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Olhavam para o céu, mas só viam o drone de vigilância

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Aquela noite já durava muitos anos. A menina e o macaco em pé sobre o cangote dela despertaram e a luz que saiu de seus olhos abertos iluminou a jaula onde ambos estavam confinados com outras crianças. Alguém tire o macaco de cima dessa menina, ordenou o Bispo-Coronel apontando a tela do monitor de vigilância. O macaco prendeu com violência sua cauda no pescoço da menina. Já tentamos, disse o Pastor-Sargento, mas é impossível. Como foi que o exército colombiano permitiu a entrada desse macaco no campo de contenção, disse o Bispo-Coronel, são uns imbecis. Na tela, a multidão de crianças aprisionadas vibrou em uma onda cinzenta e por um instante a menina e o macaco se fundiram à massa movente. Não entrou, senhor, disse o Pastor-Sargento, quando os furgões trouxeram as crianças de Maracaibo elas estavam nuas. Não tinham como esconder o macaco, a não ser que ele estivesse dentro de uma delas. A movimentação dos corpos amontoados no monitor lembrava uma ilha de lixo, uma ilha de resíduos plásticos à deriva pelo Caribe. Conduz o drone pro outro lado que os dois sumiram, disse o Bispo-Coronel, acho que se separaram. Eles nunca se separam, disse o Pastor-Sargento, por isso não conseguimos remover o macaco da jaula. O drone capturou o animal se encarapitando em cima da cabeça da menina. Uma clareira se abriu na multidão. É um macaco bem grande, disse o Bispo-Coronel, essas crianças são alimentadas apenas uma vez por dia, como uma merdinha assim consegue sustentar esse macaco? Isso nem os últimos bugres daqui da selva sabem explicar, senhor, mas suspeito que é o macaco que a sustenta e não o contrário, disse o Pastor-Sargento, eles desenvolveram relação parasitária. Na tela, as crianças se afastaram, formando um círculo em torno da menina e do macaco que se ergueu sobre os pés em cima da cabeça dela. O que é isso, disse o Bispo-Coronel, empurra esse drone mais pra direita. Essas crianças comunistas, a gente devia ter logo convencido os colombianos a matar tudo de uma vez quando a guerra começou. O macaco se prepara pra cantar, senhor, disse o Pastor-Sargento, ele faz isso todos os dias na mesma hora. Não era possível mais ver a cara da menina na tela, pois o ânus avermelhado do macaco encobriu totalmente sua cabeça, deixando à vista apenas as pontas de seus cabelos negros que se estendiam até a cintura. As crianças se ajoelharam no lamaçal do piso da jaula do campo de confinamento venezuelano. A guerra parecia longe de terminar, a noite prosseguiria e nossos macacos interiores continuariam a se insurgir nas ocasiões mais impróprias. Em pé sobre o corpo frágil da menina, o macaco abriu os braços e estufou o peito, seus dentes se arreganharam num esgar de gargalhada ameaçadora. Esse macaco tem o tamanho de um babuíno, disse o Bispo-Coronel, é muito maior que os encontrados nesta selva. O drone subiu, tornando visível a borda escura da selva venezuelana, ecoando o clamor selvagem da natureza. O macaco está cantando, senhor, vamos até lá fora ouvir, disse o Pastor-Sargento. Ao descer a escada rangente da torre de vigilância, o Bispo-Coronel olhou de relance as jaulas coletivas que se estendiam em uma malha quadrangular a perder de vista, e mais além o deserto sem fim onde antes se encontrava a Amazônia. Em cada uma das jaulas assomava ao centro um macaco encarapitado sobre a cabeça de uma criança. Na tela silenciosa do monitor, as crianças olhavam para cima à espera de um sinal divino nas nuvens, mas só viam o drone de vigilância. Diante da jaula, os militares ouviram o macaco cantar. Sua voz cheia de chiados lembrava uma emissão radiofônica em qualquer língua incompreensível parecida com o russo. Talvez a menina cantasse através do macaco, talvez fosse o contrário. As fezes ferventes que o ânus do macaco despejou repentinamente se esparramaram, consumindo o corpo mirrado da menina até cobri-lo por completo. Por instantes ela virou uma estátua, que logo se desfez na lama. Veja, o macaco cresceu muito, disse o Bispo-Coronel num murmúrio tão baixo quanto um suspiro final. Com seus longos braços de cipó, o macaco passou a envolver uma a uma as crianças. Elas se ofertavam em sacrifício para saciar sua fome, um ritual organizado por algum deus em férias permanentes, na medida em que o macaco as engolia e dobrava de tamanho a cada bocado mastigado. Após saltar a grade com a facilidade de uma criança pulando uma poça d’água deixada pela chuva, o macaco arrancou a cabeça do primeiro beato-soldado da vigilância, e a apreciou como se fosse um quitute. Depois o macaco gigantesco devorou o segundo beato-soldado e o terceiro e o quarto e o quinto até comer o batalhão inteiro, chegando ao Pastor-Sargento e então ao Bispo-Coronel, que ao morrer, lembrou de alguns verões esplêndidos em visitas à sua antiga namorada de Florianópolis, para onde viajava indevidamente com a verba de oficial, não deixando de perceber que, apesar de faminto, aquele macaco respeitava patentes e a hierarquia militar. Ao longe, a selva iniciou sua expansão, cobrindo campos de contenção, linhas divisórias das fronteiras e cidades, destruindo religiões, exércitos, nações e a própria ideia de civilização, rompendo limites da realidade que antes eram invioláveis mas já não fazem mais nenhum sentido, os pulmões do mundo voltando lentamente a respirar, e agora o macaco furou as páginas desta revista e acabou de agarrar com força teus dois pulsos, leitor. Agora esse macaco simbólico e anti-ideológico olha nos teus olhos, enquanto arreganha a bocarra num sorriso que não é de simpatia nem de conforto.

[ Conto publicado na edição especial de fim de ano da revista CartaCapital, de 2 de janeiro de 2019 ]

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Curva de Rio Sujo On My Mind

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Afinal, hoje “Não Devore Meu Coração” está nos cinemas após aclamada passagem pelos festivais de Sundance, Berlim, Brasília e outros. Não sou apóstolo, mas venho dar meu testemunho da paixão. No caso, a de Felipe Bragança pelo livro “Curva de Rio Sujo”, que inaugurou em 2003 meu fronteiriço mundo privado com histórias passadas na região que surge no filme, um lugar aonde evitei regressar por décadas, pois não queria conspurcar aquilo que vivia na lembrança. Felipe me obrigou a voltar, e o que encontrei permanecia intocado: é como se Felipe recuperasse as imagens que estão no livro, imagens que pertenciam às minhas torpes lembranças e que traduzi em relatos, e as devolvesse novamente à condição de imagens que originalmente eram, no limbo entre a lembrança e o sonho. Assistir ao filme me causou estranho desconforto, misto de pudor de ver ali à frente de todos aquilo que se escondia em meu mundo privado, em minha vida secreta, com uma felicidade cálida, viva. E o rosto de Basano La Tatuada, que carreguei em sua versão 3X4 durante anos em minha carteira mofada, permanecia igual e a paixão guarani de Joca por ela permanecia igual, pura, intocada como as samambaias e avencas que despencam suas sombras sobre as águas barrentas do Apa. Desde o início, e foi um longo início, há quase dez anos, eu carregava a certeza de que um filme movido pela paixão só poderia resultar em amor e amizade e em algo perene, tão perene quanto as lembranças. Obrigado, Felipe e turma. Amigos, convido-os a ver o filme.

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Em abril

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