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São Paulo – 6 monumentos para um turismo masoquista

Certa vez um turista estrangeiro me perguntou qual era o animal típico de São Paulo, algum pássaro? Respondi: um quadrúpede, o automóvel. É comum aos que não são daqui retornarem a seus lugares de origem afirmando terem odiado São Paulo. Daí se torna obrigatório perguntar: mas qual São Paulo? Sim, pois não existe uma só, são inúmeras cidades em uma, quase todas incompreensíveis, muitas delas odiáveis. Maior cidade do hemisfério sul, com 20 milhões de habitantes, a Grande São Paulo hoje engloba 39 municípios, o que a torna a primeira macrometrópole a surgir no continente. Lotada de italianos, japoneses, africanos, árabes e judeus, ninguém  é daqui, embora não conheça outra vida. Também é comum se ouvir que a cidade é feia. Há controvérsias: melhor afirmar que se trata do único lugar que consegue extrair beleza da feiúra. Aqui o cinza às vezes adquire cores impensáveis, devido ao Sol filtrado pelos gases da poluição. Como um diamante surgido da pedra bruta e do concreto, São Paulo é multifacetada, tem 20 milhões de faces. Abaixo listamos alguns pontos da cidade a serem conhecidos ou evitados. Isso depende de você, turista masoquista, que, igual a São Paulo, não se parece com ninguém.

1. Elevado Costa e Silva.

Essa pista elevada de 3,4 quilômetros que une o centro à Zona Oeste, dista apenas 5 metros das janelas dos prédios vizinhos e é um exemplo de como São Paulo pode ser aprazível e hospitaleira. Construída em 1970 por Paulo Maluf, político de direita alinhado à Ditadura militar que governou o Brasil durante trinta anos, atualmente leva o cidadão do nada a lugar nenhum, pois a malha viária da cidade cresceu tanto que a área originalmente a ser desafogada (debaixo dela fica uma das avenidas mais tradicionais da cidade, a São João) é um detalhe ínfimo no inferno automobilístico. Aos domingos, o Minhocão (apelido dado pela população) é fechado aos carros, tornando-se monumento ao grafitti e zoológico humano de duplo viés, no qual pedestres observam a vida íntima dos habitantes da região pelas janelas enquanto são observados ao caminhar.

2. Praça Roosevelt.

Situada numa artéria viária central de São Paulo, a rua da Consolação, a Roosevelt decaiu de seu papel de pracinha de igreja no século 19 a labiríntico covil nos anos 90, utilizado por assaltantes e viciados em crack para se esconder. Com o crescimento acelerado da cidade nos anos 70, a praça em forma de pentágono se tornou uma ilha de concreto cercada de carros em movimento. De acordo com o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, era “um bom exemplo do que nunca deve ser uma praça”. Sem árvores ou jardins, permanece atravessada por túneis subterrâneos. E pensar que a Roosevelt foi efervescente nos anos 60, cercada de teatros e boates (o primeiro cinema de arte da cidade ficava lá, o Bijou). Revitalizada na última década por grupos teatrais como Os Satyros e Parlapatões, a praça teve um ponto de giro em sua história: o dramaturgo Mário Bortolotto levou 4 tiros num assalto em 2009. Só assim para o poder público despertar. Em 2012 foi reinaugurada na véspera da eleição para prefeito, porém às pressas: não houve tempo para plantar as árvores.

3. Borba Gato.

Certamente o monumento mais horrendo do mundo, a estátua dedicada ao bandeirante Borba Gato é um acinte estético aos passantes, uma ofensa visual de 10 metros de altura. Construída nos anos 60 com a sucata dos trilhos dos bondes charmosos que ligavam a cidade no passado, a estátua homenageia os bandeirantes paulistas, sertanistas dos séculos 16 e 17 especializados em atividades amplamente homenageáveis: extermínio de escravos africanos rebeldes, captura de índios para escravizar, garimpo de pedras preciosas (daí, talvez, o fato de a estátua ser revestida com feias lascas de pedras coloridas de basalto e mármore). Um pesadelo frequente dos habitantes de São Paulo é o de que a estátua do Borba Gato cria vida e sai por aí feito a Medusa, ferindo olhares e transformando todos em pedra.

4. Edifício Copan.

Projetado parcialmente por Oscar Niemeyer em 1951 em vista da comemoração do quarto centenário da cidade, o edifício Copan é um marco da arquitetura moderna no centro antigo de São Paulo,  e igualmente uma experiência social. De início uma espécie de Rockfeller Center paulistano, seu status acompanhou a decadência do centro a partir da década de 70. Como o prédio tem apartamentos com três quartos e também quitinetes, estabeleceu-se verdadeira luta de classes no lugar, que por muito tempo foi o quartel-general de prostitutas e travestis da Boca do Lixo, área de boemia, bandidagem e produção de filmes pornô naquele período. No processo de higienização do Copan a partir dos anos 90 ganharam, como sempre, os ricos, e hoje o lugar abriga galeria de arte, café e restaurantes. Pobres, feliz ou infelizmente, não há mais.

5. Avenida Paulista.

A Paulista é o coração da cidade, uns dizem, e fico só imaginando a quantidade de pontes de safena que ela deve ter. Originalmente, no século 19, era região de fazendas de famílias quatrocentonas, como a do poeta modernista Oswald de Andrade. Hoje é o pulmão econômico de São Paulo, e quando ouço isto fico pensando num fumante subindo a escadaria de um prédio de 20 andares. De qualquer modo, é lá que tudo acontece, não só negócios. Cinemas, livrarias, lojas de roupas, centros culturais, de tudo há e muito. Desde 1997, também é a passarela da maior Parada Gay do mundo com 3 milhões de participantes, e não me atrevo a dizer a qual parte da anatomia a avenida Paulista corresponde nesse dia.

6. Ponte Estaiada.

O último grande cartão postal de São Paulo, uma cidade com 5 milhões de carros, só podia ser uma ponte. Desde sua inauguração em 2008, a Ponte Estaiada é, como seu nome suavemente indica, uma ponte suspensa através de cabos (ou “estais”, palavra pouco corrente, mais usada em navegação), que fica sobre a avenida Água Espraiada, cuja homofonia causa uma confusão dos diabos na vida dos forasteiros. Afinal, a confusão é parte fundamental da existência nessa descabeçada Babel sul-americana e diferente não poderia ser, já que seu padroeiro, o evangelista São Paulo, morreu decapitado.

[ Artigo publicado no dossiê dedicado ao Brasil da edição de janeiro da revista KulturAustausch, publicada em Berlim ]

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