a f i c ç ã o v i d a

A revolução das coisas (notas subjetivas sobre uma peça teatral coletiva)

A revolução das coisas está em pleno curso. Não se trata de um movimento que busque resguardar os direitos do consumidor, mas daquilo que é consumido. Nada de discussões teóricas acerca de temas jurídicos ou de aprofundamento psicanalítico, afinal coisas não têm voz ou psique. As coisas querem ação, querem protagonismo. Anseiam por ser personagem, e não pertencer ao cenário.

Contudo, as coisas não requerem condições de igualdade. Não desejam apenas “comprar” seus compradores. Se existe algo que elas acumulam sobre si — ou dentro de si — é a ânsia humana pela possessão, a angústia pelo fracasso em obtê-las ou a leviandade de seu próprio abandono — elas não suportam ser abandonadas. Essas são características de seus proprietários ou de seus pretendentes que elas herdaram. As coisas são depositárias dos imateriais defeitos humanos, são restos e herança, ao mesmo tempo. Como nas crenças espíritas, elas atraem, guardam e metabolizam sentimentos e sua exigência agora é devolvê-los aos donos. Fazer com que experimentem a coisificação imediata, que eles também provem a sensação de ser coisa. Trata-se da vingança dos objetos, e, em vez de almejarem o consumo, eles promovem a transformação dos consumidores em objetos de consumo. Eles viram o jogo.

É disso que falamos: desse impossível drama entre sujeito e objeto, entre coisa e ser, entre cenografia e personagem. Os personagens têm aspecto fantasmagórico por já se encontrarem no limbo, no limite entre objeto e sujeito. Ainda não sofreram total metamorfose, mas estão a caminho disso. O público está presente apenas para assistir os capítulos finais de tal embate, que é encadeado através dos seguintes conflitos:

  1. A Consumidora deseja ardentemente o Vestido Vermelho, sem consegui-lo. O Vestido Vermelho a persegue, apavorando a imaginação da Consumidora, até inverter a situação — ao persegui-la, o Vestido Vermelho é que se apropria da Consumidora, e não o contrário, transformando-a num vestido, no objeto de seu desejo. Ao final, ao mesmo tempo que a estrangula, o Vestido Vermelho estende seu tecido à Consumidora, metamorfoseando-se nela. Tornam-se uma só coisa.
  2. O Errante deseja libertar as coisas de seu sofrimento. “Liberta” as moedas da Fonte dos Desejos. Destrói símbolos que personificam o comércio, como placas anunciando liquidações e vendas no atacado. Ao lado da Faxineira Filósofa é o único a ter consciência do que acontece, embora a manifeste por meio de seus atos e não verbalmente. É um terrorista lírico, e comunica-se por meio de eventos.
  3. Ao surgir, a Noiva já apresenta membros plásticos. Devido ao estágio de transformação não completado em que se encontra, ela esboça certa consciência crítica, e questiona se deve mesmo seguir o modelo de noiva que lhe foi imposto (ou por ela desejado). Mas transformar-se em manequim é questão de horas. De minutos, talvez. A partir daí, transformada em noiva ideal, em boneco de vitrine de medidas perfeitas, o que ela pensará?
  4. A relação do Solitário com as manequins é invertida, pois ele as enxerga como seres vivos, e é através de sua imaginação ou de seus delírios de fetichista que o público tem acesso aos diálogos. O Solitário conversa apenas imaginariamente com as manequins, que representam de modo mais explícito o abandono sofrido pelas coisas, justamente o que principia sua revolta. A fala das manequins traduz o sofrimento dos objetos. Algo, porém, no isolamento de seu abandono torna as vísceras plásticas delas em vísceras verdadeiras. O coração bate uma, duas vezes, depois não para mais. Não há revolução sem dissidências.
  5. Na conversa entre Rádio Infinita e a Gerente da Oficina de Costura sabe-se da rebelião em curso e da chegada do Demônio das Coisas Sem Dono, um golem que representa o imenso abandono sofrido pelas coisas, o Dibutronik. A Gerente sabe das coisas, representa a visão de um mundo rural que se opõe ao urbano, é uma espécie de bruxa arquetípica. Ela costurou o Vestido Vermelho, amaldiçoando-o, e tem responsabilidade sobre o curso dos eventos.
  6. Diva Lhama, graças aos ensinamentos de seu guru Dalai Lhama, é uma personagem que atingiu a iluminação e intuiu que não era mais dona de todas as coisas que reunira, mais bem o contrário: ela foge para não ser possuída pelas coisas que tem. A única possibilidade de fuga é o isolamento monástico, e por isso Diva Lhama desaparece. Mas essa repetição de procedimentos de rockstars do passado não sugere uma nova estratégia de venda, a recauchutagem espiritual do personagem? Inconformada por ter se deixado enganar, a Diva retorna às origens, animalizando-se.
  7. Consciente ou apenas intuitiva, a Faxineira Filósofa se mantém à margem dessa guerra. Ela está mais para uma legista dessa realidade, por não fazer economicamente parte do jogo de possessão e passividade existente entre sujeitos e objetos. Ela vê, imagina, pressente, e por isso sua fala é intensamente vaticinadora. No diálogo com a Manequim Defeituosa, ela procura avisar ao objeto sob sua condição primeva de coisa abandonada, e portanto, de sua condição de lixo. Ela procura avisar ao objeto, representado pela Manequim Defeituosa, depois tem o fluxo de consciência no qual delira, e então fala diretamente ao lixo que encontra na rua ao lado da Paralítica. Sua resposta é o advento do Dibutronik.
  8. O Cracômano foi abandonado tanto por sujeitos (seus semelhantes) quanto pelas coisas. Está apegado à pedra, que representa sua última chance de propriedade ou de consumo. A pedra, porém, também se rebela diante da posse. O amor que o Cracômano lhe dedica faz com que cresça, e ela termina por consumi-lo.
  9. O Quarteto Fantástico vende coisas falsas, imitações baratas de fantasias de super heróis, e cada um deles terminará preso à sua roupa, que colará à sua pele, impedindo que eles voltem a ser o que eram. A fantasia falsa que vendiam cola em seu corpo, substituindo-lhes a pele.

Há um sentido de a etapa final desse drama ser encenada no palco de um teatro em ruínas: é ali que a cenografia subjuga os atores ou personagens, substituindo-os em seu protagonismo. É o campo de batalha no qual os sujeitos habituais da realidade do mundo, os seres, são derrotados pelas coisas, pelos objetos. Não é, repetindo o que o Vestido Vermelho diz à Consumidora na cena final, “exatamente um lugar, mas um tempo. Uma hora, um minuto, um segundo. Um instante. É aqui. É agora.” Os objetos, afirma Wittgenstein, “constituem a substância do mundo (…) Se o mundo não tivesse substância, ter ou não sentido uma proposição dependeria de ser ou não verdadeira uma outra proposição. (…) Seria então impossível traçar uma figuração do mundo (verdadeira ou falsa).” A coisificação das pessoas transformaria o mundo num lugar fixo, sem vida. É por isso que o último ato não pode culminar senão em morte, em entropia.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s