r e s e n h i t e a g u d a

* * *

1. Rostos na multidão, Valeria Luiselli

Difícil saber que água andam bebendo no México, mas fato é que alguns dos escritores mais surpreendentes dos últimos tempos têm surgido por lá, a maior parte inédita no Brasil. Só para ficar no time feminino, Guadalupe Nettel, Daniela Tarazona, Brenda Lozano, entre outras, e Valeria Luiselli, primeira a desembarcar, parecem ser ávidas consumidoras de certo mescal secreto cujo rótulo exibe a marca “Los detectives salvajes”.

Rostos na multidão, romance de estréia da autora, é resposta inquietante ao que se passa na cabeça de uma mulher. A narradora, uma tradutora, vive na Cidade do México com um arquiteto e dois filhos pequenos. Escreve um livro: “Os romances são de longo fôlego. Assim querem os romancistas. Ninguém sabe exatamente o que significa, mas todos dizem: longo fôlego. Eu tenho um bebê e um menino médio. Não me deixam respirar. Tudo o que escrevo é — tem que ser — de curto fôlego. Pouco ar.”

Entrecortada, a estrutura lembra um asmático em crise atrás da bombinha. Lembranças da solteirice em Nova York, quando trabalhava para um editor interessado em descobrir o novo Roberto Bolaño, misturam-se ao tempo presente da mulher que escreve “um romance silencioso, para não acordar as crianças” e fantasia sobre a vida erótica do vizinho chinês ou recorda de peripécias sexuais do passado, entrevistas pelo marido que bisbilhoteia o livro em progresso e pergunta quem é “Moby”. “Ninguém, digo, Moby é um personagem.” Mas Moby existiu, assim como Pajarote, Dakota e o editor White, figuras fantasmagóricas de outros tempos, de outra cidade.

No presente sem espaço, a narradora se divide entre diálogos trocadilhescos com as crianças, a ausência do marido e Gilberto Owen, poeta mexicano dos anos 20 que também viveu em Nova York e de quem ela fraudou traduções para apresentar a White. Em seus últimos dias, Owen, o personagem, começa a tomar conta da narrativa, e sua voz aos poucos substitui a da mulher, soterrada pela invisibilidade de sua inexistência íntima e dos desejos que irrompem para excitação do leitor, privilegiado observador dessa janelinha voltada ao interior de uma cabeça feminina.

Aos poucos, porém, descobre-se nos interstícios habilmente justapostos uma história triste. Ficcionista sem temor à referência culta (o título vem de verso de Pound, e Garcia Lorca e o objetivista norte-americano Louis Zukofsky — à clef, como “Zvorsky” — aparecem), Valeria Luiselli atesta o momento especial da literatura hispano-americana, e não é só mais um rosto na multidão de Bolaños.

 

2. O material humano, Rodrigo Rey Rosa

Vivemos um bom momento no que se refere à publicação de autores hispânicos, sejam americanos ou peninsulares. Alguns fatores contribuem, como os subsídios para tradução fornecidos pelos governos espanhol e argentino, ou o aporte do Instituto Cervantes. Com isso, o público brasileiro não tem motivos para se queixar; um exemplo é a publicação de “O material humano”, primeiro livro do guatemalteco Rodrigo Rey Rosa no Brasil.

Rey Rosa nasceu em 1958 e pertence àquela categoria de narrador latino-americano que desenvolveu sua carreira no exílio, cujo paradigma máximo é Roberto Bolaño. Mais sortudo que o chileno, porém (que entre outros subempregos trabalhou como vendedor de bijuterias), quando vivia no Marrocos o guatemalteco foi descoberto por Paul Bowles, que o traduziu ao inglês.

Em “Entre Paréntesis” (inexplicavelmente não traduzido aqui — pronto, eis uma queixa), Bolaño afirmou (ao analisar os contos do colega) que “Rey Rosa é um mestre consumado, o melhor de minha geração, uma geração, por outro lado, que deu excelentes contistas.” Contudo (e não caberia aqui uma discussão acerca do desinteresse do mercado na publicação de contos, embora fosse pertinente), “O material humano” é um romance, e a maestria diagnosticada por Bolaño se apresenta na forma fragmentária e exata adotada por Rey Rosa.

