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Um telefonema do futuro

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Diante do enigma representado por El Poeta Anonimo, o livro de Juan Luis Martinez lançado pela CosacNaify em 2012, decidi ligar para um certo número telefônico que não vinha à lembrança havia quase vinte anos: o da casa onde morei no período em que praticamente só lia poesia e ensaios sobre poesia. Quem sabe aquele estudante cabeludo de design gráfico de 1994 não explicaria de que se trata este retângulo negro com mais de duzentas páginas indecifráveis. Então liguei. A chamada era péssima, a voz parecia vir do além ou das profundezas de uma ressaca.

— Alô?

— Quem fala? Voz conhecida.

— Sou eu. Ou pior, você, vinte anos mais velho.

— Não me diga.

— Sugiro que evitemos o assunto “cabelos”.

— Ok.

— Recebi um livro do poeta chileno Juan Luis Martinez. É um volume póstumo, o Martinez morreu em 1993. Não entendi muita coisa, queria tua ajuda.

— Quer dizer que tudo o que leio agora de nada vai me adiantar no futuro daqui a vinte anos?

— Sugiro que evitemos o assunto “neurônios”. Parece que eles caem com os cabelos.

— Ok. Que tipo de livro é esse?

— É poesia visual, mas não tem muito a ver com poesia visual brasileira. Martinez pertencia à turma do Nicanor Parra e do Raúl Zurita, porém era bastante obscuro pra mim até ver obras dele expostas na Bienal de Arte de São Paulo 2012. Descobri algumas informações biográficas sobre ele no Google e no Wikipédia.

— Peraí. Que são Google e Wikipedia?

— Difícil explicar. As coisas mudaram bastante nessas duas últimas décadas.

— Duvido muito disso. Mas prossiga.

— Bem, no Google eu encontrei um PDF de La Nueva Novela, livro de Martinez que eu conhecia de um artigo escrito pelo Alejandro Zambra, conterrâneo dele.

— Nem me atrevo a perguntar o que é PDF. Lembra sigla de palavrão.

— Bem, La Nueva Novela, se comparada a El Poeta Anonimo, se baseia em signos mais reconhecíveis, pois no primeiro livro existem poemas verbais, enquanto que este póstumo aqui é composto mais por suspiros, sussurros, gemidos etc. É uma espécie de estrebuchar do poeta anterior, do Martinez de La Nueva Novela.

— E há citações no livro?

— Sim, é uma poética inteiramente baseada na intertextualidade ou na pilhagem descarada. Diversos poemas citam Raymond Roussel, Duchamp, René Crével, Magritte, Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler e põe etecétera nisso.

— Ah, esses nomes aí já dão uma pista da orientação do cara, não? É um surrealista de carteirinha. Aposto que também era comunista e agente da CIA. Poetas desse tipo sempre têm algo a ver com espionagem. Se for latinoamericano, então, a chance de ter sido agente duplo é bem maior. Você pode citar um poema verbal dele pra gente se certificar do que tá falando?

— Beleza, lá vai um que pertence a La Nueva Novela.

 

A casa do alento*, quase a pequena casa do (autor)

(Interrogar as janelas

sobre a absoluta transparência

dos vidros que faltam)

 

  1. A casa que construiremos amanhã

já está no passado e não existe.

 

  1. Nessa casa que ainda não conhecemos

continua aberta a janela que esquecemos de fechar.

 

  1. Nessa mesma casa, detrás dessa mesma janela

ainda batem as cortinas que já retiramos.

 

* Quiçá uma casinha no subúrbio

onde o passado ainda esteja para acontecer

e o futuro passou faz tempo.”

(de T.S. Eliot, quase)

 

* * *

— E então?

— É mesmo um surrealista. Tem toques orientais e remete a certos filósofos da linguagem feito o Lichtenberg. Também lembrou Pierre Reverdy. E esse El Poeta Anonimo, tem coisas parecidas?

— Não tem. Exceto por um poeminha em homenagem a Yukio Mishima — cuja autoria pode ser posta em cheque, como quase tudo no livro — toda a parte textual é composta de retalhos de outras fontes, como uma série de sonetos compostos por colagens de páginas rasgadas de um manual técnico sobre variantes do soneto. A narrativa, se é que dá pra chamá-la assim, de El Poeta Anonimo, é uma elegia da figura do herói por meio de extremistas, sejam poetas como Lautréamont, Rimbaud, Baudelaire, Maiakovski, Artaud, figuras históricas como Napoleão, San Martin, José Miguel Carrera, Manuel Rodríguez e o anarquista Pietro Valpreda, personagens de HQ tipo Dick Tracy e Pato Donald, exilados e desaparecidos chilenos e argentinos. Tudo isso aparece na forma de citação visual, ou seja, de retalhos, fragmentos e recortes tirados de outros lugares e reorganizados através de uma colagem furiosa e meio esculhambada de tão suja.

— Quer dizer que lembra uma ode que estranhamente não pode ser cantada?

— Sim, porém o aspecto sujo dos grafismos — em contraposição à aparência construtivista e geométrica da poesia visual brasileira, por exemplo — não fornece o tom elevado costumeiramente vinculado à ode.

— É sujo por que usa fotocópia como linguagem?

— Sim, deu pra adivinhar, né?

