a l h u r e s

A banalização foi minha Beatriz

Pelos títulos expostos nas listas de mais vendidos, seria razoável deduzir que, entre as Belas Artes, a literatura é a que menos evoluiu, restringindo-se, regras excedidas, à legibilidade. Não se insurgiu contra a tela na parede, como a pintura, instalando-se por toda a sala, nem exige óculos 3D à maneira do cinema, a fim de explodir o teto. Se, como afirmou Nietzsche, libertar-se da sintaxe é a última liberdade possível, a expressão literária supostamente mais livre é aquela sem leitores, e o best seller não passa de puro aprisionamento. Meio que reinventando a roda quadrada das vanguardas, a antologia Abstract/Ext (Abstract Editions, Espanha, 2015), organizada por David Quiles Guilló, procura “uma aproximação inicial da literatura abstrata” e dessas questões. Sem dúvida, e parece ser prerrogativa de Guilló (fundador da provocativa revista de artes visuais Rojo), há controvérsias.

Diversas conquistas formais das vanguardas do início do século 20 sobrevivem nos dias de hoje apenas no anedotário da história da arte. É raro o leitor contemporâneo ler um poema do futurista italiano Marinetti e sair transformado, pois o brilho metálico do futuro idealizado pelo artista mostrou-se fosco como plástico made in China. No entanto, ao se verificarem prazos de validades, alguns procedimentos da vanguarda perduram, possibilitando a época presente como a conhecemos. “Sem Dada, não teríamos mash-ups, samplings, fotomontagens, happenings – nem mesmo o Surrealismo, a Pop Art, ou o punk. Sem Dada, a vida moderna como a conhecemos resultaria muito diferente, e mal pareceria moderna”, afirma Jed Rasula em Destruction Was My Beatrice: Dada and the Unmaking of the Twentieth Century (Basic Books, 2015).

Evidentemente que sim. A banalização, porém, tem vencido por algumas cabeças a acirrada disputa entre os possíveis – e são tantos – males deste século 21. Com o aplicativo PicassonoBr, por exemplo, criado para a mostra Picasso e a Modernidade Espanhola, em exposição no CCBB do Rio de Janeiro, o usuário pode produzir selfies ao modo cubista do revolucionário pintor espanhol. E aqui surge a controvérsia em Abstract/Ext: por si, qualquer texto escrito não passa de abstração, de tracinhos pretos dispostos sobre a página branca que exigem decifração/interpretação. Se, diante do atual contexto editorial que privilegia a indigência textual aliada ao anódino, a opção por ilegibilidade de grande parte dos textos soa salutar – todos em inglês, de autoria do próprio Guilló, Lucie Kass, Carlos Issa e outros 42 colaboradores, em sua maioria artistas plásticos e designers –, a seleção não resulta propriamente em conceito.

Entre os procedimentos – métodos restritivos que guiem a criação em seu aspecto formal –
mais contundentes das vanguardas, a liberação do autor de seu ego certamente foi o mais eficaz. Considerando o pouco que restaria da literatura se dela fossem eliminadas manifestações subjetivas, Abstract/Ext avança pouco nesse terreno, graças ao recurso de justamente revelar ou explicar intenções por meio de notas de rodapé. Não que essa opção editorial não resulte em ironia, mesmo que involuntária. Em Meu Sonho, Dustin Hostleter manifesta um anacrônico anseio das publicações online: “Meu sonho é ter este momento digital documentado/ para sempre em forma impressa / digito estas palavras com esperança de vê-las/ em outro espaço-tempo”. A antologia foi reunida por meio do Facebook.

Abstratc/Ext – A First Aproximation to Abstract Literature, Abstract Editions, Espanha
(publicado na revista Select #25, agosto de 2015)

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s