
História da Literatura Brasileira em 4 Quadrinhos
Publicado Outubro 14, 2009 a f i c ç ã o v i d a 1 Comentário
[ Essa é a primeira aparição de Peanuts, a tira de jornal mais longeva de todos os tempos -- de 1950, creio; good ol' Charles Schulz! -- a ironia, é claro, se aplica a outras áreas da expressão humana em sua versão tupichinfrim: pode ser, por ex., História das Histórias em Quadrinhos Brasileiras em 4 Quadrinhos, ou mesmo História da Música Brasileira em 4 Quadrinhos; a escolha fica, portanto, a gosto do carapuceiro. ]

[ Meu livro que ganhou a bolsa da Petrobras terá páginas de quadrinhos. Os desenhos serão de André Ducci, um quadrinhista sensacional lá de Curitiba. Esse aí de cima é um estudo de personagem. O livro sairá no começo de 2010 pela Agir. Darei mais notícias adiante. ]

ilustra Pedro Vieira
“(Roberto Bolaño) Se interesaba por la política latinoamericana: “No seré yo el que te diga que en política la realidad y el deseo son dos cosas bien distintas. Para mí Lula es, en principio, un antiguo obrero que promete hacer lo posible para que todos los brasileños coman tres veces al día. Como objetivo político, o de política social, no está mal, es razonable, aunque como utopía es francamente pobre. Es como si Joyce, por poner un ejemplo de utopía literaria, hubiera dicho que su objetivo era combatir el analfabetismo irlandés y hacia ese fin hubiera dirigido todas sus energías. Sobre todo, porque Joyce, si se hubiera dedicado a alfabetizar, no hubiera conseguido nada, que será lo que Lula, mucho me temo, conseguirá al final de su mandato”, escribió a esta cronista.”
[ Mónica Maristain, jornalista a quem Bolaño concedeu sua última e melhor entrevista, publicou ótimo artigo no jornal mexicano El Universal. Nele, usa trechos de sua correspondência pessoal com o chileno galáctico, como acima. Há também uma afirmação de que Bolaño ouvia o brasileiro Lenine. Sei não. A dica veio de Marçal Aquino por email. Ah, aproveitem e visitem o blogue criado para promover o lançamento de 2666. Em Portugal, por aqui o livro sai em 2010. E a boa nova é que a Companhia das Letras também publicará Estrella Distante. ]
Era dia sete de setembro e levei minha filha para ver um quadro de Pedro Américo no Museu Paulista.
“Você conhece Pedro Américo, filha?”, eu perguntei a ela.
“Não conheço não, pai. Ele estuda na minha escola?”, ela respondeu, curiosa.
Então expliquei que Pedro Américo tinha sido um grande pintor.
“Foi ele quem pintou o mais famoso quadro sobre a Independência do Brasil, chamado ‘O grito do Ipiranga’, eu disse.
Era essa pintura que nós tínhamos ido ver. Eu estava meio esquisito, pois havia quebrado o braço de tal jeito que os médicos tiveram de engessá-lo assim, reto, apontando para cima.
“Pai, você tá muito engraçado com esse braço apontando para o céu”, disse minha filha.
“Eu sei, filha. Parece que tô tentando pegar ônibus o tempo todo, né?”. Ela deu muita risada quando eu disse isto.
Quando nós chegamos no museu e paramos na frente do quadro, percebi como eu estava parecido com Dom Pedro I.
“Sabe, só agora estou percebendo como o dia sete de setembro de 1822 deve ter sido chato para Dom Pedro I”, eu falei.
Ela olhou para mim com aquela cara de criança querendo saber mais. Continuei:
“Ah, ele deve ter acordado e pensado ‘É hoje que vou ter de gritar INDEPENDÊNCIA OU MORTE! e ficar para sempre com o braço levantado para cima em algum quadro que alguém ainda vai pintar. Que coisa mais chata!”
“E tava certo, né, pai? Olha só o quadro, ele tá igualzinho a você!”, minha filha falou, dando risada.
E quando percebi toda a criançada estava pulando à minha volta, gritando “Independência ou Morte! Independência ou Morte!”. Foi muito engraçado.
A única coisa que não foi engraçada foi quando saímos do museu e vimos a rua cheia de camelôs trabalhando em pleno feriado para sobreviver.
E foi assim, depois das risadas, que eu expliquei para minha filha tim-tim por tim-tim por que a independência do Brasil tinha sido feita pelos ricos apenas para os ricos.
Mas esta é outra história, menos divertida, e fica para outra vez.
[ Publicado na Folhinha, suplemento infantil da Folha de S.Paulo, em 2 de setembro de 2006 ]

[ Quase Nada, a tira de Moon & Bá, na Ilustrada de hoje. Morri. ]
Oi, oi. Vocês devem ter visto “Enter”, a antologia digital organizada pela Heloísa Buarque de Hollanda, não? Oi, oi, se liga, então. Não viu mesmo, oi? Táqui, ó. Oi, de novo. Foi?
[ Tom Gauld. Pra que dizer mais? ]

Nova narrativa argentina
Minha namorada e minha ex-mulher estão numa antologia
da nova narrativa argentina.
O editor preparou um churrasco em Don Torcuato
para festejar o lançamento do livro.
Como aos domingos meus filhos estão comigo
e a separação é mais ou menos recente
nem eles e muito menos eu vamos ao churrasco.
Ana, meus filhos e eu
despertamos neste domingo
no apartamento bacana e decadente
que Ana tem no Once.
Mas Fiona ficou sabendo do churrasco
e quer ir com a mãe.
Depois Benicio ficou sabendo
e também quer ir ao churrasco.
O acerto automobilístico é complexo
mas acaba dando nisto:
uma hora mais tarde,
da frente de uma casa bacana no Bairro Norte
na qual eu costumava dormir
arrancam dois carros.
Num deles seguem minha namorada, meu filho e três escritoras.
No outro seguem minha ex-mulher, minha filha, três escritores e uma bola de futebol.
Minha namorada e minha ex-mulher dirigem seus respectivos carros.
Eu vou caminhando com a sacola negra
que me acompanha em minha vida nômade.
Isto é o mais importante que aconteceu à literatura atual nos últimos anos,
ao menos sob o meu ponto de vista.
[ Santiago "Lato" Llach, de Poemas municipales, Eloísa Cartonera, 2009 ]
