r e s e n h i t e a g u d a

Museu do Romance da Eterna

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Macedonio Fernández era um enrolão, o procrastinador-mor. Desse seu talento para a postergação, criou uma arte, ou talvez uma estética muito particular da arte. Enrolando, postergando, chegou à posteridade. Atrasado, mas chegou, é isto que importa. “Museu do Romance da Eterna”, um livro composto quase em sua totalidade por prólogos e mais prólogos que terminam por não prologar nada, ou melhor: prefaciam justamente o nada existente além da última página do livro. Prorrogam em vez de prologar. Nisso, apresentam o vazio da realidade insubstancial: “Quero que o leitor saiba sempre que está lendo um romance, e não vendo um viver, não presenciando “vida””.

Malabarista da fala, Macedonio enrolou tanto que não viu o “Museu do Romance da Eterna” em letra de imprensa. Em entrevistas, Jorge Luís Borges (seu discípulo e maior propagandista na posteridade) afirmava que precisava imitar a voz de Macedonio para conseguir ler com satisfação seu estilo tão tortuoso. Borges não apreciava o “Museu”. “Não creio que os romances (de Macedonio) sejam bons”, afirmou em entrevista a Sueli Barros Cassal — organizadora da primeira recolha de textos de Macedonio Fernández no Brasil, “Tudo e Nada” (Imago, 1998). Como ressalta a apresentação de Damián Tabarovsky ao “Museu”, Borges conscientemente sequestrava o lugar do escritor para si, relegando a Macedonio o posto de mestre da arte do diálogo, um ventríloquo de livros.

Anarquista (chegou a fundar com amigos uma fracassada colônia no Paraguai), Macedonio fez do individualismo feroz desse amálgama de reflexões e devaneios que constitui o romance uma ponte para a coletividade. Obra literária consciente de seu artifício, o “Museu” funda a modernidade como espaço geográfico da literatura argentina. Nele, tudo é imperfeição, da sintaxe labiríntica de voltagem semelhante às idéias até o incompleto, fragmentário e insatisfatório que reside no irresoluto. Um libelo (meio distraído como o autor, claro) contra as imposições da relação de causa e efeito imposta pelo papel da trama na concepção do relato, o romance de Macedonio mimetiza nesse vai-e-vem o próprio movimento amoroso de aproximação do apaixonado inseguro em direção à musa (a Eterna do título, uma Beatriz tão fugidia quanto impossível). Assim, pensar na mulher desejada é uma forma de recapturá-la e ao seu amor perdido.

Leitor devoto de Cervantes, Macedonio sabia do papel da comédia na origem do realismo. Juan José Saer (1937-2005), que via o “Museu do Romance da Eterna” como “um monumento teórico sem precedentes na literatura de língua espanhola”, afirmava a comédia como arte da realidade como tal. Ao criticar o romance em sua forma variada de tratado etnográfico ou sociológico, o “Museu” também critica a realidade. Desse modo, ao duvidar das especificidades próprias do ser argentino ou latino-americano, paradoxalmente funda a literatura argentina, tornando “anacrônica praticamente toda tentativa novelesca que se publicaria depois em língua espanhola”.

Ricardo Piglia também pensa num “espanhol futuro” ao falar de Macedonio, aproximando-o de Witold Gombrowicz, escritor polonês que viveu décadas em Buenos Aires e lá produziu parte significativa de sua obra. A idéia de um possível romance argentino viria desse cruzamento de vozes entre o idioleto de Macedonio, o “romance polaco traduzido por um bando de conspiradores liderados por um conde apócrifo” (referência à tradução de “Ferdydurke”, de Gombrowicz, coordenada por Virgilio Piñera num café) e o lunfardo com sotaque estrangeiro de Roberto Arlt. Dessa mestiçagem, nasce a identidade e uma estética pessoal fundadora.

Crente equivocado como nenhum outro na imaginação do leitor, Macedonio Fernández o promove a co-autor, a seu irmão: “Por último, reconheça-me este mérito: reconheça-me que este romance pela quantidade de suas inconclusões é o que mais acreditou em tua fantasia, em tua capacidade e necessidade de completar e substituir finais.” Não se trata de acreditar no anseio do mimado leitor atual, habituado a não pensar em sua zona de conforto, mas quem disse que literatura tem a ver com vitória?

Museu do Romance da Eterna, CosacNaify, 2010

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