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Um telefonema do futuro

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Diante do enigma representado por El Poeta Anonimo, o livro de Juan Luis Martinez lançado pela CosacNaify em 2012, decidi ligar para um certo número telefônico que não vinha à lembrança havia quase vinte anos: o da casa onde morei no período em que praticamente só lia poesia e ensaios sobre poesia. Quem sabe aquele estudante cabeludo de design gráfico de 1994 não explicaria de que se trata este retângulo negro com mais de duzentas páginas indecifráveis. Então liguei. A chamada era péssima, a voz parecia vir do além ou das profundezas de uma ressaca.

— Alô?

— Quem fala? Voz conhecida.

— Sou eu. Ou pior, você, vinte anos mais velho.

— Não me diga.

— Sugiro que evitemos o assunto “cabelos”.

— Ok.

— Recebi um livro do poeta chileno Juan Luis Martinez. É um volume póstumo, o Martinez morreu em 1993. Não entendi muita coisa, queria tua ajuda.

— Quer dizer que tudo o que leio agora de nada vai me adiantar no futuro daqui a vinte anos?

— Sugiro que evitemos o assunto “neurônios”. Parece que eles caem com os cabelos.

— Ok. Que tipo de livro é esse?

— É poesia visual, mas não tem muito a ver com poesia visual brasileira. Martinez pertencia à turma do Nicanor Parra e do Raúl Zurita, porém era bastante obscuro pra mim até ver obras dele expostas na Bienal de Arte de São Paulo 2012. Descobri algumas informações biográficas sobre ele no Google e no Wikipédia.

— Peraí. Que são Google e Wikipedia?

— Difícil explicar. As coisas mudaram bastante nessas duas últimas décadas.

— Duvido muito disso. Mas prossiga.

— Bem, no Google eu encontrei um PDF de La Nueva Novela, livro de Martinez que eu conhecia de um artigo escrito pelo Alejandro Zambra, conterrâneo dele.

— Nem me atrevo a perguntar o que é PDF. Lembra sigla de palavrão.

— Bem, La Nueva Novela, se comparada a El Poeta Anonimo, se baseia em signos mais reconhecíveis, pois no primeiro livro existem poemas verbais, enquanto que este póstumo aqui é composto mais por suspiros, sussurros, gemidos etc. É uma espécie de estrebuchar do poeta anterior, do Martinez de La Nueva Novela.

— E há citações no livro?

— Sim, é uma poética inteiramente baseada na intertextualidade ou na pilhagem descarada. Diversos poemas citam Raymond Roussel, Duchamp, René Crével, Magritte, Napoleão Bonaparte, Adolf Hitler e põe etecétera nisso.

— Ah, esses nomes aí já dão uma pista da orientação do cara, não? É um surrealista de carteirinha. Aposto que também era comunista e agente da CIA. Poetas desse tipo sempre têm algo a ver com espionagem. Se for latinoamericano, então, a chance de ter sido agente duplo é bem maior. Você pode citar um poema verbal dele pra gente se certificar do que tá falando?

— Beleza, lá vai um que pertence a La Nueva Novela.

 

A casa do alento*, quase a pequena casa do (autor)

(Interrogar as janelas

sobre a absoluta transparência

dos vidros que faltam)

 

  1. A casa que construiremos amanhã

já está no passado e não existe.

 

  1. Nessa casa que ainda não conhecemos

continua aberta a janela que esquecemos de fechar.

 

  1. Nessa mesma casa, detrás dessa mesma janela

ainda batem as cortinas que já retiramos.

 

* Quiçá uma casinha no subúrbio

onde o passado ainda esteja para acontecer

e o futuro passou faz tempo.”

(de T.S. Eliot, quase)

 

* * *

— E então?

— É mesmo um surrealista. Tem toques orientais e remete a certos filósofos da linguagem feito o Lichtenberg. Também lembrou Pierre Reverdy. E esse El Poeta Anonimo, tem coisas parecidas?

— Não tem. Exceto por um poeminha em homenagem a Yukio Mishima — cuja autoria pode ser posta em cheque, como quase tudo no livro — toda a parte textual é composta de retalhos de outras fontes, como uma série de sonetos compostos por colagens de páginas rasgadas de um manual técnico sobre variantes do soneto. A narrativa, se é que dá pra chamá-la assim, de El Poeta Anonimo, é uma elegia da figura do herói por meio de extremistas, sejam poetas como Lautréamont, Rimbaud, Baudelaire, Maiakovski, Artaud, figuras históricas como Napoleão, San Martin, José Miguel Carrera, Manuel Rodríguez e o anarquista Pietro Valpreda, personagens de HQ tipo Dick Tracy e Pato Donald, exilados e desaparecidos chilenos e argentinos. Tudo isso aparece na forma de citação visual, ou seja, de retalhos, fragmentos e recortes tirados de outros lugares e reorganizados através de uma colagem furiosa e meio esculhambada de tão suja.