O romance, desenvolvido ao modo de um diário que cobre três meses, relata as pesquisas feitas pelo autor no Arquivo da Polícia Nacional Guatemalteca, descoberto quase por acaso num hospital abandonado. O arquivo (mais para um depósito bagunçado) reúne os documentos (ou o que restaram deles) e registros policiais, além do Gabinete de Identificação, setor que procura dar ordem ao caos da memória de um país que esteve em guerra civil de 1960 a 1996.

O fio condutor (é conveniente que o narrador seja recebido por uma certa Ariadna) é a passagem de Benedito Tun pelo gabinete, diretor que introduziu métodos científicos no sistema policial guatemalteco e se demitiu por recusar-se a adulterar uma autópsia com propósitos de falsidade ideológica (e eleitoreiros). A intenção declarada de Rey Rosa com sua pesquisa é localizar artistas perseguidos pela ditadura. Mas outras motivações surgem conforme o diário avança: a mãe do escritor foi sequestrada. A contradição reside no fato de que os sequestradores pertenciam à militância esquerdista, e não à repressão totalitária, o que torna tudo absurdo. E como descobrir a verdade política de um país, a não ser esmiuçando suas mentiras?

 

3. Kensington Gardens, Rodrigo Fresán

A visão de Bataille sobre a literatura como reencontro com a infância nunca teve mais adequada comprovação do que por meio da vida e obra de James Matthew Barrie. “Todas as crianças crescem — menos uma”, assim inicia a saga de Peter Pan, epígrafe perfeita também para esse escritor escocês nascido em 1860, cuja existência é abordada de maneira curiosa em “Jardins de Kensington”, do argentino Rodrigo Fresán.

Praticante de uma narrativa caudalosa e afeita às digressões, Fresán (revelado na célebre antologia latino-americana “McOndo”) não se conformou, entretanto, a escrever uma investigação ortodoxa sobre o esquisitão Barrie, alvo já bastante pródigo em obter a atenção de estudiosos ávidos por lhe ignorar a maldição deixada num diário: “Deus fulmine todo aquele que escrever uma biografia sobre mim”. Nono filho de família plebéia, Barrie logo cedo teve a malfadada missão de substituir no coração da mãe a ausência do filho predileto David, morto aos 13 anos num acidente de patinação no gelo. Em tudo diferente do heróico irmão mais velho, o menino Barrie, baixinho e frágil, nunca conseguiu seu intento, passando a infância toda a ouvir incessantes histórias sobre “o menino que nunca iria crescer”.

É o que de alguma forma ocorre com Keiko Kai, personagem do romance de Fresán. Ator-mirim escalado para viver no cinema o herói Jim Yang, protagonista de uma série de livros infantis mundialmente conhecidos (assim como Harry Potter), Keiko Kai foi sequestrado por Peter Hook, o criador de Jim Yang, e é obrigado a ouvi-lo em sua obsessiva verborréia nostálgica a respeito dos paralelos possíveis entre seu próprio passado e a vida de J.M. Barrie, além de toda e qualquer referência sobre a Inglaterra, desde os tempos vitorianos até os lisérgicos anos 60. Filho do líder de uma banda de rock e de uma groupie, Peter Hook parece ter caído dentro de um caldeirão (assim como Obelix) cujo conteúdo em vez de poção mágica era LSD e, conforme sua mente trafega pelos milhares de afluentes dessa trip memorialista que, de maneira hábil, costura as fixações de Barrie pela infância e pelos garotos Llewelyn Davies (os inspiradores e destinatários da criação de Peter Pan), relata a história das suas obsessões pessoais, todas de alguma forma relacionadas à sua própria recusa em crescer. “É por isso, penso, que o mundo (…) transborda de gente de 40 anos convencida de que tem apenas 20, contradizendo inteiramente essa pieguice da ‘criança que levamos dentro de nós’”, diz Hook ao pobre Keiko Kai em seu delírio irrefreável.

Controlando as rédeas do pensamento insubmisso de Peter Hook (não por coincidência o nome do Capitão Gancho), Rodrigo Fresán construiu um notável romance que celebra o ápice da liberdade inspirada pela infância, sem deixar de diagnosticar sua patética tentativa de ressurreição que a cultura pop de alguma forma sugere. De acordo com Fresán todo adulto pós-68 é um garoto perdido. Não deixa de fazer sentido.

[ Textos publicados originalmente na Folha de S.Paulo ]

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “* * *

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s