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A novela luminosa (trecho)

piriapolisquizas1975

“Escrevia à mão esse romance furioso, e terminado um capítulo o passava à máquina, e ao passá-lo ia introduzindo pequenas mudanças e fazendo algumas correções. Também um ou outro capítulo foi escrito originalmente à máquina. Um capítulo foi rejeitado e destruído, porém como verá o leitor que chegue até lá, em seguida me arrependo e o resumo no capítulo que o substitui; pelo que parece, só havia destruído a cópia, porque é evidente que em seguida voltei a passar à máquina o original e voltei a colocá-lo em seu lugar. Mas também conservei o resumo no capítulo seguinte, e nessa hora a numeração dos capítulos complicou. Não sei bem em que etapa das inúmeras correções os cinco capítulos sobreviventes ficaram com a forma que têm agora (e os dois destruídos não deixaram rastros); andei carregando esse romance truncado durante dezesseis anos, e a cada tanto me empenhava em uma nova revisão que acrescentava ou tirava coisas.”

[ Trecho de La Novela Luminosa, de Mario Levrero, que sugere a procrastinação como método. Traduzi um razoável número de páginas do romance, mas quem o havia contratado não vai mais publicá-lo. É uma obra-prima da literatura recente, e caso você seja o afortunado dono de uma editora e queira fazer o livro chegar ao leitor brasileiro, basta me escrever que lhe darei o caminho das pedras: jterron@gmail.com ]

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A banalização foi minha Beatriz

Pelos títulos expostos nas listas de mais vendidos, seria razoável deduzir que, entre as Belas Artes, a literatura é a que menos evoluiu, restringindo-se, regras excedidas, à legibilidade. Não se insurgiu contra a tela na parede, como a pintura, instalando-se por toda a sala, nem exige óculos 3D à maneira do cinema, a fim de explodir o teto. Se, como afirmou Nietzsche, libertar-se da sintaxe é a última liberdade possível, a expressão literária supostamente mais livre é aquela sem leitores, e o best seller não passa de puro aprisionamento. Meio que reinventando a roda quadrada das vanguardas, a antologia Abstract/Ext (Abstract Editions, Espanha, 2015), organizada por David Quiles Guilló, procura “uma aproximação inicial da literatura abstrata” e dessas questões. Sem dúvida, e parece ser prerrogativa de Guilló (fundador da provocativa revista de artes visuais Rojo), há controvérsias.

Diversas conquistas formais das vanguardas do início do século 20 sobrevivem nos dias de hoje apenas no anedotário da história da arte. É raro o leitor contemporâneo ler um poema do futurista italiano Marinetti e sair transformado, pois o brilho metálico do futuro idealizado pelo artista mostrou-se fosco como plástico made in China. No entanto, ao se verificarem prazos de validades, alguns procedimentos da vanguarda perduram, possibilitando a época presente como a conhecemos. “Sem Dada, não teríamos mash-ups, samplings, fotomontagens, happenings – nem mesmo o Surrealismo, a Pop Art, ou o punk. Sem Dada, a vida moderna como a conhecemos resultaria muito diferente, e mal pareceria moderna”, afirma Jed Rasula em Destruction Was My Beatrice: Dada and the Unmaking of the Twentieth Century (Basic Books, 2015).

Evidentemente que sim. A banalização, porém, tem vencido por algumas cabeças a acirrada disputa entre os possíveis – e são tantos – males deste século 21. Com o aplicativo PicassonoBr, por exemplo, criado para a mostra Picasso e a Modernidade Espanhola, em exposição no CCBB do Rio de Janeiro, o usuário pode produzir selfies ao modo cubista do revolucionário pintor espanhol. E aqui surge a controvérsia em Abstract/Ext: por si, qualquer texto escrito não passa de abstração, de tracinhos pretos dispostos sobre a página branca que exigem decifração/interpretação. Se, diante do atual contexto editorial que privilegia a indigência textual aliada ao anódino, a opção por ilegibilidade de grande parte dos textos soa salutar – todos em inglês, de autoria do próprio Guilló, Lucie Kass, Carlos Issa e outros 42 colaboradores, em sua maioria artistas plásticos e designers –, a seleção não resulta propriamente em conceito.

Entre os procedimentos – métodos restritivos que guiem a criação em seu aspecto formal –
mais contundentes das vanguardas, a liberação do autor de seu ego certamente foi o mais eficaz. Considerando o pouco que restaria da literatura se dela fossem eliminadas manifestações subjetivas, Abstract/Ext avança pouco nesse terreno, graças ao recurso de justamente revelar ou explicar intenções por meio de notas de rodapé. Não que essa opção editorial não resulte em ironia, mesmo que involuntária. Em Meu Sonho, Dustin Hostleter manifesta um anacrônico anseio das publicações online: “Meu sonho é ter este momento digital documentado/ para sempre em forma impressa / digito estas palavras com esperança de vê-las/ em outro espaço-tempo”. A antologia foi reunida por meio do Facebook.