— É que isso aí cheira a anos 70 e 80. Mas um alerta: a poesia visual brasileira não se resume à rapaziada concretista, e mesmo alguns filhotes dela reunidos em torno a revistas como Qorpo Estranho, Artéria, Poesia em Greve, Pólem, Jornal Dobrabil, Navilouca etc, foram influenciados pelo grafismo heterodoxo das possibilidades técnicas do período, que eram basicamente Letraset e Xerox. E o grau de adequação do protótipo é diretamente proporcional à sua espontaneidade em relação à comunicação de massas, e vice-versa.

— Caramba, o que você anda lendo aí em 1994?

— Buckminster Fuller. E tomei umas cachaças.

— Sugiro que evitemos o assunto “fígado”.

— Ok.

— Bem, quer dizer que a herança visual da poesia também nasce de outras fontes que não sejam cartesianas, aristotélicas etc? Existe outro horizonte que não seja concreto? Nem lembrava disso.

— Claro, o próprio surrealismo é uma matriz, como as revistas La Révolution Surréaliste e Le Surréalisme, Mème, editadas por André Breton. Ou o dadaísmo de Merz, editada por Kurt Schwitters. Boa parte das idéias e manifestos das vanguardas do século 20 foram veiculadas em publicações efêmeras. Cada uma delas criou sua própria tradição relâmpago, desaparecendo tão rapidamente quanto surgiram.

— Isso me fez lembrar do verso de um poeta argentino que conheço. Diz: Os casais e as revistas literárias/ duram quase sempre dois números.

— E às vezes nem passam do número zero. Só que o surrealismo não se restringe à poesia ou às revistas. Fora toda a obra pictórica de Magritte, Dalí e outros, existe a genial narrativa gráfica sem palavras — o subtítulo diz romance surrealista em colagens — chamada Une Semaine de Bonté, de Max Ernst. Pelo que você descreve há muito desse trabalho de Ernst em El Poeta Anonimo, assim como há em trabalhos representativos de alguns brasileiros contemporâneos de Juan Luis Martinez, como Valêncio Xavier e Sebastião Nunes.

— Boa, eles são mesmo da mesma família.

— Certo, mas esse Martinez aí é tão bom poeta quanto o Sebastião Nunes, por exemplo? O Sebunes Nião é foda, faz poesia visual e ao mesmo tempo soneto clássico. Pra fazer o que ele faz tem de conhecer.

— Ih, essa não posso responder, pois esta conversa vai servir prum texto que deve sair no blogue da editora…

— Blogue? E o que é blogue?

— Alô! Alô! Não tô te ouvindo! Ih, a ligação tá falhando. Mas valeu, obrigado pelo papo!

— Falou. A gente se vê.

— Isso, tchau! A gente se vê no espelho daqui a vinte anos.

 

[ Texto encomendado para o blogue da extinta CosacNaify e recusado pelo editor ]

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A solidão do ornitorrinco

Um episódio vivido pelo escritor Alessandro Buzo dá idéia do que move as idas e vindas da literatura nos dias atuais. Em 2001 ele foi convidado a dar entrevista numa rádio comunitária de Suzano. Quem o esperava era Sacolinha, um cobrador de lotação de 17 anos e seu entrevistador. No caminho até a rádio, Buzo percebeu que andavam em zigue-zague, pois o rapaz parava nas casas para recolher e entregar livros. Uma espécie de bibliotecário delivery, pensou. Então ouviu de uma moradora: “Fulano não está, mas mandou dizer que adorou o livro”. Sacolinha recolheu o volume e deixou outro no lugar. “Eu levo leitura até os manos”, disse. Sacolinha é um verdadeiro ornitorrinco. E dos raros.

 

 

O lugar ocupado pelo escritor na vida contemporânea é mais ou menos parecido com o do ornitorrinco na natureza, um mamífero perdido de seu papel na evolução, chocando seus próprios ovos na barriga, à margem do mundo e da sociedade de consumo. Ao contrário de outros tempos, a literatura não tem mais a relevância social que já teve, e cada vez mais o ato de produzi-la perde sua condição de ofício. Pintores e músicos ainda surgem inseridos numa tradição, onde o conhecimento é passado de pai para filho ou do mestre para o discípulo. Tradição idêntica à do bordado, em que técnicas de confecção são ensinadas pelas mães às filhas. Ou seja, para manutenção da cadeia produtiva é essencial haver um respaldo social frente à utilidade do ato de tecer tapetes, tocar violino ou escrever poemas. O ornitorrinco é um mamífero mas não é igual aos outros mamíferos, quem diria — como os ornitorrincos são solitários!

