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E esse é o Mal

A tragédia da explosão de Beirute escancarou outro evento trágico, que sucede a naturalização da desgraça. Cem mil mortos já não são suficientes para nos chocar, vidas que somem, levando de roldão a existência como a conhecíamos. Falemos da estetização da desgraça dos vídeos.

Sob a capa do desagravo ao horror, apareceram vídeos de todo tipo no tuíto: crianças olhando da janela o fumaceiro que subia, e a explosão inesperada. Estupefação, lágrimas e a legenda: “poor kids”. Outro anuncia que colocou o vídeo da explosão em câmera lenta: “vejam, ficou ainda mais horrível”.

Ainda: o vídeo da noiva que gravava seu vídeo de casamento no exato instante da explosão. O vento causado pelo impacto erguendo o véu que se perde num ângulo impossível, a maquiagem escorrendo na fuligem.

Tais vídeos dão um passo adiante no processo de naturalização do horror, primeiro porque encontram elementos de beleza – a câmera lenta, a explosão registrada sob a estética kitsch dos vídeos de casamento, a ingenuidade infantil habitualmente explorada em propagandas – para maquiar a catástrofe real do mundo, isto sob critérios absurdos, que não atendem ao dever de informar da imprensa, agravados pela estética deslocada: “vejam, como no fundo é bela essa explosão”; “vejam, o sonho da inocente noiva explodindo na cara dela, ao vivo, sem cortes, que triste, não?”

Segundo, porque a repetição promovida pelos algoritmos das redes torna aquilo que já era perverso – por sua carga fetichesca, por atender essa satisfação atávica e inexplicável do serumano diante da infelicidade alheia – em algo banal, decorrente desse loop infinito em nossa timeline.

O efeito brutal dessas visualizações redunda noutra reação, a da satisfação por aquilo não ter ocorrido conosco, satisfação que aos poucos nos conduz, levianamente aliviados, à desgraça seguinte, ao próximo horror, a fim de manter essa falsa felicidade hormonal em seu clímax. E esse é o Mal.

Traduzi um poema de Jim Dodgeque fala daquilo que vamos perdendo, a capacidade de empatia que daqui a pouco, para reavê-la, teremos de resgatar nos cães, na observação paciente do comportamento solidário do melhor amigo do homem.

Love find

Após o atentado à bomba em Oklahoma City 
cães treinados em resgates 
foram enviados com seus tratadores 
de todos os lugares dos EUA 

Porém quando os cães não achavam 
nenhum sobrevivente 
ficavam desconsolados, 

e depois de mais um dia de nada 
além de corpos mortos, 
nem mesmo procuravam, 
tamanha sua desorientação. 

Então os tratadores se escondiam 
em turnos nas ruínas, 
permitindo que os cães lhes achassem vivos. 

 

 

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