r e s e n h i t e a g u d a

Autocracia

Há um comercial de combustível sendo veiculado na tv brasileira que traduz a idealização solipsista moderna propiciada pelo automóvel: um sujeito vaga pelas ruas da metrópole quase deserta, abastece no posto de gasolina e seu carro se renova, parecendo recém saído da concessionária.

Depois, ao som de “Dancing with myself” (dançando comigo mesmo), esgoela-se ao volante sem ameaçar transeuntes inexistentes. O tema está no centro do álbum de quadrinhos “Autocracia”, de Woodrow Phoenix.

O filminho não passa de ficção, desde a pista vazia da cidade — em São Paulo nem em feriadão isso é possível —, à possibilidade de se dirigir qual um Pavarotti sem comprometer a segurança pessoal e alheia.

Exceto pela música, um hino ao egoísmo que, neste contexto, glorifica a conquista financeira representada pelo carro particular, assim como a liberdade de não depender de transporte público, trata-se de pura mentira vendedora. Ademais, soa deslocada em tempos de apocalipse motorizado.

A “graphic novel” do quadrinhista britânico (talvez esteja mais para ensaio gráfico) é um libelo anti-automóvel eficaz em seu minimalismo visual e reiteração argumentativa em prol da percepção do automóvel como arma letal, cuja má utilização deve ser alvo do rigor da justiça, exigindo nova jurisprudência.

“Imagine que você está andando por uma rua onde todos os edifícios têm pianos pendurados para fora, pendendo sobre sua cabeça”, inicia Phoenix, “objetos enormes de metal intrincado e madeira ornamentada. E seu esqueleto, exposto e desamparado, tremendo enquanto você passa embaixo deles.”

A metáfora do piano no ar é um recurso para abordar o quão absurdo e “contra naturam”, por imoral que seja, é caminhar ao lado de bólidos que pesam algumas toneladas a mais que o pedestre, manejados por desconhecidos cuja habilidade em fazer isso nos é desconhecida, além de não sabermos as atuais condições de seus fígados, corações e se suas CNH não estão vencidas.

Narrado na companhia de imagens urbanas sem a presença de seres humanos, “Autocracia” recorda o leitor de que, ao contrário do que sentenciava a canção de Itamar Assumpção e Régis Bonvicino, “Não há saídas, só ruas, viadutos e avenidas”, hoje temos ciclovias.

Autocracia, Woodrow Phoenix, Veneta, 2015

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