 

 

Nem sempre: Sacolinha e Buzo estão entre os diversos personagens da COOPERIFA, grupo de escritores da periferia que edita seus próprios livros e promove leituras, criado em 1999 pelo poeta Sérgio Vaz, 42, ex-auxiliar de escritório, no bairro do Pirapozinho, Zona Sul de São Paulo. “Começamos no pátio de uma fábrica e lá ficamos por um ano, fazendo encontros mensais”, ele revela. “Mas daí tivemos de desocupar o lugar e pensei: espaço público na periferia é igreja ou boteco. Preferimos o boteco.” Sérgio então transferiu o sarau para o bar do Zé Batidão, onde o encontro ganhou periodicidade semanal. “Nosso público médio é de quatrocentas pessoas. E todo mundo vai para ouvir, aplauso no final de cada leitura é regra da casa”, diz o mestre de cerimônias. Nascido em Minas Gerais, Sérgio foi criado no espaço hoje ocupado pelo bar. Tem jeito de sábio de balcão, aqueles sujeitos sempre com um bom papo na manga: “Rapaz, conheço todo mundo no bairro faz várias gerações. Lá até os cachorros me cumprimentam”. Ele ajudava a família no comércio e fazia cursos técnicos, até cair de amores pela música. “Com dezenove anos montei um grupo. Como não sabia tocar nem cantar, eu ficava lá batendo coco. Até que alguém falou que eu podia compor as letras. Foi assim que comecei a escrever poesia”, ele diz. E também começou outro problema. “É que poeta não é muito bem visto na periferia. Meus amigos do dia-a-dia não querem saber se escrevo ou não: pra eles não faz a menor diferença.” Mesmo com quatro livros publicados e o sucesso da Cooperifa, Sérgio? “Bem, hoje em dia atravessam a ponte para ir ao sarau, nós entramos no circuito cultural da cidade. E tem gente lá do bairro que não tinha papel definido na comunidade e agora é reconhecida pelo que faz”. Por causa da literatura essas pessoas passaram a existir. Sérgio Vaz é outro ornitorrinco, claro, chocando seus ovos na barriga.

 

 

Mas quem garante que esses autores são bons escritores, se não há mais mestres dando sopa por aí? É essencial que exista um consenso em relação à qualidade do que se produz. No caso de atividades como a música e o bordado, o promotor desse consenso é o mestre, aquele que transmite o conhecimento herdado. Na chegada do primeiro ornitorrinco empalhado à Europa, a comunidade científica classificou o bicho como um embuste. Afinal, QUEM pode gabaritar um escritor ou um ornitorrinco? Como os escritores são solitários!

 

 

Com a deserção da crítica (que prefere colocar sob suspeição tudo o que cheire a contemporâneo), o papel de mestre recaiu sobre o editor de livros. Ou seja, quem decide o que presta ou não é o mercado. E nesse processo de seleção nada natural se agiganta uma enorme periferia de excluídos que resolveu fazer justiça editorial com as próprias mãos. Cessar com o isolamento, através da auto-edição de livros com tiragens de 1000 exemplares, da criação de bibliotecas comunitárias e da publicação de fanzines, esta é a meta dos escritores. Para não terminarem como os ornitorrincos, isolados lá na sua austrália de solidão.

 

 

Outro que arranjou problemas graças à literatura é Alessandro Buzo, 33, morador do Itaim Paulista. “É que estou vivendo de palestras e da venda de livros mão-a-mão. No subúrbio o cara tem de sair de casa cedinho para trabalhar senão a vizinhança desconfia. Eles perguntam: ‘Que foi, tá de férias?’ Até meu filho pequeno me pergunta se não vou trabalhar mais”, diz ele, rindo. Autor de quatro livros, Buzo ainda atende restaurantes, fornecendo produtos alimentícios, além de ser garoto-propaganda de uma marca de roupas. Parece um rapper, de boné e calças extra largas. E diz que suas roupas novinhas atraem atenção demais no trem, causando problemas: “Acham que sou playboy”. Filho de uma funcionária pública, ele não terminou o primeiro grau. A mãe não se conformou. “Foi ela quem me incentivou a ler, sempre levando livros pra casa”, fala. E o figuraça ainda paga a editora que publica seus livros com alimentos: “Paguei as prestações com arroz e feijão. O pessoal lá da editora diz que essa história vai virar lenda.” Se vai. Alessandro Buzo faz de seus livros verdadeiros retratos do bairro em que vive, recheando-os com fotos de amigos. “É bacana. As pessoas querem mesmo se reconhecer no que faço”. E aposto que se reconhecem. Ele também criou a biblioteca Suburbano Convicto, que fica na quadra do Bloco Carnavalesco Unidos de Santa Bárbara, no Itaim Paulista. Livros e carnaval juntos: quer coisa melhor para acabar com a solidão de um ornitorrinco?

 

 

Criar bibliotecas é a maneira de fazer revolução arranjada pela poeta Maria Nilda Mota de Almeida, a Dinha, 27, formada em Letras pela USP. Em 1999, Dinha e seus amigos conseguiram permissão da prefeitura para ressuscitar o CDHU do Parque Bristol e lá criaram o Maloca Espaço Cultural, com biblioteca e salas onde acontecem cursos de literatura e música, entre outras atividades. “A molecada do bairro adora. Eles vão pra lá sozinhos e ficam o dia todo”, diz ela. E complementa: “A biblioteca é mantida pela comunidade do bairro, que se se reveza para cuidar de tudo. Tem funcionado.” Pergunto à Dinha quais são seus poetas de cabeceira. Ela responde que gosta de Drummond e de Murilo Mendes, mas que eles não ficam exatamente na sua cabeceira. “É que não tenho livros em casa. Levei tudo pra biblioteca, que é de todo mundo e é minha também”.  Figura rara, a Dinha. Assim como Sérgio Vaz, Sacolinha e Alessandro Buzo, eles não estão mais solitários como o ornitorrinco. E como diz um poema do Sérgio: “enquanto eles capitalizam a realidade / eu socializo meus sonhos.”

