[ Há cerca de dois anos -- ou seriam três? -- colaboro mensalmente com o Entrelinhas, programa da TV Cultura. FINALMENTE a moçada lá do programa começou a colocar os quadros no youtube. Agora podiam colocar os antigos, né? ]
O blog de Joca Reiners Terron
[ Há cerca de dois anos -- ou seriam três? -- colaboro mensalmente com o Entrelinhas, programa da TV Cultura. FINALMENTE a moçada lá do programa começou a colocar os quadros no youtube. Agora podiam colocar os antigos, né? ]


[ São do Laerte, claro. E alguém pode me explicar por que ainda não existe um ÁLBUM que reúna a produção do homem dos últimos, digamos, 3 anos? ]
Em meio às pauladas e à burrice deplorável (inclusive de conhecidos irresponsáveis, o que não me surpreende em nada), surgem algumas opiniões lúcidas. Das mais esclarecidas é a do Theotonio de Paiva. Confiram.
por Leandro Sarmatz*
Você sabe quem é Joca Terron? Se não sabia até o final da semana passada, agora você já nem deve agüentar mais ouvir falar dele. É o celerado que cometeu um poema sobre vilania, estupro e outras abominações para leitores de apenas 9 anos de idade. Um corvo egresso do Mato Grosso, disposto a assombrar as salas de aula da rede pública. Uma espécie de Marcola do mundo das letras. Este é o Joca que muitos conheceram nos jornais, na TV e numa infinidade de notas desorientadas na internet.
Claro que o parágrafo acima deve ser lido em chave negativa, com ironia – como o próprio poema assinado pelo Joca, lembra? Na condição de organizador do volume Poesia do Dia – Poetas de hoje para leitores de agora (Ática), gostaria de compartilhar o meu espanto com todo esse barulho. Além disso, como fui eu que selecionei os poemas – inclusive o mais que lembrado “Manual de auto-ajuda para supervilões” –, devo ter meu quinhão de culpa, claro. Mas que culpa? Quando os gentis editores da Ática me contrataram para produzir um livro que desse conta da poesia contemporânea brasileira, tanto eu quanto os editores (sem falar nos autores, uma moçada nascida entre as décadas de 60 e 80 que aceitou figurar no livro) tínhamos um público-alvo: leitores adolescentes naquela faixa maravilhosa e aterradora entre os 13 e 14 anos. Um tipo de leitor já versado um pouco em recursos poéticos, adestrado em discurso irônico e, tão importante quanto esse arsenal escolar, uma turma que já está tomando contato com o mundo real, aquele mesmo, o de verdade.
Aí, algum tonto, mal-intencionado ou apenas incompetente funcionário da área de educação do governo escolhe o Poesia do Dia, destinando-o aos pequenos leitores. A grita dos pais, claro, é justificada. Mas vem cá: em todas as matérias sobre o caso, quem foi devidamente crucificado, teve o nome citado à exaustão, foi obrigado a se “explicar” como um daqueles criminosos furrecas em programa mundo-cão da TV às 18h? O desastrado funcionário público? O secretário de educação? O governador do Estado? Não. Coube ao autor de um poema a tarefa aziaga de tentar desfazer o nó que sequer foi amarrado por ele. E que está aí muito antes dele ter pensado e concebido o poema.
Como isso foi acontecer? A resposta não é tão simples, pois encerra diversas questões relacionadas ao trânsito da literatura contemporânea na escola, aos processos de escolha de livros pelos governos e, no limite, às trapalhadas e aos interesses por detrás delas às vésperas de ano eleitoral.
Não cabe a mim discorrer sobre esses tópicos todos, mas temo que a principal conseqüência desse capítulo patético sobre leitura e moralidade na escola não se dará na esfera governamental, que foi, afinal de contas, o grande pivô invisível (e bota invisível nisso: cadê o sujeito que despachou os livros para a molecada? Esse não apareceu em matéria alguma.). O que pode acontecer a partir de agora tem, dessa vez, tudo a ver com Joca e outros escritores brasileiros: escaldadas por sucessivos escândalos, as editoras podem querer criar mecanismos de auto-censura na hora em que forem trabalhar com autores novos e/ou temas contemporâneos. Afinal, episódios como o do Poesia do Dia são o pior tipo de propaganda espontânea que um livro destinado ao mercado escolar pode contar. Daí para a caretice, a previsibilidade e o catecismo dos bons-modos, é apenas um passo para trás. Ou muitas páginas a menos.
* Jornalista e Mestre em Letras pela PUC-RS.
[ Como explica aí em cima, Leandro é o organizador da coletânea Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora, publicada pela Ática. Algumas pessoas têm me cobrado um posicionamento além da fala entrecortada (para não dizer capciosa) surgida nos jornais por aí, mas não me animei. Agradeço, então, ao Leandro por ter se manifestado, assim como às pessoas da caixa de comentários. ]

[ Mais aqui, aqui (para assinantes) e aqui (a defesa do crucificado). Aquele box ali em cima, logo abaixo da manchete, é o poema reproduzido na íntegra. Qual é a tiragem do Agora, 1 milhão de exemplares? Qual poeta recebe mais destaque do que o Corinthians na capa do jornal de maior tiragem do estado? MAIS AINDA: quem disse que a literatura não incomoda mais? ]
Manual de auto-ajuda para supervilões
Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.
Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.
Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.
Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.
Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.
Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.
Ou Malcolm.
Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.
Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.
Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.
Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.
Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.
Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.
Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.
Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.
Nunca ame ninguém. Estupre.
Execre o amável. Zele pelo abominável.
Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.
[ in, "Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]
[ Um depoimento concedido ao Itaú Cutural em novembro de 2004. Putz. Sem comentários. ]

“The ideal man bears the accidents of life with dignity and grace, making the best of circumstances.”
Aristóteles

Xico Xico

Xico Joca

Xico Marcos

Xico Bela

Xico Unknown

Xico Lírio

Xico Xinho

Xico Junio

Xico Duda

Xico Vítor

Xico Madriña

Xico entre os encolhedores de cabeças

Xico troféu de caça

Xico Cecília

Xico rockin’

Xico Travolta

Xico Xico, o original, e Xico Xinho, a cópia. O processo de xicosazão do mundo começou e é irreversível. Quando se completar, seremos todos mais felizes.

“Creio no poder da imaginação para refazer o mundo, na beleza dos acidentes automobilísticos, na poesia dos hotéis abandonados, dos postos de gasolina abandonados (mais belos que o Taj Mahal), na sabedoria da luz, na bondade das árvores, no senso comum das pedras, na demência das flores.”
* * *
“O futuro será aborrecido.”
* * *
“O único e verdadeiro planeta alienígena é a Terra.”
* * *
“Creio nos odores corporais da princesa Diana.”
* * *
“Creio em nada.”
J. G. Ballard (1930-2009)

Morte exemplar
“Junto à de Italo Svevo, outra morte admirável, que assegura sua fama de gênio e de figuraça até a sepultura: ‘Se minhas fontes são fidedignas, Buster Keaton teve um final exemplar. Alguém, ao lado de sua cama de enfermo, observou: “Já não vive mais.” “Para saber isso”, respondeu outro, “tem que lhe tocar os pés; as pessoas morrem com os pés frios.”"Joana D’Arc, não”, disse Buster Keaton, e caiu morto.”
[ Enrique Vila-Matas, citando Bioy Casares; "El viajero más lento", Anagrama, 1992. ]