a f i c ç ã o v i d a

A parte maldita

Na noite de 8 de julho de 2013, Darrel Reynolds, um homem de 54 anos, foi preso no estado norte-americano do Texas por ameaçar a platéia de um cinema que exibia o filme Guerra Mundial Z. Nota: o acusado não apontava uma arma aos espectadores, mas seu dedo indicador. Com esse episódio, a representação simbólica do crime obteve alcance inédito, assumindo inegáveis contornos abstratos e afetando a tradicional compreensão jurídica do que pode ser considerado um crime. A partir daí, apenas o gesto que imite a ameaça é suficiente transgressão para ser criminalizado. A ser inaugurada na Galeria Vermelho, a exposição coletiva Suspicious Mind, com curadoria de Cristina Recupero, aborda a relação entre arte e crime e pretende aprofundar a reflexão a respeito do tema.

Esse jogo de atração e repulsa é antigo, e remonta ao seminal ensaio Do assassinato como uma das belas-artes, de Thomas De Quincey, de 1827. Evoca também a existência marginal de artistas como o poeta François Villon, nascido em Paris em 1431, e desaparecido após sair da prisão em 1463, e do célebre pintor Caravaggio (1571-1610). Ambos foram bandidos, e até hoje suas lendas inspiram a imagem romântica colada à figura dos artistas. Villon era ladrão, além de homem violento, e por muito pouco escapou da condenação à forca. Envolveu-se em um roubo ao colégio de Navarre em plena noite de Natal e em diversas tentativas de assassinato. Caravaggio tinha personalidade intempestiva e se meteu em terríveis brigas, assassinando um rapaz. Foi condenado pelo Vaticano, e provavelmente morreu envenenado por inimigos. As vidas de ambos seriam quase desconhecidas, não fossem seus registros criminais e sua obra artística.

De acordo com Cristina Recupero, a questão comportamental é importante em “Suspicious Mind”. “A imagem do artista é a de alguém que vive nas margens da sociedade recusando-se a cumprir com aquilo que está acima, as leis. De certa forma, o criminoso e o artista respondem a aspirações que estão além do comum”, afirma afirma a curadora, citando o incidente ocorrido com William S. Burroughs em 6 de setembro de 1951, quando em uma brincadeira de Guilherme Tell temperada a álcool e benzedrina, o escritor assassinou com um tiro na cabeça sua mulher Joan, cujas últimas palavras foram: “vou fechar os olhos. Não suporto ver sangue”. Com tais detalhes, a cena — ocorrida em uma villa da Cidade do México — parece um happening construído ao molde das idéias preconizadas por De Quincey em seu ensaio satírico sobre o assassinato como um evento estético.

Burroughs passou apenas 13 dias na prisão. Alguns biógrafos relatam a transformação ocorrida com o escritor depois da morte de Joan. Oliver Harris, organizador de sua correspondência, afirma que “a partir desse momento, sua vida é lida como como um romance; um romance que, é claro, muitos poucos gostariam de escrever e que talvez somente Burroughs pudesse viver e escrever.” É provável, porém, que além das consequências do homicídio praticado, outras causas modificaram Burroughs, conduzindo-o de vez à construção de sua obra literária.

Na contramão da exegese biográfica corroborada pela perspectiva sugerida por Suspicious Mind, a reportagem La Bala Perdida: William S. Burroughs en México (1949-1952), do escritor mexicano Jorge García-Robles, revela a influência da impunidade mexicana como essencial para a visão de mundo de Burroughs. Contraposto aos EUA, o México era “um país oriental que reflete dois mil anos de doenças e miséria e degradação e estupidez e escravidão e brutalidade e terrorismo físico e psicológico. México é sinistro e tenebroso e caótico, com o caos próprio dos sonhos. A mim me encanta”, escreveu Burroughs em uma carta a Jack Kerouac.

Presente na exposição, Habitat Sequences, instalação do artista visual e cineasta holandês Gabriel Lester (Amsterdã, 1974), estabelece pontos de contato com o episódio transformador experimentado pelo escritor beat no México. Composta por salas cujas paredes pintadas de preto são iluminadas através de desorientadores flashes vindos de diferentes pontos, a obra pode tanto simular a desorientação mental sentida às vésperas de uma catástrofe (pessoal, como a vivida por Burroughs, ou massiva feito a iminência de um terremoto), assim como a recomposição fragmentária do espaço habitado, em decorrência do que se mostra e se esconde ao apagar e acender das luzes. O efeito é poderoso.