 

[ Artigo publicado originalmente na Revista da Folha em 30/07/2006 ]

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A cada dia o Sol ilumina a Terra de um ângulo distinto

No filme “Smoke”, de Paul Auster e Wayne Wang, há um momento em que Augie Wren, o personagem vivido por Harvey Keitel, mostra ao personagem de William Hurt a obra fotográfica que vem realizando nos últimos dez anos. São fotos registradas por 4 mil dias seguidos às 8h da manhã no mesmo endereço, a esquina do Brooklyn onde mantém sua tabacaria. “É uma crônica de minhas lembranças”, afirma Augie, convicto de que aquele é o projeto de sua vida. Na paisagem apenas aparentemente imutável da Rua Terceira com a Sétima Avenida surgem pessoas novas e diferentes a cada dia, automóveis e bebês em carrinhos de mão que aparecem e somem na multidão, nunca iguais, sempre distintos em sua semelhança fugidia. “Mas são todas iguais”, afirma o personagem de William Hurt, estupefato. “Todas são iguais, mas cada uma é diferente das outras”, responde Augie, sugerindo-lhe que analise com vagar as fotos dispostas nas páginas do álbum. “Há dias nublados e dias com sol. Há sol de verão e sol de outono. Há dias úteis e feriados. Há pessoas com abrigos e outras usando camisetas e shorts. Às vezes são as mesmas pessoas, às vezes são outras diferentes, às vezes as pessoas diferentes se convertem nas mesmas, e as mesmas desaparecem. A terra gira ao redor do sol e a cada dia o sol ilumina a Terra de um ângulo distinto”, Augie ensina, e não conheço melhor lição para observar fotografias do que a sua, lição particularmente útil para observar imagens com alto nível de sutileza como são as registradas por Isabel Santana.

 

A teoria de Augie Wren se particulariza por não ser uma teoria da fotografia, como existem tantas, mas uma teoria da observação. Ela sugere que mudanças registradas no plano bidimensional da imagem podem ser causadas através do filtro do observador, um olhar que, ao ser acionado, também opera transformações no resultado da leitura fotográfica. É precisamente a esse observador participativo que as fotografias de Isabel Santana melhor falam, e ao falarem, assim como Augie, elas sugerem que sejam vistas devagar, lentamente, aos poucos: com minúcia. Devemos ouvi-las, essas imagens, talvez como se fossem música. O ritmo vagaroso das três fotos de Isabel Santana aqui expostas se confunde com o estático, com o imóvel, porém mais acertado seria informar de que se trata do ritmo atento e oscilante do tímido, daquele que olha e recolhe seu olhar na alternância veloz de quem vê e logo se arrepende de ter visto. A imagem colhida dessa maneira ciclotímica permanece na lembrança, onde é alimentada pela imaginação. Seus contornos variam como a luz do dia, e a velocidade borrada do olhar rápido que as registrou exige, ao contrário, lentidão do olhar de quem as absorve. E a cada vez que as observamos, poderemos perceber novas fulgurações vibrando sob a luz inaudita de outras circunvoluções do sol.

 

 

Na primeira dessas fotografias, cuja violência de contrastes é sempre reveladora, podemos ver o mais perfeito retrato da solidão. O contraste aqui não se conforma ao aspecto gestáltico existente entre massas escuras e claras e aos diversos planos que compõem o quadro, chegando às raias da oposição numérica. O que vemos: o número dois (o casal) ruma para sentido distinto do vislumbrado pelo número um (o homem solitário e de expressão amarga à mesa). O alvo da observação do homem, fora de quadro (a água do rio?; O horizonte aquático?; o nada?), deixa-o absorto. Cabe aqui a elucidação etimológica: absorver, do latim absórbere, “fazer desaparecer engolindo”.

 

Em outra delas podemos ver um jogo de planos e luzes ainda mais hiperbólico: a mulher gorda e velha admira sob sabe-se lá quais rubricas a jovem mulher magra em dois planos em tudo contrastados, desde a contenção da mulher que admira em primeiro plano até o júbilo da moça ao fundo, sendo ungida pelo jorro de luz da cascata que a atinge. Resta aqui um terceiro plano elusivo, o da fotógrafa obscura que em sua timidez imita a visão da fera prestes a dar o bote sobre sua vítima. Qual seria a vítima, aqui, a não ser a baixeza dos sentimentos demasiado humanos flagrados no momento mesmo de sua ocorrência?

 

Na terceira e mais estranha dessas fotografias, o estático predomina a ponto de causar dúvidas a respeito da autenticidade do que vemos: essa silhueta pertenceria a um homem ou a uma estátua? A incongruência de testemunharmos um homem que alimenta o oxigênio com seu regador à espera dos resultados de uma semeadura improvável recorda Drummond e seu fazendeiro do ar. Para lá de nosso ceticismo, entretanto, existe outro observador mais crédulo: o sol não parece duvidar em nenhum momento dos frutos de tal empreitada, contribuindo com sua luz farta. Mas o que poderia nascer da absurda plantação de signos que promove a fotografia deslocada, fora de lugar, de esguelha, de Isabel Santana? Coisas vistas num golpe de vista, provavelmente, assim como na esquina de Augie Wren. “Veja, esta é uma pequena parte do mundo na qual também sucedem coisas, assim como em qualquer outro lugar”, Augie explica ao seu desnorteado interlocutor. Assim também nos demonstra Isabel Santana em suas fotografias, nas quais a realidade parece ter adquirido de hora para outra uma formidável capacidade de imaginação.