Abstratc/Ext – A First Aproximation to Abstract Literature, Abstract Editions, Espanha
(publicado na revista Select #25, agosto de 2015)

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Laertemetamorfose

Para apreciar a frequente transformação da obra de Laerte, basta ler suas compilações de quadrinhos. São muitas, e estão resumidas no Google. Um tapa em [ ENTER ] e está quase tudo lá. Também é possível verificar suas metamorfoses físicas através do Google Images. Outro tapa e surgirão: Laerte menino de cabelo escovinha, Laerte sindicalista e cabeludo de bolsa tipo carteiro a tiracolo, Laerte às gargalhadas numa prancheta de redação, Laerte de brinco nos anos 80, Laerte mais dois amigos, Laerte rodeado dos cães da TV Colosso, Laerte no teatro capitaneando Piratas do Tietê, Laerte alegre, Laerte tristonho, Laerte mulher. Cabe aqui breve reflexão a respeito da forma em Laerte.

Comparando-o a Glauco e Angeli, dois de seus companheiros de geração, desde o início Laerte teve um traço único, intransferível. Sua forma essencial, portanto, seu DNA, nunca mudou. É um desenho rápido, sinuoso e exato, que lembra pincelada (apesar de ser feito com caneta Pilot). Glauco precisou suar para atingir a economia quase infantil de seu estilo, em uma árdua operação de subtração. E décadas foram necessárias para Angeli alcançar seu atual estágio como desenhista, antes inimaginável em sua assimilação punk de Robert Crumb. Mas Laerte não, seu desenho sempre pareceu pronto. Surgiu assim.

Exceto pelas incursões nas HQs mais longas da época da Circo Editorial (final dos 80), na qual editou o gibi Piratas do Tietê, Laerte também pouco alterou sua sintaxe, com predominância da tira de jornal. A temática, sim, variou: infantil em Suriá, crônica autobiográfica em Laertevisão, além da profusão de personagens reunidos na série publicada na Chiclete com Banana e na Ilustrada desde 1991. No entanto, se Laerte opera com duas formas tão fixas — o traço e a tira — como o resultado pode ser tão multiforme?

Existe um buraco negro na carreira do artista paulistano que não pode ser encontrado na internet nem em livro. Corresponde (para permanecermos nas metáforas astronômicas) ao Big Bang em sua produção. É a sequência iniciada em 2005 e que coincide com a perda de seu filho Diogo. Essa série costuma ser identificada por leitores como “tiras filosóficas”. A relação com a filosofia é inegável, inclusive na brevidade aforística. Nesses quadrinhos, Laerte abandonou a antiga relação de causa e efeito dos trabalhos anteriores. Produzir piadas não fazia mais sentido, muito menos prosseguir com a camisa-de-força humorística representada pela fórmula da tira.

Idéias complexas, pensamento abstrato, silêncio em profusão, non sense, uso da cor para transmissão da proposta, reflexão gráfica sobre a precariedade do meio, inclusive das limitações da técnica de impressão do jornal que veicula a tira, tudo isso impregnado de profundas inquietações existenciais: assim passou a ser a HQ de Laerte. O uso do tempo também se modificou, assim como o abandono da muleta narrativa representada pelos personagens, que simplesmente deixaram de existir. Não limitando-se aos tradicionais três acordes da tira, cuja finalidade era culminar em tirada (virá daí o termo “tira” ou será o contrário?), as séries progrediram espacial e temporalmente, estendendo-se por vários dias. Era pura música visual.

Nesse período, a página de quadrinhos da Folha voltou a ser o espaço mais nobre do jornal, lembrando, em sua densa inventividade, Krazy Kat (1913-1944), de George Herriman, e Peanuts (1950-2000), de Charles Schulz, dois cumes da história do meio. Contudo, a perpétua busca de Laerte pela forma não se restringiu ao campo da arte. Burlando padrões impositivos de comportamento, Laerte aderiu ao crossdressing em 2010. Com isso, levou o público a considerar que talvez a forma deva se estender às nossas vidas, afinal, e que estilo pessoal e intransferível é resultado da luta contra a herança que nos é imposta. E não consigo ver maior legado na obra de um artista do que este, o de alterar a maneira com que uma geração inteira compreende a realidade.

[ revista Balada Literária #1, 2013 ]

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