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A sobrevivência dos escritores

Acho bacana, a campanha pela sobrevivência das livrarias. Também acho legal editoras liberando livros grátis. Mas penso em meus pobres amigos escritores, sem eventos nem subsídios. Viverão de que, nos próximos meses? Eu mesmo acabo de comer a última samambaia.

No Brasil, antes da pandemia, o mercado editoral já vivia queda brutal das vendas (procurem saber no
PublishNews). Porém muito antes disso 99,9% dos autorxs (chute) já não pertenciam a nenhum mercado, independentemente de publicarem por editoras “grandes” (considero o adjetivo ambíguo e questionável, daí as aspas).

Afinal, quantos autores brasileiros de “romances (ou contos) de criação, segmento que tem o mesmo público que a poesia” (dixit Massimo Rizzante, crítico literário italiano) vivem de direitos autorais? Não chegam aos dedos do pé.

Quando se diz que o lugar ocupado pelo escritor é instável, creia-me, não se trata de figura de linguagem nem de exagero retórico: quer dizer apenas que nem sempre quem escreve consegue obter um puto pelo que faz.

Nos últimos anos, a venda de direitos para adaptação vinha suprindo o que o mercado editorial não paga, assim como os eventos. Os eventos acabaram, os investidores das produtoras passaram a contratar (caro) direitos estrangeiros e a preterir brasileiros (há, claro, exceções).

Some-se a isso o ataque governamental ao setor audiovisual, que enfraqueceu ainda mais o segmento de aquisição de direitos para adaptação. Com Ancine sob desmonte, mercado editorial aos frangalhos, o que sobra para os autores?

Ultimamente os escritores não têm tido outra saída a não ser dar aulas em oficinas, mesmo autores jovens têm se valido dessa saída. Porém há muito a oferta parece ter suplantado a demanda, existem oficinas demais para alunos de menos.

Fazer o quê, então? Vale ressaltar que o autor brasileiro que se profissionalizou nas últimas duas décadas sempre bordou, pintou e sapateou: traduziu, editou, revisou, roteirizou etc, operando na cadeia industrial do livro a fim de sobreviver.

Enquanto isso, escrevia seus livros, sempre com o risco incalculável de se tornar escritor de final de semana, bissexto, diletante: prescindível. São raros, os que podem aproveitar o “ócio” (fundamental) para se escrever algo que preste. Mais raros ainda aqueles que se valem de ofícios paralelos, que são profissionais liberais ou têm emprego fixo.

Para o bem e para o mal (agora podemos ver), a profissionalização das décadas recentes VENDEU a ideia de que poderíamos sobreviver, mala e porcamente, de escrever. Nós compramos essa ideia.

Enfim, não considerem este arrazoado como proselitismo ou defesa classista (ou considerem). Às vezes é necessário falar acerca da realidade de quem escreve no país atualmente, para além da eterna mistificação e romantização que obscurece o papel (obsoleto) do escritor na sociedade e ignora dificuldades relativas ao ofício, que são (evidentemente) as de qualquer outro profissional, porém sem contar com a estabilidade e regulamentações trabalhistas.

Você pode argumentar que escolhi o risco. É verdade, pago todo dia por ele, e pode crer: não sai barato.

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