 

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O jovem audaz no trapézio voador

Foi em 1939 que Sebastian Sampas introduziu seu amigo Jean-Louis à literatura de William Saroyan, emprestando-lhe “O jovem audaz no trapézio voador”, primeiro livro desse escritor nascido na Califórnia em 1908. O adolescente Jean-Louis, impressionado com a liberdade narrativa e a força daqueles personagens à deriva, afinal obteve a confirmação das chances reais de criar narrativas calcadas na coloquialidade das ruas e distantes do apego à técnica predominante na literatura do período. Mais tarde, em 1957, com a publicação de seu segundo romance, Jean-Louis também daria sua contribuição para revolucionar a prosódia americana. O título do livro era “On the road” e àquela altura seu autor já assinava com o nome com o qual ficaria conhecido: Jack Kerouac. Mas a influência de Saroyan não é seminal apenas nos Estados Unidos. Em depoimento à revista Cult (n. 49, agosto de 2001), Caetano Veloso fala sobre o impacto que a leitura da obra também lhe causou e de como sua ousadia formal transgredia todas as convenções narrativas: “Saroyan abria comentários como se estivesse falando com o leitor, contava a história aos pedaços, tomava liberdades na estruturação da narrativa, coisas que me impressionaram muito”.

 

Distante das estantes brasileiras há cerca de cinquenta anos, afinal “O jovem audaz no trapézio voador” novamente pode ser lido em português, desta vez em ótima tradução de Fausto Wolff, também admirador confesso de William Saroyan. “Li “O jovem audaz” aos dezesseis anos, na tradução de Mário Quintana, e depois voltei a pensar nele, quando criei o título do meu primeiro romance, “O acrobata pede desculpas e cai.” Wolff continua, “Eu meço literatura pela sinceridade, e Saroyan é um dos escritores mais sinceros jamais surgidos”. E completa: “Ele é contemporâneo, apesar de um pouco mais velho, de outro escritor californiano que admiro muito, o John Fante, e os dois compartilham essa ausência de medo em mostrar sua humanidade”.

 

Filho de imigrantes armênios plantadores de uva no San Joaquin Valley, William Saroyan retratou de maneira otimista a condição nômade de seu povo e a vida árdua durante a Grande Depressão. A San Francisco do entreguerras é o principal palco de suas histórias, mas ele explora também as experiências da infância (como as retratadas em outro livro seu já publicado por aqui, “A comédia humana”) e suas diversas e episódicas profissões, como a de gerente em uma companhia de telégrafos.

 

Com a publicação em 1934 de “O jovem audaz no trapézio voador”, William Saroyan transpôs para a literatura americana a tradição inaugurada pelo mítico romance “Fome“, do prêmio Nobel de 1920, Knut Hamsun. Publicado em 1890, o livro mais conhecido do autor norueguês é um objeto estranho à literatura do século XIX, com seu enredo rarefeito conduzido apenas pelas imprecações niilistas de um jovem escritor faminto à beira de um ataque de nervos. No livro inaugural de Saroyan igualmente ouvimos as lamúrias de um escritor neófito, porém desprovidas da arrogância e do auto-flagelo presentes na voz histérica do narrador de Hamsun. Em “O jovem audaz” o que temos é uma imensa compaixão pelos tipos que surgem a cada história e a cada esquina dobrada de São Francisco. Barbeiros, bookmakers, prostitutas, vagabundos, desempregados, todos atraem o jovem Saroyan com suas vidas miseráveis, despertando-lhe a solidariedade por meio de sua ficção com raízes profundas no patético e — por que não? — no sentido ético da mais pura e candente observação do cotidiano. É através de seu olhar que Saroyan procura salvar seus personagens da penúria física e espiritual de um tempo deplorável. E chineses, assírios, armênios, irlandeses ou africanos pululam por essas páginas, explorando pela primeira vez na literatura americana as instáveis condições de vida dos imigrantes no início do século XX e dando início a outra tradição, a da narrativa andarilha, posteriormente continuada pelo ítalo-americano John Fante, pelo franco-canadense Jack Kerouac e pelo germano-americano Charles Bukowski.

 

Depois de obter sucesso com a venda de seus livros de ficção e iniciar uma prolífica produção para o teatro, em 1939 o escritor recebeu o prêmio Pulitzer por sua peça “The time of your life”. Ganhou, mas preferiu não levar o dinheiro da premiação para casa, alegando que “o comércio não deveria julgar as artes”. Após a bem sucedida adaptação do drama para o cinema (em 1948, com James Cagney), também o romance “A comédia humana” chegou às telas, propiciando uma história típica das protagonizadas pelo escritor, que, insatisfeito com os resultados, tentou devolver os sessenta mil dólares recebidos da MGM. Deve ter sido a única vez em que Louis B. Mayer não se preocupou em recuperar seu rico dinheirinho, tal o constrangimento criado pela situação.