— Quer dizer que lembra uma ode que estranhamente não pode ser cantada?

— Sim, porém o aspecto sujo dos grafismos — em contraposição à aparência construtivista e geométrica da poesia visual brasileira, por exemplo — não fornece o tom elevado costumeiramente vinculado à ode.

— É sujo por que usa fotocópia como linguagem?

— Sim, deu pra adivinhar, né?

— É que isso aí cheira a anos 70 e 80. Mas um alerta: a poesia visual brasileira não se resume à rapaziada concretista, e mesmo alguns filhotes dela reunidos em torno a revistas como Qorpo Estranho, Artéria, Poesia em Greve, Pólem, Jornal Dobrabil, Navilouca etc, foram influenciados pelo grafismo heterodoxo das possibilidades técnicas do período, que eram basicamente Letraset e Xerox. E o grau de adequação do protótipo é diretamente proporcional à sua espontaneidade em relação à comunicação de massas, e vice-versa.

— Caramba, o que você anda lendo aí em 1994?

— Buckminster Fuller. E tomei umas cachaças.

— Sugiro que evitemos o assunto “fígado”.

— Ok.

— Bem, quer dizer que a herança visual da poesia também nasce de outras fontes que não sejam cartesianas, aristotélicas etc? Existe outro horizonte que não seja concreto? Nem lembrava disso.

— Claro, o próprio surrealismo é uma matriz, como as revistas La Révolution Surréaliste e Le Surréalisme, Mème, editadas por André Breton. Ou o dadaísmo de Merz, editada por Kurt Schwitters. Boa parte das idéias e manifestos das vanguardas do século 20 foram veiculadas em publicações efêmeras. Cada uma delas criou sua própria tradição relâmpago, desaparecendo tão rapidamente quanto surgiram.

— Isso me fez lembrar do verso de um poeta argentino que conheço. Diz: Os casais e as revistas literárias/ duram quase sempre dois números.

— E às vezes nem passam do número zero. Só que o surrealismo não se restringe à poesia ou às revistas. Fora toda a obra pictórica de Magritte, Dalí e outros, existe a genial narrativa gráfica sem palavras — o subtítulo diz romance surrealista em colagens — chamada Une Semaine de Bonté, de Max Ernst. Pelo que você descreve há muito desse trabalho de Ernst em El Poeta Anonimo, assim como há em trabalhos representativos de alguns brasileiros contemporâneos de Juan Luis Martinez, como Valêncio Xavier e Sebastião Nunes.

— Boa, eles são mesmo da mesma família.

— Certo, mas esse Martinez aí é tão bom poeta quanto o Sebastião Nunes, por exemplo? O Sebunes Nião é foda, faz poesia visual e ao mesmo tempo soneto clássico. Pra fazer o que ele faz tem de conhecer.

— Ih, essa não posso responder, pois esta conversa vai servir prum texto que deve sair no blogue da editora…

— Blogue? E o que é blogue?

— Alô! Alô! Não tô te ouvindo! Ih, a ligação tá falhando. Mas valeu, obrigado pelo papo!

— Falou. A gente se vê.

— Isso, tchau! A gente se vê no espelho daqui a vinte anos.

 

[ Texto encomendado para o blogue da extinta CosacNaify e recusado pelo editor ]

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l e v r e r i s m o s

A novela luminosa (trecho)

piriapolisquizas1975

“Escrevia à mão esse romance furioso, e terminado um capítulo o passava à máquina, e ao passá-lo ia introduzindo pequenas mudanças e fazendo algumas correções. Também um ou outro capítulo foi escrito originalmente à máquina. Um capítulo foi rejeitado e destruído, porém como verá o leitor que chegue até lá, em seguida me arrependo e o resumo no capítulo que o substitui; pelo que parece, só havia destruído a cópia, porque é evidente que em seguida voltei a passar à máquina o original e voltei a colocá-lo em seu lugar. Mas também conservei o resumo no capítulo seguinte, e nessa hora a numeração dos capítulos complicou. Não sei bem em que etapa das inúmeras correções os cinco capítulos sobreviventes ficaram com a forma que têm agora (e os dois destruídos não deixaram rastros); andei carregando esse romance truncado durante dezesseis anos, e a cada tanto me empenhava em uma nova revisão que acrescentava ou tirava coisas.”

