a f i c ç ã o v i d a

Os descaminhos siderais da literatura

Uma sonda chamada Tor I carrega através do espaço sideral, entre canções dos Beatles, a nona sinfonia de Beethoven, uma versão em inglês de Michel Teló intitulada OH, IF I CATCH YA, também um livro tradicional, feito de papel, e um leitor de livros eletrônicos. Tudo isso serve para que, no caso de uma civilização alienígena existir e interceptar a sonda no infinito e além, saiba de nosso legado. Das muitas coisas maravilhosas que os seres humanos deixaram para o universo. De nossa inteligência. Em meio aos vários textos que o livro em papel e o leitor de livros eletrônicos no interior da sonda espacial compilam está um romance que ainda estou escrevendo e que se tornará muito famoso no futuro, pois será alvo de um processo bilionário que perderei. A história do romance trata do cachorrinho morto que mora em cima da cabeça de Eike Batista. Já repararam no cachorrinho morto que mora lá em cima da cabeça do Eike Batista? Tem gente que finge não reparar, mas eu o percebi. Pois bem, nessa história o cachorrinho morto que vive em cima da cabeça do Eike Batista não está exatamente morto, e sua consciência malévola domina por completo o Eike Batista, que, como todos sabem, é o dono do mundo. E daí o cachorrinho morto em cima da cabeça do Eike Batista ordena que ele promova as maiores bandalheiras políticas e econômicas, como implantações de torradeiras elétricas gigantes em áreas de preservação ambiental, prospecção petrolífera nas piscininhas plásticas com bolinhas da criançada, indústrias de bombons transgênicos, e, entre outras barbaridades, o uso da polícia militar na expulsão dos melômanos, viciados em música erudita, do centro da cidade; e, como todos sabem, a Melolândia da região da Luz é um caso de saúde pública, não de polícia. Como já deu para perceber, o cachorrinho morto que vive em cima da cabeça do Eike Batista é o AntiCristo, o Eike é o seu cavalo e a partir daí começa o fim do mundo. E mais não conto, pois ainda estou escrevendo essa história. Mas não era disso que eu ia falar. Eu ia falar do momento em que os alienígenas encontram a sonda enviada ao espaço pelos cientistas pagos pelo cachorrinho morto que vive em cima da cabeça do Eike Batista. Depois de dançarem muito ao som de Michel Teló, eles localizam dentro da sonda o livro em papel e o leitor de livros eletrônicos. Pois bem, após demonstrarem algum espanto diante de tecnologia tão atrasada, os aliens começam a pensar no que farão para decodificar a informação que aqueles objetos trazem. O livro em papel está em inglês, então a primeira coisa que fazem é decifrar aquele grunhido bárbaro no qual o livro está escrito. Isso lhes ocupa algum tempo, pois a sociedade alienígena está imersa em morosa burocracia feita para restringir o acesso de funcionários públicos a jogos de entretenimento, ainda mais acesso a jogos de entretenimento — e a grande literatura também é isto — que possam transformá-los, que lhes ensinem algo (embora os aliens ainda não saibam que aquele maço de papel seja um livro e até mesmo que o papel seja papel, e que para fazê-lo era necessário derrubar árvores no planeta Terra, pois eles também não sabem lá o que era uma árvore e muito menos conhecem o planeta Terra, já que no planeta deles não existem árvores e no nosso também não, já que a história se passa num futuro não muito distante daqui quando este planeta Terra de agora já tiver ido pras cucuias e consequentemente as árvores também e por aí vai). Pois bem, eis que afinal os aliens decifram a língua inglesa e então passam meses, quem sabe anos e séculos, para entender todo o contexto e circunstância na qual ocorre a primeira história do livro que lêem. Para ler e entender “Crime e castigo”, por exemplo, eles precisam descobrir o que exatamente é um usurário, o que é uma dívida financeira, o que é o sistema capitalista, o que é uma velhinha russa, o que é um machado, o que é um assassino e, mais difícil ainda, já que são imortais, o que é a morte. Depois que mais ou menos entendem as agruras pelas quais Raskolnikov passou e o que ele aprontou à pobrezinha da anciã e como termina “Crime e castigo”, os aliens acabam se divertindo muito com a obra-prima de Dostoiévski e aprendendo alguma coisa sobre a miséria da existência humana no extinto planeta Terra. Nesse instante, os aliens começam a intuir o que é e para que serve a literatura. Contudo, quando deixam de rir, lembram que precisam decifrar como funciona o leitor de livros eletrônicos. Eles então pegam o Kindle ou o Ipad ou o Kobo ou quaisquer que seja a traquitana enviada no interior da sonda espacial, apertam o botão e percebem que está descarregada. Simplesmente não funciona. Furiosos e também curiosos, os aliens realizam pesquisas para entender qual é o tipo de energia utilizada para o funcionamento daquele estranho e arcaico aparelho. Sim, pois para usá-lo teriam de recriar todo o contexto tecnológico que permitiu à civilização que o inventou inventá-lo. Com isso, os aliens — cuja história científica é, muito provavelmente, diferente da nossa —, para atingir o conhecimento que conduziu a humanidade ao leitor de livros eletrônicos, deveriam passar por tudo o que passamos sem queimar etapas, desde a antiguidade, sendo atingidos por relâmpagos enquanto empinam papagaios do mesmo modo que Benjamin Franklin e queimarem um milhão de lâmpadas assim como Thomas Alva Edison queimou (aqui cabe uma anedota particular: quando criança nos anos 70, sempre imaginei que Tomás Alva Edison, o pai da lâmpada elétrica e do fonógrafo, era brasileiro; isto se devia, claro, ao fato de o brasileiro mais popular daquela época também se chamar Edson, Edson Arantes do Nascimento, o nosso Pelé, verdadeiro inventor do futebol). É aqui, entrementes, enquanto os aliens pesquisam, que se torna necessário um parêntese histórico para falar a respeito da literatura e seus descaminhos, siderais ou não. Desde que surgiu, cuspida à volta de alguma fogueira pré-histórica, e depois entre gregos e troianos, a literatura foi propagada ao longo do tempo através do ensinamento de mestres, de homens que a perpetuavam como um ofício artístico, ensinando