 

Impregnados de humanismo pacifista (um tanto pré-hippie), tal característica de seus livros motivou a ascensão e queda de Willliam Saroyan, acusado ao final da vida de ter “perdido a mão” com suas preocupações anti-belicistas, muitas vezes confundidas com mero excesso de açúcar.

 

Com tendência a também exagerar na bebida e uma predileção particularmente cara pelo jogo, Saroyan ainda foi pioneiro ao escrever sitcoms para a TV, criando ao menos uma série de sucesso, “Playhouse 90”, protagonizada por Joe, filosófico dono de bar que recebia seus clientes com o bordão “Qual é o sonho?”

 

Depois de viver alguns anos em Paris, doente de câncer, William Saroyan morreu em Fresno, sua cidade natal, em 1981. Cinco dias antes de falecer, convocou uma coletiva para dizer que “Todo mundo tem de morrer, porém eu sempre acreditei que uma exceção seria feita no meu caso. E agora?” Não há dúvidas de que o malandro sustentava sua galhardia mesmo nas condições mais adversas.

 

Depoimentos

 

“Embora o contexto seja outro, William Saroyan não tinha medo de mostrar sua humanidade. Hoje a literatura transformou-se em bufoneria, onde estão transformando arte em informação.”

 

FAUSTO WOLFF, escritor e tradutor, autor de “À Mão Esquerda”,

 entre outros livros

 

“O que faz de Saroyan um grande escritor é o vínculo profundo de sua literatura com o humano, e isso vale para qualquer época, em especial para tempos em que o humano deixa de ser levado em conta, na literatura e fora dela. Saroyan sempre olha com delicadeza para seus perdedores melancólicos. É o poeta da grandeza que existe mesmo no banal.”

 

MARÇAL AQUINO, escritor, autor de “Eu Ouviria as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”,

entre outros livros.

 

“Comecei a ler William Saroyan na adolescência, suas histórias carregadas do ritmo da rua me impactaram. Sentia-me identificado com seus personagens um pouco à deriva. Suas novelas cheiram, têm sabor. Seus diálogos são magníficos. Lê-lo é como escutar o melhor rock and roll.”

 

EFRAÍM MEDINA REYES, escritor colombiano, autor

de “Técnicas de masturbação entre Batman e Robin”, entre outros

 

“Gosto do Saroyan, do Eskine Caldwell, do John Steinbeck, não são todos da mesma época mas contam de uma outra América que não existe mais e que era, nos anos 50 e no começo dos 60, o nosso ideal. A gente lia e sonhava com aquela América pré-beatnik, pré-Kerouac.”

 

ANTONIO BIVAR, escritor, autor de “Os Verdes Vales do Fim do Mundo”, entre outros.

 

 

“Conheci o “Jovem audaz” há uns dois anos, através de um amigo. A leitura do prefácio já foi suficiente para me deixar chapado, a narrativa me lembrou John Fante, com aquela mesma humanidade pé-de-chinelo, aquela fúria “gauche” misturada a uma vontade absoluta de abraçar o mundo. Aquele prefácio devia estar no bolso de todo escritor iniciante do planeta. Está no meu, pelo menos.”

 

CHICO MATTOSO, escritor, autor de “Longe de Ramiro” e editor da revista “Ácaro”.

 

[ Artigo publicado na Folha de S.Paulo em 14/08/2004. Os depoimentos caíram na edição do jornal e são publicados aqui pela primeira vez. Detalhe nada desprezível: há uma tradução formidável de “The Daring Young Man on the Flying Trapeze” feita por ninguém menos do que João Cabral de Melo Neto. O conto recebeu o título de “O Ousado Rapaz do Trapézio Suspenso” e se encontra publicado nesta antologia. ]

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Viver de literatura?

A edição de setembro de 2008 da (ótima) revista argentina El Interpretador traz uma enquete realizada com cerca de cinqüenta autores argentinos a respeito do ofício de escritor. Entre os consultados estão desde nomes mais conhecidos aqui na Petrolândia, ex-Bananosborough (Alan Pauls, Martín Kohan, Luis Gusmán, Aníbal Ford, Edgardo Cozarinsky etc), às revelações dos últimos anos (Pedro Mairal, Fabián Casas, Daniel Link, Gustavo Nielsen, Juan Terranova, Oliverio Coelho etc). Entre estes últimos se encontra mí hermanito Cristian De Nápoli, organizador de Terriblemente Felices, Nueva Narrativa Brasileña (Emecé, 2007), poeta, prosador e o maior divulgador da literatura brasileira na margem ocidental do Prata.

 

Analisando as respostas dá para perceber que, embora a literatura argentina tenha maior espaço para sua divulgação do que a literatura brasileira (cerca de 500 milhões de pessoas falam espanhol no mundo, contra 215 milhões de falantes do português — e nem vamos discutir aqui as diferenças relativas à alfabetização), não nos diferenciamos muito deles no que se refere à profissionalização dos escritores. Para verificar isto, resolvi adaptar as perguntas feitas por El Interpretador e repeti-las a alguns autores brasileiros. Vejamos o que Daniel Pellizzari, Rodrigo Lacerda e Marçal Aquino têm a nos dizer.

 

 

Daniel Pellizzari

 

1. Você vive de literatura?

Sim. Nem sempre da minha, mas sim.