[ Trecho de La Novela Luminosa, de Mario Levrero, que sugere a procrastinação como método. Traduzi um razoável número de páginas do romance, mas quem o havia contratado não vai mais publicá-lo. É uma obra-prima da literatura recente, e caso você seja o afortunado dono de uma editora e queira fazer o livro chegar ao leitor brasileiro, basta me escrever que lhe darei o caminho das pedras: jterron@gmail.com ]

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a l h u r e s

A banalização foi minha Beatriz

Pelos títulos expostos nas listas de mais vendidos, seria razoável deduzir que, entre as Belas Artes, a literatura é a que menos evoluiu, restringindo-se, regras excedidas, à legibilidade. Não se insurgiu contra a tela na parede, como a pintura, instalando-se por toda a sala, nem exige óculos 3D à maneira do cinema, a fim de explodir o teto. Se, como afirmou Nietzsche, libertar-se da sintaxe é a última liberdade possível, a expressão literária supostamente mais livre é aquela sem leitores, e o best seller não passa de puro aprisionamento. Meio que reinventando a roda quadrada das vanguardas, a antologia Abstract/Ext (Abstract Editions, Espanha, 2015), organizada por David Quiles Guilló, procura “uma aproximação inicial da literatura abstrata” e dessas questões. Sem dúvida, e parece ser prerrogativa de Guilló (fundador da provocativa revista de artes visuais Rojo), há controvérsias.

Diversas conquistas formais das vanguardas do início do século 20 sobrevivem nos dias de hoje apenas no anedotário da história da arte. É raro o leitor contemporâneo ler um poema do futurista italiano Marinetti e sair transformado, pois o brilho metálico do futuro idealizado pelo artista mostrou-se fosco como plástico made in China. No entanto, ao se verificarem prazos de validades, alguns procedimentos da vanguarda perduram, possibilitando a época presente como a conhecemos. “Sem Dada, não teríamos mash-ups, samplings, fotomontagens, happenings – nem mesmo o Surrealismo, a Pop Art, ou o punk. Sem Dada, a vida moderna como a conhecemos resultaria muito diferente, e mal pareceria moderna”, afirma Jed Rasula em Destruction Was My Beatrice: Dada and the Unmaking of the Twentieth Century (Basic Books, 2015).

Evidentemente que sim. A banalização, porém, tem vencido por algumas cabeças a acirrada disputa entre os possíveis – e são tantos – males deste século 21. Com o aplicativo PicassonoBr, por exemplo, criado para a mostra Picasso e a Modernidade Espanhola, em exposição no CCBB do Rio de Janeiro, o usuário pode produzir selfies ao modo cubista do revolucionário pintor espanhol. E aqui surge a controvérsia em Abstract/Ext: por si, qualquer texto escrito não passa de abstração, de tracinhos pretos dispostos sobre a página branca que exigem decifração/interpretação. Se, diante do atual contexto editorial que privilegia a indigência textual aliada ao anódino, a opção por ilegibilidade de grande parte dos textos soa salutar – todos em inglês, de autoria do próprio Guilló, Lucie Kass, Carlos Issa e outros 42 colaboradores, em sua maioria artistas plásticos e designers –, a seleção não resulta propriamente em conceito.

Entre os procedimentos – métodos restritivos que guiem a criação em seu aspecto formal –
mais contundentes das vanguardas, a liberação do autor de seu ego certamente foi o mais eficaz. Considerando o pouco que restaria da literatura se dela fossem eliminadas manifestações subjetivas, Abstract/Ext avança pouco nesse terreno, graças ao recurso de justamente revelar ou explicar intenções por meio de notas de rodapé. Não que essa opção editorial não resulte em ironia, mesmo que involuntária. Em Meu Sonho, Dustin Hostleter manifesta um anacrônico anseio das publicações online: “Meu sonho é ter este momento digital documentado/ para sempre em forma impressa / digito estas palavras com esperança de vê-las/ em outro espaço-tempo”. A antologia foi reunida por meio do Facebook.

Abstratc/Ext – A First Aproximation to Abstract Literature, Abstract Editions, Espanha
(publicado na revista Select #25, agosto de 2015)

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