a l h u r e s

Laertemetamorfose

Para apreciar a frequente transformação da obra de Laerte, basta ler suas compilações de quadrinhos. São muitas, e estão resumidas no Google. Um tapa em [ ENTER ] e está quase tudo lá. Também é possível verificar suas metamorfoses físicas através do Google Images. Outro tapa e surgirão: Laerte menino de cabelo escovinha, Laerte sindicalista e cabeludo de bolsa tipo carteiro a tiracolo, Laerte às gargalhadas numa prancheta de redação, Laerte de brinco nos anos 80, Laerte mais dois amigos, Laerte rodeado dos cães da TV Colosso, Laerte no teatro capitaneando Piratas do Tietê, Laerte alegre, Laerte tristonho, Laerte mulher. Cabe aqui breve reflexão a respeito da forma em Laerte.

Comparando-o a Glauco e Angeli, dois de seus companheiros de geração, desde o início Laerte teve um traço único, intransferível. Sua forma essencial, portanto, seu DNA, nunca mudou. É um desenho rápido, sinuoso e exato, que lembra pincelada (apesar de ser feito com caneta Pilot). Glauco precisou suar para atingir a economia quase infantil de seu estilo, em uma árdua operação de subtração. E décadas foram necessárias para Angeli alcançar seu atual estágio como desenhista, antes inimaginável em sua assimilação punk de Robert Crumb. Mas Laerte não, seu desenho sempre pareceu pronto. Surgiu assim.

Exceto pelas incursões nas HQs mais longas da época da Circo Editorial (final dos 80), na qual editou o gibi Piratas do Tietê, Laerte também pouco alterou sua sintaxe, com predominância da tira de jornal. A temática, sim, variou: infantil em Suriá, crônica autobiográfica em Laertevisão, além da profusão de personagens reunidos na série publicada na Chiclete com Banana e na Ilustrada desde 1991. No entanto, se Laerte opera com duas formas tão fixas — o traço e a tira — como o resultado pode ser tão multiforme?

Existe um buraco negro na carreira do artista paulistano que não pode ser encontrado na internet nem em livro. Corresponde (para permanecermos nas metáforas astronômicas) ao Big Bang em sua produção. É a sequência iniciada em 2005 e que coincide com a perda de seu filho Diogo. Essa série costuma ser identificada por leitores como “tiras filosóficas”. A relação com a filosofia é inegável, inclusive na brevidade aforística. Nesses quadrinhos, Laerte abandonou a antiga relação de causa e efeito dos trabalhos anteriores. Produzir piadas não fazia mais sentido, muito menos prosseguir com a camisa-de-força humorística representada pela fórmula da tira.

Idéias complexas, pensamento abstrato, silêncio em profusão, non sense, uso da cor para transmissão da proposta, reflexão gráfica sobre a precariedade do meio, inclusive das limitações da técnica de impressão do jornal que veicula a tira, tudo isso impregnado de profundas inquietações existenciais: assim passou a ser a HQ de Laerte. O uso do tempo também se modificou, assim como o abandono da muleta narrativa representada pelos personagens, que simplesmente deixaram de existir. Não limitando-se aos tradicionais três acordes da tira, cuja finalidade era culminar em tirada (virá daí o termo “tira” ou será o contrário?), as séries progrediram espacial e temporalmente, estendendo-se por vários dias. Era pura música visual.

Nesse período, a página de quadrinhos da Folha voltou a ser o espaço mais nobre do jornal, lembrando, em sua densa inventividade, Krazy Kat (1913-1944), de George Herriman, e Peanuts (1950-2000), de Charles Schulz, dois cumes da história do meio. Contudo, a perpétua busca de Laerte pela forma não se restringiu ao campo da arte. Burlando padrões impositivos de comportamento, Laerte aderiu ao crossdressing em 2010. Com isso, levou o público a considerar que talvez a forma deva se estender às nossas vidas, afinal, e que estilo pessoal e intransferível é resultado da luta contra a herança que nos é imposta. E não consigo ver maior legado na obra de um artista do que este, o de alterar a maneira com que uma geração inteira compreende a realidade.

[ revista Balada Literária #1, 2013 ]

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Um comentário sobre “Laertemetamorfose

  1. Analice Schendel Kanto disse:

    Bom dia, Joca, sou mestranda da PUC-Rio e minha dissertação é sobre as traduções e adaptações do livro Mary Poppins. Gostaria de saber se você dispõe de alguns momentos para falar sobre sua tradução desse livro e o público infantojuvenil. Desde já agradeço. Analice

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