 

2. Que lugar a literatura ocupa no seu modo de ganhar a vida?

Não entendi.

 

3. Se você tivesse que comparar o ofício da escritura com outro tipo de trabalho, qual seria?

Qualquer outro trabalho que exponha pessoas quase patologicamente

sensíveis à execração pública.

 

3. Como você costuma trabalhar?

Sentado ao computador, fumando de quinze em quinze minutos.

 

4. Quanto tempo dedica a escrever?

Na cabeça, o tempo todo. Tempo demais, até. Digitando, depende. Às

vezes horas a fio, às vezes dez minutos.

 

5. Alguém lê seus textos antes de serem publicados?

Sim, tenho um punhado de leitores que não têm medo de me aplicar

bordoadas e em cujo julgamento confio na medida do possível.

 

6. Escreve de maneira regular?

Às vezes. Neste ano, sim. Todos os dias um pouquito.

 

7. Lê outros autores enquanto está escrevendo?

Só aqueles que me humilham profundamente e me deixam às raias da

paralisia, de tão agradecido.

 

 

Rodrigo Lacerda

 

1. Você vive de literatura?

Não. Mas ser escritor de literatura é um ótimo cartão de visitas para os outros trabalhos.

 

2. Que lugar a literatura ocupa no seu modo de ganhar a vida?

Na minha renda mensal, é pouco, bem pouco, e incerto. No meu modo de ganhar a vida a literatura tem uma grande influência, pois em nome dela já sacrifiquei muitas oportunidades de ganhar muito bem.

 

3. Se você tivesse que comparar o ofício da escritura com outro tipo de trabalho, qual seria?

Psicanalista. Vivo tentando apreender o inconsciente dos meus personagens.

 

3. Como você costuma trabalhar?

Não tem regra, devido à escassez de tempo. Mas é sempre no computador e, de preferência, na parte da manhã.

 

4. Quanto tempo dedica a escrever?

Todo o tempo que posso. Nos bons momentos, posso trabalhar até umas dez horas por dia.

 

5. Alguém lê seus textos antes de serem publicados?

Sim. Costumo dar para pessoas que, por um motivo ou por outro, me parece que serão leitores rigorosos e gentis ao mesmo tempo. E costumo fazer uma edição do autor antes de fazer a edição oficial.

 

6. Escreve de maneira regular?

Não. Cada livro tem um jeito de sair; uns mais torturados, outros menos.

 

7. Lê outros autores enquanto está escrevendo?

Se não lesse, não leria nunca, pois estou sempre escrevendo.

 

 

Marçal Aquino

 

1. Você vive de literatura?

Prefiro pensar que vivo a literatura, mas não de literatura.

 

2. Que lugar a literatura ocupa no seu modo de ganhar a vida?

A literatura responde por 0,3% dos meus ganhos, de acordo com meu contador.

 

3. Se você tivesse que comparar o ofício da escritura com outro tipo de trabalho, qual seria?

O de médico legista, com a diferença que os legistas lavam as mãos ao fim de um dia de trabalho.

 

3. Como você costuma trabalhar?

Escrevo sempre à mão, em cadernos.

 

4. Quanto tempo dedica a escrever?

Todo tempo possível que não é dedicado às coisas da sobrevivência.

 

5. Alguém lê seus textos antes de serem publicados?

Várias pessoas lêem meus textos antes da publicação.

 

6. Escreve de maneira regular?

Todos os dias, quando estou envolvido com algum livro novo.

 

7. Lê outros autores enquanto está escrevendo?

Leio e releio, sem maiores problemas.

 

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r e s e ñ i c e a g u d a

2 X VX

I.

 

Aos 74 anos o paulista Valêncio Xavier pode ser considerado o mais jovial escritor brasileiro em atividade. Tal paradoxo serve para demonstrar com que total insubordinação sua obra vem destilando nos últimos trinta anos toda sorte de impurezas alheias às normas literárias, porém quase sempre com alcance apenas subterrâneo. Em seus livros Valêncio costura ícones como um montador de cinema, outra de suas ocupações, tendo dirigido filmes e prestado assessoria iconográfica a diversos cineastas. Assim — e com precisão cirúrgica de legista — ele parece ser o único autor atual a continuar as intervenções visuais propostas por Machado de Assis em seu “Brás Cubas”.

 

Mas a artesania dessas justaposições não se limita à união de textos e de imagens numa proporção onde não é possível distinguir superioridade entre uns e outros. Em páginas de livros como “O mez da grippe” (1981 – reeditado em 1998) e “Minha mãe morrendo”, além da indiscutível onipresença da morte, o que clama por atenção são os diálogos com outras linguagens, como a literatura pulp ou o cinema. É esta proximidade a celebrada em “Crimes à moda antiga” (2004, Publifolha), livro que reúne assassinatos escabrosos ocorridos no Brasil e adaptados para as telas entre 1906 e 1930.

 

Publicadas originalmente em 1978 e 1979 na revista Atenção, de Curitiba, as narrativas (pela primeira vez reunidas em livro) misturam o tom sensacionalista dos cinedocumentários e das reportagens de rádio, recuperando na maior parte casos ocorridos numa São Paulo ainda estagiária da sua atual condição de metrópole refém dos muros eletrificados e da violência.

