r e s e n h i t e a g u d a

A importância da poda para o florescimento literário

Com seu celebrado romance de estreia, Alejandro Zambra colocou em prática as lições aprendidas de Ezra Pound relativas à importância da poda para o florescimento literário. No sentido da exatidão, Bonsai é, além de uma novela escrita com a tesoura sintética de um poeta, uma planta sintática podada por um bom jardineiro. É também uma história protagonizada por dois estudantes de poesia, pois Julio e Emilia — mesmo que não o saibam — não são outra coisa senão poetas.

Desde o momento em que se conhecem, ambos se mostram impostores. O seu sintoma mais grave: disfarçam-se sob personas roubadas aos livros que lêem juntos. E o mais frívolo, que poderia ser o romantismo, porém não é, mas a volatilidade da paixão com que se envolvem, e o quanto são volúveis nos relacionamentos anteriores. Na primeira noite em que dormem juntos na casa das irmãs Vergara (pretendiam estudar Sintaxe Espanhola), por exemplo, Julio afirma ter lido Proust; Emilia não fica atrás, e lhe diz o mesmo — tudo mentira. Ou seriam omissões?

Espécie de ciranda de ocultamentos que parodia o mecanismo amoroso da juventude no seu jogo típico de entrega e devolução, a narrativa segue atrás e adiante, mostrando a pré-história romântica e sexual do casal.

Julio é subreptício, talvez ambíguo (“convencido e depressivo”, na opinião de Anita, a melhor amiga de Emilia). Já o primeiro namorado de Emilia permaneceu com quinze anos, enquanto ela completava dezesseis, dezessete, dezoito e assim por diante. Depois, ela também estacionou: “pois Emilia não continuou fazendo anos depois dos trinta, e não porque a partir de então tivesse decidido ir diminuindo a idade, mas porque poucos dias depois de completar trinta anos Emilia morreu, e então não fez mais aniversário porque começou a estar morta”.

Quando Julio e Emilia se envolvem, iniciam um jogo de aparências baseado na literatura. Não apenas se amam e vivem entre lençóis encardidos (que recendem a pisco sour), mas lêem juntos na cama que se torna uma espécie de palco ou barco encalhado onde encenam livros de Marcel Schwob e Yukio Mishima e Georges Perec e Juan Carlos Onetti e poetas e mais poetas. Até chegarem a “Tantalia”, um conto de Macedonio Fernández no qual um casal circunscreve a permanência de seu amor à sobrevivência de uma plantinha, para então fatalmente descobrir que o sentimento terá a mesma duração do símbolo: morte da planta, morte do amor. Após a leitura, instala-se certo peso e estranhamento: a ficção contamina a realidade.

No início do livro Julio está vivo, mas Emilia já morreu. No final, Julio continua vivo, mas antes de continuar vivo conhece o escritor Gazmuri, que tenta contratá-lo para que digite sua mais recente obra. Emilia, assim que o relacionamento termina, viaja para Madri, de onde não vai sair. Nunca mais.

Esta é, porém, uma história triste que nunca resvala no sentimentalismo. Aqui não se chora, todavia não se ri. Gazmuri não contrata Julio, mas lhe conta o enredo de seu livro: “ele fica sabendo que uma namorada de sua juventude morreu. Como faz todas as manhãs, liga o rádio e ouve no obituário o nome da mulher. Dois nomes e dois sobrenomes. Tudo começa assim.” Mas tudo o quê? É o que Julio quer saber, e para isto escreve a história de Gazmuri cujo final não conhece, e que bem poderia ser (provavelmente é), Bonsai, o livro que ora estamos lendo. O jogo paródico iniciado nas leituras do casal continua, se duplicando em “Tantalia”, de Macedonio, e triplicando no relato de Gazmuri, culminando em mais impostura e solidão.

O segredo desse “tudo” talvez estivesse antes disso, entretanto, um pouco antes do final, quando Julio e Emilia ainda tentavam prolongar sua paixão por meio da leitura de Proust e fracassaram na página 373: “o livro, desde então, ficou aberto”. Um tipo de madeleine frondosa, Bonsai corresponde à imagem, pois é um livro que nunca se termina de ler e enriquece na lembrança.

Bonsai, Alejandro Zambra, CosacNaify, 2012

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