as regras da arte. Esse processo durou entre dois e três mil anos. Entrementes, não havia risco nessa alternância, pois a arte era um conhecimento comum a todos, uma prática social, e não havia zonas escuras a serem exploradas ou mitos a serem combatidos. Tornar-se artista era o resultado culminante de um processo pedagógico, mais ou menos como se opera com parte de vocês aqui, que vieram à faculdade para aprender a ser jornalistas e, se contarem com a sorte, e vão necessitar de muita, serão jornalistas. Então, ser artista era pertencer a uma classe profissional como outra qualquer, com suas regulamentações e benefícios. Um poeta da Idade Moderna, por exemplo, podia ser contratado para compor um soneto de circunstância em homenagem ao aniversário de quinze anos da filha caçula da condessa de Sicranópolis. É bem conhecido o papel dos mecenas durante o Renascimento, que encomendavam a artistas quadros que registrassem efemérides familiares ou históricas, em geral exageradas ou falsas. Então e depois, até o século 20, a função social da arte era bastante clara. Em “Fuga sem fim”, um romance de 1927 de Joseph Roth, há um trecho que ironiza esse papel “pedagógico”: “Na guerra, descuida-se da educação. As moças de todos os níveis sociais aprendem, às expensas de versos iâmbicos, o cuidado dos enfermos, o heroísmo e detalhes da guerra.” Em fins do século 19 a literatura atingiu seu cume profissional, por meio dos romances de Dickens, Tolstói e Balzac. Longas histórias com ricas personagens que podem ser compreendidas sem nenhuma dificuldade. E é esse o modelo que vem sendo repetido, alimentado e exigido, por meio de um perverso sistema de recusas e revisões, de subsídio milionário ao formulaico, pela indústria editorial do século 20 até este ponto crucial em que ora nos encontramos. O modelo do romance realista do século 19 cristalizado nas obras de Dickens alimenta a atual cultura do romance de entretenimento serializado e também, paradoxalmente, a cultura da mesmice da alta literatura anglófila que está no centro do panteão canônico, com raras exceções. Porém antes de chegarmos ao  século 21, é necessário mencionar as vanguardas de início do século 20 e de seu caráter revivificador. Como afirmou César Aira, “as vanguardas apareceram quando se deu por encerrada a profissionalização dos artistas, sendo necessário começar de novo. Quando a arte já estava inventada, restando apenas continuar fazendo obras, o mito da vanguarda veio repor a possibilidade de se fazer o caminho a partir da origem (…) a vanguarda foi a resposta de uma prática social, a arte, para recriar uma dinâmica evolutiva.” Derrotada pela mercancia do sistema editorial que atinge seu auge econômico da metade do século em diante, a vanguarda, também autosabotada por seu próprio caráter monolítico, deixando marcos intransponíveis como o “Ulysses” e “Em Busca do Tempo Perdido”, pedras fundamentais que não fundam nada, pois não fornecem modelos para reproduções e se autodestroem na nascente, não deixou herança. E aqui nos encontramos: no meio do deserto, sem nem uma coca-cola para matar a sede. Então eis que surge uma encruzilhada. A placa indica para um lado FIM DE TUDO e para outro, RENASCIMENTO. Com a substituição do antigo padrão de inteligência simbolizado pelo livro e pela eventual renovação — para não sermos mais drásticos — do sistema editorial proposto pela difusão digital, qual caminho a literatura vai tomar para se manifestar? Há alguma chance de que a ficção literária novamente ressurja, nem ao menos que seja para  se impor “o objetivo de saber como funcionavam as velhas coisas e como funcionava o mundo”, no dizer de Aira, ao considerar que a arte continua a ser o melhor campo para a prática e a experimentação da velha inteligência, como a conhecíamos antes de desconhecermos por completo como funciona o mundo? Em discurso recente aos formandos de uma faculdade de artes da Philadelphia, o escritor britânico Neil Gaiman, procurando soar otimista diante de jovens que começam sua carreira profissional, afirmou que o topo da cadeia alimentar editorial com quem vem conversando “não faz idéia do quadro que existirá daqui a dois anos, quiçá daqui a dez”, recomendando aos artistas que só lhe resta fazer “boa arte”. Apenas esqueceu de dizer o que é a “boa arte”, que certamente não é o que encontramos com facilidade por aí nas prateleiras das poucas livrarias que ainda existem. Segundo Jorge Luís Borges, arte é “a iminência de uma revelação que não se produz”. Quem sabe não possamos em breve reencontrá-la em prateleiras digitais a módicos preços e com mediação menos comprometida? Bem, final do parênteses. Retornando aos aliens, enquanto esta reflexão digressionava, passam-se cerca de cem anos ou o equivalente a cem anos no tempo dos aliens, para que eles descubram a eletricidade. Quando enfim criam a primeira tomada e vão todos felizes plugar o leitor de livros eletrônicos na parede, os aliens descobrem que o plugue não serve. Eles então são obrigados a inventar o benjamin, ou o tê, ou o adaptador elétrico universal. Isso lhes ocupa mais uma semana-alien. Nisso, os aliens começam a ficar meio desanimados para descobrir quais histórias maravilhosas o leitor de livros eletrônicos lhes reserva. Quando estão prestes a conectar o plugue no adaptador, porém, acontece um curto-circuito poderosíssimo que apaga todo o prédio onde eles instalaram o seu centro de pesquisas. Bem, a má notícia é que o curto circuito também queima o leitor de livros eletrônicos e todo o seu conteúdo, livros eletrônicos que os aliens nunca terão chance de ler, mas que, na condição de autor desta história, posso adiantar a vocês quais são, e que se tratavam de alguns clássicos da literatura de auto-ajuda, leituras de cabeceira do cachorrinho morto que vive em cima da cabeça do Eike Batista, coisas que o cachorrinho morto que vive em cima da cabeça do Eike Batista lia para inspirar seu trabalho apocalíptico e de renovação do mundo, tipo “Como Eu Se Fiz Por Mim Mesmo” ou “Como Dominar o Mundo em 24 horas Só Com Seu Cartão de Crédito e Dois Cotonetes”. E isso é tudo que sei sobre os descaminhos, neste caso siderais, da literatura.