 

Em 1908 parecia fácil livrar-se de um cadáver: bastava ser proprietário de mala com tamanho condizente à vítima (ou nem tanto assim — às vezes alguns ajustes se faziam necessários), tomar um navio e jogá-la do convés, a caminho do Rio de Janeiro. Foi assim que Miguel Trad tentou se livrar do corpo do patrão, antes de ser impedido por dois tripulantes. Este crime da mala é um dos poucos no livro ainda a permanecer no imaginário popular brasileiro, talvez por se confundir com outro homicídio envolvendo bagagens ocorrido vinte anos depois. Em 1928 José Pistone matou sua esposa Maria Féa e, depois de maquiá-la com cuidado, a despachou de navio para um falso endereço na Itália. O corpo mutilado foi descoberto antes do navio zarpar e o italiano foi preso. O caso certamente serve para ilustrar a ingenuidade dos facínoras “românticos” da época, ainda não contaminados pelas engenhosas sugestões dos filmes noir dos anos quarenta e muito distantes da perversão dos supercriminosos atuais, mais interessados em genocídios. Também é curioso ver a predominância de nomes estrangeiros entre os bandidos, como os de Rocca e Carletto (os “estranguladores da Fé em Deus”), ou dos gângsteres tropicais Kindermann e Papst. Era o auge da imigração no país e o exotismo de tais nomes incendiava a imaginação dos brasileiros, além de deixar arder o preconceito.

 

Um dos principais elementos da ficção de Valêncio Xavier é essa delimitação precisa de suas narrativas ao espaço-tempo compreendido pela Belle Èpoque, o que atribui certo ar anacrônico aos seus livros, sempre calcados na memória de eventos históricos, adulterados ou não. Em tom de teatro Gran Guignol, neles é constante a presença da morte, da magia, além da amputação de corpos acompanhando o decepar de textos. No entanto a colagem gráfica de extrema originalidade de “O mez da grippe” ou “O minotauro” (cronologicamente posteriores, em ordem de composição) não está presente em “Crimes à moda antiga”. O que só aumenta a sua importância, nos permitindo compreender como o Frankenstein de Curitiba atingiu a fórmula do equilíbrio entre retalhos verbais e visuais para dar vida aos seus melhores livros.

 

 

II.

 

Os numerosos “raccontos” e “novellas” de Valêncio Xavier anteriormente publicados em jornais e revistas aos poucos vão sendo reunidos, como em “Rremembranças da menina de rua morta nua e outros livros” (Companhia das Letras, 2006), volume recém lançado que reúne sete dessas histórias. 

   

Talvez pela condição mesma de suas estranhas narrativas que usam gravuras antigas e fotografias (a ponto de em alguns casos quase prescindirem de texto), o autor de “O mez da grippe” sempre foi pródigo em publicá-las no suporte mais volátil das páginas da imprensa, provavelmente enxergando maior proximidade entre sua obra e a aparência gráfica da comunicação impressa, prorrogando assim sua existência mais definitiva na forma de livro.

 

Exímio detetive do lixo visual da cultura de massas, Xavier recupera imagens e palavras nesses contos (há neles considerável número de expressões caídas em desuso, como a “rremembranças” do título), antes relegadas ao esquecimento público, apropriando-se e lhes arranjando novo lugar. Sua obsessiva insistência em publicar quase que apenas em jornais durante as décadas de 80 e 90 sugere certa ética da devolução, a de devolver ao lixo o que no lixo foi recolhido, dada a fugaz existência desse meio.

 

Arrancar do esquecimento, entretanto, também é o que o autor paulista radicado em Curitiba faz com a “menina de rua morta nua” relembrada no conto que dá nome à coletânea. Utilizando-se de trechos de telejornais como o “Aqui & Agora” e recortes de periódicos, Xavier nos recorda do assassinato de uma menor de idade ocorrido em 1993 no trem-fantasma de um parque de diversões barato de Diadema. Num processo de evocação da menina morta e esquecida, a narrativa devolve à vítima os atributos humanos que lhe foram destituídos pelo crime e pelo olvido, reinventando modernamente a tradição da celebração fúnebre por meio da nênia, ora de maneira entrecortada e “quebrando, via lembrança, via repetição, a banalização espetacular da morte” promovida pela mídia sensacionalista e espetaculosa, no dizer de Flora Süssekind.

 

Todos os livros de Valêncio Xavier têm como fio da meada entre suas histórias essa abordagem pouco reconfortante da morte e das perversidades do sexo, numa potencialização superlativa de sua contiguidade autoral com o universo da obra de Dalton Trevisan, outro autor cuja poética igualmente está fundada nos descalabros do convívio social entre anônimos. Assombrando os leitores com seus personagens lúbricos do facínora drama suburbano do dia-a-dia, as relações entre o Vampiro e o Frankenstein de Curitiba tornam-se cada vez mais evidentes e indissociáveis, exigindo aprofundamento para melhor compreendê-las em sua complexidade siamesa.

 

Resta celebrar o cuidado da edição e a capa de Raul Loureiro e Cláudia Warrak, desde já uma das melhores do ano, e que propõem um curioso contraste entre o luxo do livro e o material resgatado do lixo de que é feita a literatura de Valêncio Xavier. 

 

[ Artigos publicados na Folha de S. Paulo em 2004 e 2006, respectivamente. ]

 

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