Entre os destaques da mostra está também a video-artista francesa Lili Reynaud-Dewar (La Rochelle, 1975), cujo Speaking of Revolt, Media and Beauty aborda o pensamento de Jean Genet (1910-1986). Outro egresso do banditismo, o escritor e dramaturgo francês era ladrão, assim como seu predecessor Villon. Em sua apresentação aos ensaios de A Literatura e o Mal, Georges Bataille afirma que a geração a que pertence “é tumultuosa”. No mesmo livro, comenta o perfil de seu contemporâneo feito por Sartre em Saint Genet, que acompanha a trajetória desse filho de prostituta que roubou seus próprios pais adotivos, mendigou, foi preso, escreveu na prisão obras que apologizam o mal e incitam ao assassinato, e devido a isto — ao valor artístico de sua obra — recebeu o perdão por seus crimes. Apoiado no depoimento de Pierre Giquel, o video de Reynaud-Dewar investiga os tantos papéis contraditórios assumidos por Genet, de sua delinquência juvenil ao ativismo político da maturidade.

Relacionando-se com a recente prisão de Darrel Reynolds e seu indicador “armado”, a representação simbólica do crime aparece no trabalho da dupla paulistana Gisela Motta e Leandro Lima (São Paulo, 1976). Em Armas.obj, os artistas reproduzem fielmente em papel pistolas, submetralhadoras e fuzis utilizados como consoles de videogames.

A proposta faz lembrar a proibição britânica de venda de armamentos a civis, que gerou toda uma indústria de réplicas perfeitas nos mínimos detalhes, exceto por seu mecanismo inexistente e pelos canos maciços, inadequados aos disparos. Tais falsificações chegam a ser tão caras quanto as originais.

Com sua verve doentia, o escritor britânico J.G. Ballard (1930-2009) sentia fascínio por essa solução tão bizarra, que acabou ocasionando um crime simbólico praticado contra a rainha em 1981: “ela estava sentada em um cavalo, desfilando por Londres com uma coluna da cavalaria em alguma cerimônia. Quando dobrou a esquina e era observada pela multidão, um rapaz disparou nela seis tiros com uma dessas réplicas, seis tiros em falso. Foi preso. Pensei nesse episódio como uma maravilhosa obra conceitual. O rapaz poderia ter trabalhado para Andy Wahrol.” Profético, Ballard afirmou que no futuro as pessoas seriam presas por estampar em cartazes as palavras REVÓLVER ou ASSASSINATO. De acordo com a lógica exposta em Suspicious Mind, essa era em que a realidade e a fantasia não estão mais separadas já chegou.

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7 comentários sobre “A parte maldita

  1. Reynaldo Carvalho disse:

    Sobre o texto O escritor devorado: Muito interessante o texto, embora no final aponte para um certo pessimismo em relação ao livre acesso às obras e à possibilidade de apropriações e recombinações. De toda maneira, muito bem construído.

    Mas tem um erro logo no início, que estranhei ter passado, já que o texto é tão denso e com tantas referências. O texto de Barthes (A morte do autor) é de 1968, portanto, foi escrito antes do de Foucault (O que é um autor?), que é reprodução da palestra proferida em 1969. O segundo é que, sim, pode ser visto como uma resposta ao primeiro.

    • Joca Reiners Terron disse:

      Obrigado pelo comentário, prezado Reynaldo, porém não se trata de erro: o único texto de Foucault a que me refiro é o ensaio “Raymond Roussel” de 1963.

      Saudações

  2. Reynaldo Carvalho disse:

    Sem querer ser chato: é verdade, a única incorreção do texto é datar o trabalho de Barthes como sendo de 1972. Na verdade, ele é de 1968. Parabéns pelo conjunto da obra.

  3. Gilmar Pereira disse:

    Sobre o livro “Do Fundo do Poço Se Vê a Lua” – Perfeito!!! Em outras palavras diria que é um pouco perturbador, me fez sentir nostalgia e ao mesmo tempo prazer! É incrível a forma como você expõe a fantasia e o fetiche de personagens que ganham forma e o corpo no folear de cada página. Por um momento me sentir na pele de ‘Cleo” rsrsrsrsrs Parabéns pela obra!!!!

  4. Oswhaldo Rosa disse:

    Joca Reiners, boa noite. Acabamos de ver, eu e minha esposa, a entrevista que você concedeu ao Arte1. Ficamos interessadíssimos. Fiz uma breve pesquisa na internet e queremos adquirir todos os livros que você publicou. Onde podemos encontrá-los, aqui em Sampa. Abraços. Ah, também somos autores: ela compositora e cantora (Susie Mathias); eu, poeta, letrista, compositor, dramaturgo… É isso. Reconhecemos, em contatos de primeiro grau, o que é Excelente.

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