[ Texto lido no último Congresso de Jornalismo Cutural da revista Cult, em junho/2012; inspirado num tuíte de Alan Sieber; Santarém, Pará, maio de 2012 ]

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2 comentários sobre “Os descaminhos siderais da literatura

  1. Que viaaaagem! Haha
    Até aliens lendo Dostoiévski e tem gente aqui da Terra que ainda não conhece, super triste :/
    Gostei de mais do texto! Pode ser coisa minha, mas fiquei realmente feliz por os aliens não terem conseguido ligar o leitor eletrônica. Auto ajuda acabar é uma das poucas coisas que faz o fim do mundo valer a pena!
    Gostei do teu blog, muito coisa legal aqui 😀
    Abraço!

  2. Ana Rocha disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Li o texto sussurrando-o, dando uma entonação teatral à voz e tendo um sorriso tímido nos lábios. Essa do cachorro morto na cabeça do Eike, putz, muy loco e interessante. Tenho lido tanto sobre o futuro (?) da literatura que achei, na minha infantil consciência, que esse texto traria alguma elucidação (pode rir, foi ridícula essa minha expectativa). Assim como afirmou o Paulo Roberto Pires, quem possui a resposta para esse enigma não o espalhará gratuitamente. Só resta continuar lendo, porque se for para dar uma de cartomante sobre a moribunda desengana de nome Literatura… É mais fácil ganhar na loteria.
    Abraços

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