Do altiplano
Puxado até as sobrancelhas
Aparecer e desaparecer
Como o cavalheiro
Que sempre foi,
Um cara sortudo,
O grande amante enfermo do Sul do Chile,
O pai dos Neochilenos
E a mãe do Caraculo e do Jetachancho,
Dois pobres músicos de Valparaíso,
Como todo mundo sabe.
E o amanhecer costumava nos encontrar
Em uma mesa do fundo
Falando do quilo e meio de matéria cinzenta
Do cérebro de uma pessoa
Adulta.
Mensagens químicas, dizia
Pancho Mistério ardendo de febre,
Neurônios que se ativam
E neurônios que se inibem
Nas vastidões de um anseio.
E as putinhas diziam
Que um quilo e meio de matéria
Cinzenta
Era bastante, era suficiente, para que
Pedir mais.
E caíam lágrimas de Pancho
Quando as escutava.
E então chegou o dilúvio
E a chuva trouxe o silêncio
Sobre as ruas de Mollendo,
E sobre as colinas,
E sobre as ruas do bairro
Das putas,
E a chuva era o único
Interlocutor.
Estranho fenômeno: os Neochilenos
Deixamos de nos falar
E cada qual por seu lado
Visitamos as lixeiras de
La Filosofía, as arcas, as
Cores americanas, o estilo inconfundível
de Nascer e Renascer.
E uma noite nossa caminhonete
Enfileirou rumo a Lima, com Pancho
Ferri ao volante, como nos
Velhos tempos,
Salvo que agora uma puta o
Acompanhava.
Uma puta delgada e jovem
De nome Margarita,
Uma adolescente sem par,
Habitante da tormenta
Permanente.
Sombra delgada e ágil,
A ramagem escura
Onde Pancho podia
Curar suas feridas.
E em Lima lemos os poetas
Peruanos:
Vallejo, Martín Adán e Jorge Pimentel
E Pancho Mistério subiu
Ao palco e foi convincente
E versátil.
E então, ainda trêmulo
E suado
Nos falou de um romance
Chamado Kundalini,
De um velho escritor chileno.
Um tragado pelo esquecimento
Chamado Délano, alias Coke,
Como a Coca-Cola ou algo assim,
Dissemos os Neochilenos
E Margarita.
E o fantasma da Coca-Cola
Escreveu — assim parece —
Um romance chamado Kundalini,
Que Pancho mal recordava,
Fazia esforços, suas palavras
Remexiam uma infância atroz
Cheia de amnésia, de provas,
Ginásticas e mentiras,
E assim ia nos contando,
Fragmentado,
O grito Kundalini,
O grito de uma égua turfista
E a morte coletiva no hipódromo.
Um hipódromo que já não existe.
Um oco ancorado
Em um Chile inexistente
E feliz.
E aquela história teve
A virtude de iluminar
Como um paisagista inglês
Nosso medo e nossos sonhos
Que marchavam de Leste a Oeste
E de Oeste a Leste,
Enquanto nós, os Neochilenos
Reais
Viajávamos de Sul
A Norte.
E tão lentos
Que parecia que não nos movíamos.
E Lima foi um instante
De felicidade,
Breve porém eficaz.
E qual é a relação, disse Pancho,
Entre Morfeu, deus
Do sono
E mofar, vulgo
Comer?
Sim, disse isso,
Abraçado à cintura
Da bela Margarita,
Magra e quase desnuda
Em um bar de Lince, uma noite
Lida e partida e
Possuída
Pelos relâmpagos
Da quimera.
Nossa necessidade.
Nossa boca aberta
Pela qual entra
A batata
E pela qual saem
Os sonhos: esteiras
Fósseis
Coloridas com a paleta
Do apocalipse.
Sobreviventes, disse Pancho
Ferri.
Latino-americanos com sorte.
Isso é tudo.
E uma noite antes de partir
Vimos Pancho
E Margarita
De pé no meio de um lodaçal
Infinito.
E então soubemos
Que os Neochilenos
Seriam para sempre
Governados
Pelo acaso.
A moeda
Saltou como um inseto
Metálico
Do meio de seus dedos:
Cara, para o sul,
Coroa, para o norte,
E então todos subimos
Na caminhonete
E a cidade
Das lendas
E do medo
Ficou para trás.
Um feliz dia de janeiro
Cruzamos
Como filhos do Frio,
Do frio Instável
Ou de Ecce Homo,
A fronteira com o Equador.
Então Pancho tinha
28 ou 29 anos
E logo morreria.
E 17 Margarita.
E nenhum dos Neochilenos
Passávamos dos 22.


[ Poema escrito por Roberto Bolaño em Blanes, 1993, e que mostra de onde saiu Os Detetives Selvagens, publicado em 1996; tradução de JRT ]

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