a f i c ç ã o v i d a

A solidão nas fotos do Instagram

 

01.

Quantos homens e quantas mulheres devem estar conectados através dessa torre de telefonia neste momento? Milhões? O Facebook acabou com as linhas cruzadas. Ninguém mais atende a uma ligação, desliga e diz: “Era engano”. Não é necessário fingir que se discou um número errado para falar com alguém. Não existem mais enganos. Eu estou aqui. Você, aí. Por que não me liga?

02.

A solidão nas grandes cidades é idêntica à do espectador que assiste a uma cena que exibe pessoas entrando em vagões do metrô. Esse balé sincronizado não o inclui. Ele permanece estático, mas vê tudo. A multidão se move sem ver. Não há emissão e recepção, nem cruzamento de olhares. A condição do espectador é semelhante à da moça quatro-olhos no baile de formatura. Ninguém tira ninguém para dançar.

03.

O hábito de fumar, quem diria, aproxima as pessoas. Alguém já disse que percebeu a completa falta de sentido do ato somente ao fumar de luvas. A tatilidade é o próprio cigarro para o fumante, e não senti-lo é o mesmo que não fumar. Isso prova que o cigarro só existe entre os dedos, daí a postura destemida do fumante que se recusa a aceitar a existência da fumaça nos pulmões. Você tem fogo?

04.

Não me deixe aqui, não acredito no abandono. Veja, eu tenho celular. Vou fazer uma pergunta ao Twitter, que tem este nome, mas bem poderia se chamar Esfinge. Decifra-me ou te devoro e te cago cobertinha de ouro. Alguém me ouve? Quem quer ir ao cinema, ao bar, à igreja? Não sei mais o que é real, a não ser o esquecimento. Me deixe. Eu acredito em enganos. O Twitter na verdade se chama Sphincter.

05.

Ninguém mais acredita que o silêncio vale ouro, nem os gângsteres. O negócio — negócio de verdade, com cifrão no lugar do cê — é se comunicar, é dizer, é monetizar a comunicação no plano pessoal, não em massa. Então por que você não me manda um sms, por que me abandona, por que se engana? Por que não me manda um SOS? Por que, porcaria?

06.

Post its. Anotações. Cartões postais. Bilhetes de amor. Cartas anônimas. Listas de supermercado. Trabalhos escolares em cartolinas. Cadernos de caligrafia. Layouts em Letraset. Poemas em guardanapos. Cartazes de aluguel. Paste ups de anúncios. Lembretes em calendários. Corações flechados nos gessos. Pedidos de socorro em notas de dez cruzeiros. Tudo isso não serve mais. O passado não te deixa triste?

07.

Lançar mensagens em garrafas ao mar não é o mesmo que deixar um desesperado pedido por afeto na timeline. A garrafa chega a algum lugar, nem que seja a uma ilha rodeada de clichês de solidão, como aquela história de qual livro se levar para uma ilha deserta. A única idéia de solidão que permanece imune ao lugar comum é a de naufrágio, justamente pelo fato de o naufrágio não ser um lugar, mas um meio.

08.

Até pouco tempo atrás pessoas agradeciam a Deus em notas de dinheiro. Não dá para fazer o mesmo em moedas, a não ser que você seja um ourives. E quanto aos casais que registraram seus nomes em troncos de árvores? Eu também gostaria de agradecer a Deus, mas não sei exatamente o quê. Enviei um email para Ele, mas voltou escrito assim: daemon_mailer_full_box. Deus não está no Facebook.

[ Publicado originalmente na revista Select. As fotos são do meu Instagram. ]

Anúncios
Padrão

2 comentários sobre “A solidão nas fotos do Instagram

  1. Pingback: Substantivo Plural » Blog Archive » A solidão nas fotos do Instagram

  2. Pingback: A solidão nas fotos do Instagram (via Sorte & Azar) | Beto Bertagna a 24 quadros

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s